
Em quatro encontros, projeto celebra o centenário do geógrafo brasileiro com conversas sobre racismo, periferias, cidadania e desigualdades urbanas, além de uma homenagem musical a Milton Santos e Moacir Santos.
Por que algumas regiões da cidade contam com mais transporte, equipamentos culturais e serviços públicos do que outras? Por que o lugar onde uma pessoa mora pode influenciar suas oportunidades e o acesso a direitos? Essas questões ajudam a compreender o pensamento de Milton Santos (1926–2001), um dos mais importantes geógrafos brasileiros, cuja obra continua a oferecer ferramentas para interpretar as desigualdades do país.
O projeto Milton Santos: Cartografias do Brasil celebra o centenário de nascimento do geógrafo com três rodas de conversa e o espetáculo cênico-musical Dos Santos: Ritual Manifesto. A programação reúne pesquisadores, intelectuais e agentes culturais para discutir as relações entre território, racismo, globalização e direito à cidade, a partir da atualidade do pensamento de Milton Santos e de suas contribuições para compreender as desigualdades sociais e a organização dos espaços urbanos.
Para Milton Santos, o espaço geográfico não é apenas o cenário onde a vida acontece. Ele é construído pelas relações sociais, políticas e econômicas e interfere diretamente nas condições de vida da população. A localização de uma moradia, a disponibilidade de transporte público, o acesso à saúde e à educação e a presença de espaços culturais são alguns dos fatores que revelam como os recursos e as oportunidades se distribuem de maneira desigual.
Em livros como Por uma Geografia Nova (1978), A Natureza do Espaço (1996) e Por uma Outra Globalização (2000), o geógrafo analisou como os interesses econômicos e as transformações tecnológicas reorganizam os territórios e afetam a vida das pessoas. Sua obra também questionou um modelo de globalização orientado pelas exigências do mercado, que nem sempre considera as necessidades da população.

Essa reflexão se relaciona a uma questão fundamental: ter direitos reconhecidos não significa, necessariamente, conseguir exercê-los. Ao discutir as chamadas “cidadanias mutiladas”, Milton Santos chamou a atenção para as barreiras que impedem parte da população de acessar plenamente direitos e oportunidades.
Nas cidades brasileiras, essas barreiras também estão relacionadas ao racismo e a processos históricos de exclusão. A distribuição desigual de infraestrutura, serviços e oportunidades afeta de maneira distinta os grupos sociais e ajuda a compreender a formação das periferias, as disputas pelo uso do espaço urbano e as reivindicações por melhores condições de vida.
As três rodas de conversa abordam diferentes dimensões do pensamento de Milton Santos, aproximando suas reflexões sobre território e cidadania dos desafios presentes nas cidades brasileiras.
As relações entre racismo e acesso a direitos são o ponto de partida de Territórios negados, cidadanias mutiladas: Milton Santos e as relações raciais no Brasil. Com a participação do antropólogo Kabengele Munanga, José Adão e Dulci da Conceição Lima, e mediação de Melina Barbosa da Silva, a conversa discute como as desigualdades raciais se expressam na ocupação dos territórios, no acesso aos serviços públicos e nas possibilidades de participação social.

Em outra perspectiva, Da fragmentação global à centralidade periférica e a luta por direitos reúne o sociólogo Tiaraju d’Andrea e o pesquisador e músico Salloma Salomão, com mediação de Jackson Cruz Magalhães. O debate parte das transformações provocadas pela globalização para refletir sobre a posição das periferias na dinâmica das cidades e sua atuação nas reivindicações por direitos.

As favelas e as áreas historicamente marginalizadas são o foco de O chão da cidade e as margens: território, favelas e a atualidade do pensamento. Com Antônio Billy Malachias e Gabriela Barreto, sob mediação de José Evaristo Netto, a conversa aborda as desigualdades que atravessam esses territórios e as formas de organização coletiva construídas por suas populações.

Realizadas na Área de Convivência do Sesc Pompeia, as três conversas aproximam o pensamento de Milton Santos de questões presentes no cotidiano de quem vive a cidade, ampliando o debate sobre cidadania, participação social e as condições necessárias para que os direitos se tornem realidade.
A dimensão artística do projeto ganha expressão em Dos Santos: Ritual Manifesto, espetáculo cênico-musical que aproxima as trajetórias de Milton Santos e do músico e compositor Moacir Santos (1926–2006). Nascidos em 1926, os dois brasileiros construíram percursos distintos, mas igualmente relevantes para a cultura e o pensamento do país.

Estruturada em cinco atos, a apresentação estabelece um diálogo entre essas trajetórias por meio da música e de manifestações da cultura popular brasileira. A proposta reúne Congada Santa Ifigênia, Carlos Casemiro, Luzia Rosa, Renato Gama e Ronaldo Gama, articulando diferentes expressões artísticas em uma homenagem aos dois Santos.
Territórios negados, cidadanias mutiladas: Milton Santos e as relações raciais no Brasil
Com Kabengele Munanga, José Adão e Dulci da Conceição Lima. Mediação: Melina Barbosa da Silva.
Data: 4 de novembro, quarta-feira, às 19h.
Local: Área de Convivência.
Da fragmentação global à centralidade periférica e a luta por direitos
Com Tiaraju d’Andrea e Salloma Salomão. Mediação: Jackson Cruz Magalhães.
Data: 12 de novembro, quinta-feira, às 19h.
Local: Área de Convivência.
O chão da cidade e as margens: território, favelas e a atualidade do pensamento
Com Antônio Billy Malachias e Gabriela Barreto. Mediação: José Evaristo Netto.
Data: 19 de novembro, quinta-feira, às 19h.
Local: Área de Convivência.
Dos Santos: Ritual Manifesto — homenagem a Milton Santos e Moacir Santos
Com Congada Santa Ifigênia, Carlos Casemiro, Luzia Rosa, Renato Gama e Ronaldo Gama.
Data: 22 de novembro, domingo, às 17h.
Local: Rua Central.
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