Paulo Freire, educação, cultura e escuta

10/03/2025

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O legado de um dos maiores intelectuais brasileiros revisitado em série documental de 5 episódios

A educação brasileira tem nome e sobrenome. Paulo Freire. Educador, pensador e referência mundial, sua obra atravessa fronteiras e campos do conhecimento, influenciando projetos educativos, culturais e sociais que vão muito além da sala de aula.

Reconhecido como um dos mais importantes pensadores da educação no século XX, Freire se tornou símbolo da educação popular e da construção de uma escola transformadora, comprometida com a autonomia, o diálogo e a consciência crítica. Seu legado segue vivo, atual e em permanente disputa — sobretudo em um país marcado por profundas desigualdades.

Cristiano Burlan, diretor da série Paulo Freire, Um Homem do Mundo, conversa sobre a importância do educador pernambucano e sobre os caminhos da produção realizada para o SescTV.

Como surgiu a ideia da série “Paulo Freire, Um Homem do Mundo”?

Cristiano Burlan: A ideia foi de uma amiga, da Célia Gambini, do consulado suíço. Eu tinha feito alguns trabalhos para o consulado, documentários de imigração e outros, e assim surgiu a ideia dela. Eu fiquei apaixonado pela ideia e dei continuidade ao projeto.

Quanto tempo demorou para a realização? Desde o processo de pesquisa até o lançamento?

Burlan: Por volta de três anos e meio, quatro anos, desde a ideia até a finalização. Foi um processo muito longo, com viagens e pesquisas. São 260 minutos de material, a maior quantidade de material editado que já produzi na minha vida.

“Para ser bem sincero, o que mais me estimulou a fazer essa série foi a curiosidade que tenho pelo Paulo Freire.”

Quais foram os maiores desafios encontrados para a realização desta série?

Burlan: Acho que o desafio é lutar contra a própria vaidade de querer fazer algo muito elaborado e sofisticado e esquecer do próprio personagem, no caso ali o Paulo Freire. E também fugir dos preconceitos, das idealizações. Para ser bem sincero, o que mais me estimulou a fazer essa série foi a curiosidade que tenho pelo Paulo Freire. Não foi só para fazer uma tese de doutorado. Eu fui porque queria descobrir quem era esse pensador, pedagogo, filósofo da educação. E também quem é o homem Paulo Freire. Um dos principais objetivos que coloquei na série foi tentar ser menos didático e falar para pessoas que talvez nunca tiveram um primeiro contato com Paulo Freire, de uma maneira mais direta.

Um dos episódios é sobre a alfabetização em Angicos. Por que esse episódio é tão singular e o que ele diz sobre a metodologia de Paulo Freire e a pedagogia do oprimido?

Burlan: Olha, o Paulo Freire não trabalhava só alfabetização, ele pensava também a política da educação. Acho que mais importante até do que a própria situação ali são as pessoas que estão envolvidas e que são remanescentes do projeto. São os alunos que foram alfabetizados por Paulo Freire. Por isso talvez seja um episódio da série muito potente, muito humano.

Há também um episódio sobre o exílio e outro sobre a volta. Como Paulo Freire foi marcado pelo exílio e o que mudou quando voltou?

Burlan: Assim que os militares deram o golpe no país, uma das primeiras ações foi mandar prender Paulo Freire. Depois que ele conseguiu sair da cadeia, foge para a Bolívia, onde ocorre outro golpe. Em seguida vai para o Chile, depois para os Estados Unidos, até se exilar em Genebra, onde ministra aulas por cerca de dez anos.

Essa pergunta é muito complexa, porque o exílio é muito cruel, principalmente para quem leciona. Você é tirado do seu ambiente, do seu país, fica afastado dos parentes e amigos. A gente paga um preço por isso. Mas, pelo que percebi em contato com pessoas que conviveram com Paulo Freire em Genebra — parentes, amigos, colegas de universidade e de projetos — ele nunca se tornou uma pessoa amargurada. Pelo contrário, manteve uma força que o movia a continuar lutando pelo que acreditava.

No episódio do exílio, quando ele volta para São Paulo, perguntaram qual era a ideia que ele tinha do Brasil. Ele retornava para um país que já não era mais o mesmo que conhecia. Então ele reaprendeu a viver.

“Antes de mais nada, Paulo Freire não só da educação, era um homem de aculturamento, de cultura de pensamento.”

Qual a importância da série para o momento atual que vivemos no Brasil?

Burlan: Falar de educação e de Paulo Freire é sempre importante, mas agora se torna ainda mais. Antes de mais nada, Paulo Freire não só da educação, era um homem de aculturamento, de cultura de pensamento. Ele está no meio da educação de influência, no meio das artes em geral.

Vivemos num país bitolado por um tipo de pensamento muito pequeno, medíocre em relação à educação e à cultura. Um pensamento tão humanista, tão resistente e sensível como o de Paulo Freire sempre será necessário — e hoje talvez ainda mais. Com todo esse desmonte que vem sendo feito, vamos levar décadas para recompor. Se a filosofia de Paulo Freire fosse aplicada nas escolas, certamente não teríamos chegado ao ponto em que chegamos.

Imagino que ainda haja muito material que não coube nos episódios. Há planos futuros, quem sabe, para um longa sobre Paulo Freire?

Burlan: Tem muito material sendo produzido sobre Paulo Freire. Meu desejo é realizar um longa-metragem para difundir em plataformas, cinemas, pelo mundo. Mas, infelizmente, com o fim de muitos editais, acho difícil que isso aconteça num futuro próximo.

Como você define Paulo Freire?

Burlan: Paulo Freire é indefinível. Mas algo que me marcou muito foi perceber que ele era uma pessoa que ouvia e escutava. Pode parecer redundante, mas é uma capacidade rara, de quem realmente se interessa pelo outro. Se interessar de verdade pela história do outro, estabelecer essa via de mão dupla, eu vi em poucas pessoas. Paulo Freire certamente foi uma delas.

Eu fui para esse projeto porque queria conhecê-lo. E essa série deixou uma marca em mim como realizador e como ser humano. Essa sensibilidade no olhar para o outro, vivenciar na prática a empatia como uma arte. É fácil falar, difícil é experienciar. Aprender o mundo pelo olhar do outro — e reaprender por ele — é uma luta diária.

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Texto original em medium.com

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