
Leia a edição de Janeiro/26 da Revista E na íntegra.
POR NINA RIZZI
ILUSTRAÇÃO DE LUMINA PIRILAMPUS
tudo no mundo começou com um sim
porisso gosto que cê respire
me dizendo sim
enquanto os grilos estridulam
ramo’ curumim avie
marina pra ouriço-mar
sei pouco, muito pouco de ti. que tens sete monossílabos no nome, que esplendes e espocas como um verão inaugural. teu horizonte é um provável. como um peixe que deixa o rastro veloz no ar, é a tua mão esquerda. afeita a negros me vens ou apelos. e à ambidestra escrita da poesia. não sei se me entendes: antes de os pássaros, as algas, as luzes nervosas de um farol e as águas acolhidas nas piscinas existirem, já eras olhos, algas, sereias, conchas que me surpreendiam numa curva do teu pescoço, uma água viva entre os artelhos e nos fundos, uma mão deixada sobre a tua barriga e pélvis, um respiro, um arfar, tênue gemido entre as espumas. os poucos sinais do código, com que nos entendemos, falam de presságios, ternuras, chegânsias e um vocabulário precioso da arte nordestina. sei: teu silêncio é a marca dos teus pés nas areias, o andamento rítmico de um verso na tarde alheia. e tuas palavras em lentidão, águas que se bifurcam quando cortadas de repente. uma cesura. nunca soubeste: desejaria ser para ti como vigilante de uma marina. quem sabe, no fluir de um verão veloz adivinharás. e em nossa branda extensão, cerraremos nossos lábios.

hey lagarto,
dizes que sou
a mais bonita
das águas
das terras tropicais
dos desertos secos
de todas as árvores
de cima y debaixo
de quaisquer plantas
dizes mas saiba
só quero ser
a mais bonita
dos teus quintais
hey salamandro,
labareda é uma palavra bonita.
hey coyote,
és esplêndido assim
teus costados
enfeitados de sol

hey pangolim,
qualquer nesga de luz são mil
sóis que vão te abrindo
vértebras costelas vãos
és feito açude, labareda
a carregar bichos folhas ninas
em tuas escamas encarnadas
hey robalo,
tens uma nascente tão comprida
desaguando forte a pura pororoca
teu leito branco minhas fozes negras
eu amo como você é
um bicho
que gosta de
cascas de árvore
folhas caídas
pedras
lama
sol
e de
mim
nina rizzi é escritora, tradutora, professora e pesquisadora. Formada em história pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) e mestra em Literatura Comparada pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Traduziu obras de Abi Daré, Alice Walker, bell hooks, Chimamanda Adichie, entre outros. É autora de diversos livros, como Diáspora não é lar (Pallas, 2025) e o infantil A melhor mãe do mundo (Cia. das Letrinhas, 2022). Em 2025, foi semifinalista no Prêmio Jabuti, na categoria Tradução, pela obra Da próxima vez, o fogo (Companhia das Letras, 2024), de James Baldwin.
Lumina Pirilampus é artista visual e arte-educadora. Formada em artes visuais pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e especializada em Literatura para as infâncias pel’A Casa Tombada. Por meio da criação de narrativas visuais, explora mundos digitais e analógicos, expondo seus trabalhos em livros, animações e projeções mapeadas. É também autora-ilustradora dos livros: Biguru (Cia. das Letrinhas, 2025), Eudice (Biruta, 2024), Minha vó ia ao cinema (Cia. das Letrinhas, 2023) entre outros.
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