Renato Noguera: coração com coração

30/01/2026

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Filósofo se dedica a refletir sobre como as pessoas amam e ressalta a potência dos afetos, a partir da sabedoria de pensadores de diversas culturas

Leia a edição de Fevereiro/26 da Revista E na íntegra.

POR RACHEL SCIRÉ
FOTOS NILTON FUKUDA

Quem recebe um abraço de Renato Noguera, às vezes, pode se atrapalhar. O filósofo e professor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) prefere abraçar as pessoas pelo lado esquerdo, de forma que os corações “se encostem”.  O ato leva em conta uma concepção do Kemet (Egito antigo), que considerava o coração como o centro das emoções, do pensamento e do caráter. Neste hábito adotado por Noguera, o movimento também perde o automatismo e ganha consciência — assim como acontece quando o nosso raciocínio é iluminado pela filosofia. 

“Meu principal objetivo é tentar compreender como as pessoas amam, como elas aprendem a amar e se empenham nesta tarefa, mais especificamente, no que diz respeito a casais”, explica Noguera, que é mestre em Filosofia pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e doutor em Filosofia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Atualmente, coordena o projeto de pesquisa “Ética de amar, casais, políticas afetivas, interseccionalidade de gênero, raça e classe”.

Em 2025, lançou o livro ABC do amor: o que a poesia e a filosofia têm a dizer sobre os afetos (Editora Oficina Raquel), em que reúne mais de cem palavras ou expressões para apresentar uma gramática dos afetos e defender a potência revolucionária do amor. “Talvez uma das questões que me mobiliza seja romper com uma cultura hegemônica calcada no medo”, afirma. 

Também é autor de títulos como Por que amamos? O que os mitos e a filosofia têm a dizer sobre o amor (Harper Collins, 2020); O que é o luto: Como os mitos e as filosofias entendem a morte e a dor da perda (Harper Collins, 2022); Mulheres e deusas: como as divindades e os mitos femininos formaram a mulher atual (Harper Collins, 2018) e O ensino de filosofia e a Lei 10.639 (Pallas, 2015). No campo da literatura infantil, publicou O aniversário do João (HarperKids, 2023) e a coleção Nana & Nilo (Hexis Editora), que ganhou versão em animação. Essa atuação também se relaciona à experiência como professor no departamento de Educação e Sociedade do Programa de Pós-Graduação em Filosofia e do Programa de Pós- -Graduação em Educação, Contextos Contemporâneos e Demandas Populares da UFRRJ, em que coordenou o grupo de pesquisa “Afroperspectivas, Saberes e Infâncias”.

Nesta Entrevista, Noguera aborda letramento afetivo e masculinidade, tema de sua palestra no Sesc Vila Mariana em dezembro, e fala sobre a importância de uma abordagem pluriversal da filosofia, que considere, por exemplo, pensadores africanos. Também comenta debates contemporâneos sobre o amor e os modelos de relacionamento, e destaca a potência dos afetos.

Por que você resolveu organizar seu livro mais recente como um abecedário?
O livro traz vários conceitos relacionados aos afetos, a partir de especulação filosófica ou do campo da psicologia, e eu gostaria de apresentar de modo a proporcionar uma “fácil digestão” para que as pessoas pudessem pensar sobre emoções. A partir de termos com cada uma das letras, como A, de abraço, ou Z, de zelo, eu falo sobre como os afetos amplificam a potência do sistema amoroso ou, de alguma forma, o desorganizam. Por exemplo, o medo é um afeto que, se estiver em alta dose, desorganiza tanto a vida da própria pessoa que sente quanto do relacionamento, pois vai existir mais desconfiança, ciúme, tensionamento. Se um casal tem o que eu chamo de “musculatura afetiva”, ele pode ter maneiras de manejar frustrações; caso contrário, às vezes o relacionamento acaba. Talvez a gente tenha que ter mais recursos para amar, para expressar o amor.

De modo geral, nos falta letramento afetivo?
A vida toda, somos convocados para a vivência amorosa. Muitas vezes pode faltar alguma ferramenta, suporte ou rede que nos ajude a acionar isso. Acho que o investimento afetivo é algo muito importante para se fazer. Nós somos seres afetivos. Somos muito mais uma máquina de sentir que pensa do que uma máquina de pensar que sente. São as emoções que nos tornam humanos e sentir talvez seja a única coisa que a inteligência artificial não vai poder reproduzir – a imprevisibilidade de um sistema orgânico que se emociona. A minha proposta é que se eu tenho letramento, se eu sei o que eu sinto, ou seja, como a raiva opera em mim, como o ciúme funciona, talvez eu consiga informar isso de um modo que não seja violento. O letramento afetivo se relaciona a isso, a investigar no corpo, na trajetória, na história de vida, como eu funciono emocionalmente. Aprender a amar é uma das coisas mais importantes para que a gente não resolva as nossas tensões com um recurso muito antigo da humanidade, que é a violência. Há formas de resolver conflitos que são coloniais. Uma forma de pensar o colonialismo é a violência, que talvez seja a linguagem principal do projeto colonial. 

Como você enxerga o amor na contemporaneidade?
Se a gente falar de relação de conjugalidade, o amor romântico entrou em crise, ainda que o amor romântico seja o campeão de bilheteria nas canções, nos romances, no audiovisual. As pessoas têm tido mais informação sobre dinâmicas amorosas e têm deslocado a centralidade do casal para pensar para além de um território especial onde o amor se realiza, compreendendo que a gente tem um campo amoroso vasto, que tem a ver com amizade, interesses, gostos, causas, objetivos, propósitos e pessoas para além da vida conjugal. Agora, no campo da vida conjugal, sem dúvida nenhuma, as pessoas estão pensando mais — nem sempre nomeando — isso que a gente chama de amor confluente, que é diferente da dinâmica do amor romântico.

O que seria o amor confluente?
Em poucas palavras, o amor confluente é justamente a compreensão de que não temos outra metade. Se o amor romântico pressupõe que a alma gêmea se encaixe com a outra, o amor confluente entende que os acordos podem ser refeitos, revistos, e que ninguém pode suprir todas as necessidades emocionais de outra pessoa. Isso é uma sombra que o amor romântico traz e é uma promessa impossível de ser cumprida: apenas uma pessoa alimentar afetivamente a outra. Então, um campo amoroso mais vasto, uma constelação de vida mais rica, com trabalho, lazer, satisfações em outras áreas, favorece, inclusive, que uma relação conjugal tenha responsabilidade afetiva e tenha bem viver para todo mundo. Um estudo do Anthony Giddens, sociólogo, mostra como a modernidade transforma a vida conjugal e amorosa. Outra autora interessante no campo da antropologia das emoções é a socióloga Eva Illouz, que fala do amor na era do capitalismo, para pensar como a lógica do mercado entra na intimidade. Então são elementos novos, em certa medida, ao longo de períodos históricos, que vão se consolidando e se modificando.

De que maneira você avalia os debates contemporâneos sobre os formatos de relacionamento?
Debates sobre temas como não monogamia, poliamor, policonjugalidade, anarquia relacional, têm sido feitos por alguns grupos de modo mais constante, mas não é algo geral. Boa parte da sociedade opera com os marcadores do amor romântico, da traição, do “felizes para sempre”. De fato, a monogamia é o padrão normativo oficial e vai existir resistência para romper com esse acordo simbólico. Existem outras questões em relações múltiplas que a gente não consegue ainda saber para onde vão, por exemplo, no campo jurídico, que envolvem patrimônio, herança. É necessário também discutir propriedade privada, o capitalismo, há muitas discussões concomitantes. Isso diz respeito a pensar não só os caminhos individuais, mas também qual modelo de sociedade a gente quer, por isso não é fácil. Penso que não existe nem a melhor nem a pior dinâmica relacional. O mais importante é que as pessoas saibam onde ficam confortáveis, em qual momento da vida elas estão, o que contempla mais o desejo delas naquele momento. Não precisamos universalizar nada neste universo, situações sempre são singulares. Esses modelos que têm que ser seguidos funcionam justamente como os três atos da comédia romântica ou dos contos de fada, que terminam com o “felizes para sempre” ou o “até que a morte os separe”. Este, aliás, é um enunciado muito ruim, que pré-autoriza a violência, como se o único critério para o fim de um relacionamento fosse a morte de uma das pessoas. O que isso mobiliza, principalmente, em uma cultura de homens agressores?

Não existe nem a melhor nem a pior dinâmica relacional. O mais importante é que as pessoas saibam onde ficam confortáveis, em qual momento da vida elas estão, o que contempla mais o desejo delas naquele momento.

É nesse sentido que você propõe um olhar sobre a afetividade que busca resgatar valores como empatia, acolhimento e circularidade, em oposição às tensões da masculinidade tradicional, que muitas vezes nega a vulnerabilidade e o cuidado?
Quando a gente fala sobre letramento afetivo, estamos falando em decodificar, mas também em nomear o que a gente sente, em compreender uma gramática das emoções. Como eu me sinto? O que eu faço com o que eu sinto? Nesse percurso, me interesso por essa discussão sobre como a masculinidade tradicional tende a produzir adoecimento, homens mantêm pouca ou baixa conexão com as suas emoções. Gênero não é uma categoria que está colada com sexo biológico. Tem relação direta com o que a gente chama de performance, com aparatos que demarcam diferenças. Por exemplo, as meninas são socializadas muito mais com brinquedos que mobilizam potências emocionais, como bonecas. Os meninos, com brinquedos instrumentais. Um estádio de futebol é um território que dá uma licença para que homens chorem, se abracem. Então são códigos socialmente construídos, dentro de um percurso simbólico que tem a ver com o patriarcado, o machismo, a misoginia. Dentro das famílias, por exemplo, no campo da parentalidade, uma criança precisa de uma referência, de um amparo de uma pessoa adulta não anônima em seu desenvolvimento. Muitas vezes, a gente aprende a fazer isso sendo pai, sendo mãe, e sempre existiu muita idealização diante disso, na maternidade, por exemplo. Já a paternidade era marcada quase com um consentimento público de ausência. No século XX, o homem podia ser pai sem saber a data de nascimento do filho, ou em qual série estava, mesmo convivendo com a criança. Hoje isso está sendo menos tolerado. Essas reflexões ajudam quem está no esforço da parentalidade, para viver isso sem cobranças, sem buscar ideais. É importante que esse adulto tenha saúde mental, esteja de bem com a sua história, para poder cuidar melhor de alguém, porque sem o autocuidado muito bem trabalhado, cuidar do outro pode ser ainda mais difícil.

Seu livro Por que amamos? O que os mitos e a filosofia têm a dizer sobre o amor traz perspectivas africanas, indígenas, orientais, ocidentais que se complementam ao tratar do amor. Como você concilia diferentes abordagens?
Eu me interesso por sistemas teóricos variados que possam, de alguma maneira, enfrentar as mesmas perguntas. Como um determinado sistema filosófico responde às perguntas sobre o amor? Quais os modelos éticos de relacionamento em diferentes filosofias? Também uso uma formulação que é foucaultiana [do filósofo francês Michel Foucault (1926-1984)] da caixa de ferramentas. Dependendo de onde queremos mexer, qual ferramenta vamos utilizar? Fiz meu mestrado nos anos 1990, a gente não tinha margem para trazer alguns debates no campo acadêmico e público, então estudei filosofia alemã, Platão, Schopenhauer (1788-1860), Nietzsche (1844-1900), Freud (1856-1939). São autores que fazem sentido para muitas coisas que continuo fazendo, mas sempre tive interesse em convocar sistemas teóricos que não estavam no rol do mundo acadêmico. O diálogo hoje é possível porque a conjuntura mudou. Talvez uma das coisas mais importantes seja pensar que na antiguidade não existia só filosofia em um único lugar do planeta. Temos textos que são do Kemet, da região do norte africano, anteriores aos textos gregos. Por exemplo, o papiro britânico 10474, do pensador Amenemope. Ele fala sobre o ato cardíaco, da inflamação como uma forma de compreender que alguma coisa não está indo muito bem. Dentro da cultura do Kemet, o coração é o centro das emoções, do pensamento e onde habita o caráter humano. Justamente esse é o órgão que faz a “digestão dos afetos”, conforme uma interpretação de Amenemope feita por mim. Nos mitos do Kemet, a figura de Ausar é responsável por pesar o coração do indivíduo. Por isso que o coração precisa estar leve, para evitar a “indigestão afetiva”.

Isso está relacionado à sua maneira de cumprimentar?
Pessoalmente, acho bom abraçar as pessoas pelo lado esquerdo. É uma questão, obviamente, pessoal. Mas justamente porque é o lado que está o coração. Isso também tem a ver com um experimento que eu passei dentro da terapia de escutar meu coração com um estetoscópio durante uma sessão. Já vi experimentações similares para casal. É uma discussão que a psicanalista Carla Vergara faz sobre a importância de casais criarem os seus rituais e, dentro dessa pesquisa, alguns casais se organizam para escutar o coração um do outro, seja com o abraço pelo lado esquerdo ou até utilizando o estetoscópio, se for o caso, para perceber a frequência. E isso tem muito a ver também com a noção de ritual, que me interessa bastante e que, para pensar, também convoco a filósofa Sobonfu Somé (falecida em 2017), da etnia Dagara, e o filósofo sul-coreano Byung Chul-Han. O papel da ritualística na vida conjugal pode ser um dispositivo ético para que os casais fortaleçam sua jornada.

São Paulo, 29 de novembro de 2025 | fFlósofo Renato Noguera no Sesc Vila Mariana | FOTO: Nilton Fukuda

Orunmilá é um nome mais conhecido como orixá do panteão iorubano, associado à sabedoria e ao destino, mas você fala sobre ele como um pensador, que o inspirou na ideia dos “biomas afetivos”. Como chegou nesse conceito?
Foi a partir do trabalho da filósofa nigeriana Sophie Oluwole (1935-2018), que realizou um estudo comparativo entre Socrátes e Orunmilá, como pais da filosofia, de forma a incentivar o reconhecimento do pensamento filosófico africano. O professor Maulana Karenga também publicou uma tradução do Odu Ifá, que é o sistema utilizado por Orunmilá. A partir desses textos, fiz algumas especulações e surgiu o termo “bioma afetivo” para pensar uma contiguidade dos microcosmos com os macrocosmos, em que a gente habitaria um ecossistema de afetos. Dentro do pressuposto presente na filosofia de Orunmilá, todos os seres vivos são formados por elementos da natureza, e os afetos se comportariam como os quatro elementos: terra, ar, água e fogo. Foi um trabalho de interpretação filosófica do pensamento de Orunmilá que realizei para lançar luz sobre temas que dizem respeito a todo mundo, como o amor. 

Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2023 apontam que o número de pessoas solteiras superou o de casadas no Brasil. Está mais difícil encontrar o amor?
Volto ao meu lugar de enunciação, que é a filosofia, para dizer que a gente tem que se perguntar um pouco sobre nós mesmos, quem somos, o “conhece-te a ti mesmo”, do Oráculo de Delfos. Uma questão filosófica que sempre permeou o meu trabalho é a necessidade de escutar a própria voz. Ainda mais em uma sociedade em que a nossa escuta é atravessada por muitos ruídos, burburinhos, palavras que estão em nossa boca, mas não são necessariamente nossas. Em tempos de redes sociais, a comparação deixa todo mundo em déficit. Tem muito isso de se medir pelo outro ou por uma ideia do outro materializada em uma imagem que, de repente, não se sustenta. Aí a pessoa não tem o abdômen correto, a altura certa, está fora do peso, nada está correto. O preço de ser uma pessoa amada é ter o corpo perfeito, uma carreira de sucesso? Envolve sacrifícios? Uma das minhas hipóteses de trabalho é que o amor não deve ser conjugado com o sacrifício. Não se sacrifique para amar. O sacrifício é um conceito que é muito frequente no campo religioso, por exemplo, judaico-cristão. O amor pode ter algo de doação, mas não de sacrifício. Pensar o amor fora desse dispositivo é um encaminhamento teórico de que eu gosto. O amor tem que ser alguma coisa que habite o conforto. Não significa que não vai ter tensão ou atrito, mas isso não é sacrifício.

O que significa pensar o amor como um projeto coletivo e a potência política dos afetos?
Eu me interesso em pensar como o amor tem uma potência regenerativa. De alguma forma, o amor teria um poder curativo. Mas não o amor de uma fantasia, de alguma coisa que seja estratosférica, que não esteja calcada na realidade. A bell hooks [escritora, professora, teórica feminista e ativista estadunidense (1952-2021) traz algo importante: o amor, para além de um sentimento, é uma ação. Então me interessa bastante pensar como essas práticas amorosas favorecem para que o tecido social fique mais saudável, para que a sociedade possa se organizar de uma forma em que os ambientes sociais sejam de segurança psicológica, para que toda a riqueza da humanidade possa se refletir na vida singular de cada pessoa. 

Assista a trechos da Entrevista com o filósofo Renato Noguera, realizada no Sesc Vila Mariana, em dezembro de 2025.

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