
Para o espetáculo, você buscou as suas origens e propôs uma reconciliação entre corpo, território e ancestralidade. Como se deu esse processo?
Esse processo nasceu de uma memória de infância: eu e meus irmãos, ao lado de nossos pais, descascando mandioca no igarapé, algo comum na rotina da minha família. Nesses momentos, aprendíamos muito com eles, ouvindo suas histórias e desejos para o nosso futuro. Essa imagem carrega uma força que move meu trabalho. Ao transformar as memórias e os signos da produção de farinha em movimento, voz, imagem e objetos, o corpo também é atravessado por essas forças. Nesse processo, o imaginário amazônico, paraense, pindorâmico, de raízes indígenas e negras, se rematerializa e me convida a reconectar-me com minhas origens e, por conseguinte, com essa energia vital, sagrada e movente que chamamos de ancestralidade.
O íntimo se relaciona com o coletivo na partilha do que nos é familiar: todos estamos em uma jornada e precisamos de um rito de cura para continuá-la

De que maneira a obra transforma memórias íntimas em um rito coletivo e como o trabalho coreográfico traduz essas lembranças?
Existe um convite coletivo: não se esquecer de si. Todos nós percorremos uma jornada neste mundo. Acredito que a família, a casa, o berço, o lugar onde nosso umbigo está enterrado são pontos de partida e, ao mesmo tempo, bússolas possíveis para nossas jornadas. Assim, o íntimo se relaciona com o coletivo no desejo e na partilha daquilo que nos é familiar: todos estamos em uma jornada e precisamos de um rito de cura para continuá-la. Quando convido o público a experienciar essa relação, também o convido a mover forças que espiralam a vida: convocando o passado a abraçar o aqui e agora, integrando-se a isso e recriando a realidade em fluxos de desejos pelo que está por vir. Como um rito de esperançar coletivo. Gestos como cortar maniva, colher e descascar mandioca, torrar e peneirar farinha, tomar banho de igarapé, assobiar para chamar o vento, acender lamparinas e comer farinha com a mão – que compõem o trabalho coreográfico – estão impregnados de sentidos e memórias. Não apenas para mim, mas para quem vem dos interiores da Amazônia. Quando esses gestos são convocados no rito artístico, criam-se portais relacionais de memórias pessoais e coletivas.
Como você enxerga o papel da dança na sociedade atual e o que ela pode mobilizar ou revelar sobre nossos tempos?
Não acredito em uma única forma de pensar, fazer ou compreender a dança. Mas, entre as que me são mais familiares, vejo um potente diálogo entre ancestralidade e contemporaneidade. Acredito que as tecnologias ancestrais oferecem caminhos para uma existência mais coletiva, saudável e em harmonia com o planeta. Logo, a dança também é espaço de denúncia e de luta. Seja de forma objetiva, desvelando as mazelas, seja reinstituindo aspectos que nos foram roubados pela maquinação capital, ou ainda pela celebração da vida – o que para mim é um ato político diante de um sistema que teima em nos matar.

Nesta performance cênica-ritualística, o artista Juani Maniva retorna às suas origens, em Concórdia do Pará, e propõe um ato de reconciliação entre corpo, território e ancestralidade. O artista se baseia na produção de farinha de mandioca e nas relações construídas em meio a essa prática agrícola, que o acompanha desde a infância e permeia as vivências de sua família, e transforma gestos, comportamentos e acontecimentos colhidos dessa vivência em um ritual de reconexão e cura. Nas recordações familiares, o performer busca um ponto de partida, mas também uma bússola para a sua trajetória. Dessa forma, entrelaça sua experiência pessoal (atravessado por múltiplos “eus” e experiências de sua vida) com uma celebração coletiva, convidando o público a olhar para seu passado enquanto partilha o presente.
For this show, you drew from your origins and proposed a reconciliation between body, territory, and ancestry. How was this process?
This process was born from a childhood memory: my siblings and I, alongside our parents, peeling manioc in the igarapé, which was a common thing in my family’s everyday life. Those were moments when we would learn a lot from them, listening to their stories and wishes for our future. This is a powerful image that drives my work. By turning memories and signs of flour production into movement, voice, image, and objects, these forces also pervade the body. In this process, the imaginary from the Amazon, Pará, and Pindorama, with its Indigenous and Black roots, rematerializes and invites me to reconnect with my origins and, consequently, with this vital, sacred, and moving energy that we call ancestry.
The intimate connects to the collective as we share what is familiar to us: we are all on a journey and we need a healing ritual to continue on it

How does this work turn intimate memories into a collective ritual, and how does the choreography translate these memories?
A collective invitation is made: don’t forget yourself. We all go on a journey in this world. I believe that family, home, the cradle, the place where our navel string is buried are starting points and, at the same time, possible compasses for our journeys. The intimate thus connects to the collective as we desire and share what is familiar to us: we are all on a journey and we need a healing ritual to continue on it. When I invite the audience to experience this relationship, I also invite them to move forces that spiral life — summoning the past to embrace the here and now, integrating with it and recreating reality in flows of desires for what is to come. Like a ritual of collective hope. Gestures such as grinding manioc leaves, harvesting and peeling manioc, toasting and sifting flour, bathing in an igarapé, whistling to call the wind, lighting lamps, and eating flour with your hands — things that make up this choreographic work — are imbued with meaning and memories. Not just for me, but for anyone who comes from the inner parts of the Amazon. When these gestures are summoned in an artistic ritual, they create relational portals of personal and collective memories.
How do you see the role of dance in today’s society and what can it mobilize or reveal about our times?
I believe there is no one way of thinking, doing, or understanding dance. But considering those that are most familiar to me, I see a powerful dialogue between ancestry and contemporaneity. I believe that ancestral technologies offer paths to a more collective, healthy existence in harmony with the planet. Dance is also, therefore, a space for denunciation and struggle. Whether objectively, exposing the ills of society, or by reinstating aspects that have been stolen from us by capitalist machinations, or even by celebrating life — which for me is a political act in the face of a system that insists on killing us.
In this ritual-performance, Juani Maniva returns to his origins in Concórdia do Pará and proposes an act of reconciliation between body, territory, and ancestry. The artist draws on the production of manioc flour and the relationships built around this agricultural practice, which has been with him since childhood and permeates his family’s experiences, turning gestures, behaviors, and events gathered from this experience into a ritual of reconnection and healing. The performer seeks through family memories to find a starting point, but also a compass for his journey. In doing so, he intertwines his personal experience (permeated by multiple “selves” and experiences from his life) with a collective celebration, inviting the audience to look into their past while sharing the present.
Confira a entrevista com com DJ Michell.
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