
Espetáculo aborda encontros culturais e questões sociais no Brasil de 1886
Com direção de Ulysses Cruz e dramaturgia de Samir Yazbek, montagem inédita propõe reflexões sobre racismo, relações de poder e o papel transformador do teatro.
Entre os dias 16 de outubro e 22 de novembro, o Sesc Santana recebe Sarah Bernhardt em São Paulo, espetáculo teatral inédito inspirado na primeira visita da lendária atriz francesa ao Brasil, em 1886. Com realização do Sesc São Paulo, a montagem parte do encontro entre a artista e estudantes da Academia de Direito de São Paulo, atual Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, para abordar as diferenças culturais entre Brasil e França em um período marcado pela efervescência do movimento abolicionista.
Com texto de Samir Yazbek e direção artística de Ulysses Cruz, a peça retoma a parceria dos artistas iniciada com o espetáculo de ficção científica Perfeita!, em 2024. Desta vez, a criação se volta a um episódio pouco conhecido da história paulistana e propõe reflexões sobre racismo, colonialidade cultural, autonomia intelectual, preconceito contra a mulher e o papel da arte na formação da identidade de um país.

Um encontro entre dois mundos
Em 1886, quando Sarah Bernhardt esteve em São Paulo, a cidade tinha cerca de 60 mil habitantes e ainda estava distante da metrópole que se tornaria no século seguinte. A atriz francesa, reconhecida internacionalmente por suas interpretações de obras como A Dama das Camélias, de Alexandre Dumas, e Fedra, de Racine, encontrou um Brasil atravessado por profundas desigualdades sociais e por debates sobre a abolição da escravatura, oficializada em 1888.
A partir desse contexto, Samir Yazbek constrói uma narrativa ficcional que aproxima a tradição teatral clássica e romântica francesa do nascente teatro realista brasileiro. O encontro entre Sarah Bernhardt e os estudantes da Academia de Direito serve como ponto de partida para discutir as tensões culturais e políticas da época e suas relações com questões que permanecem presentes na sociedade contemporânea.
“A França sofisticada de Sarah Bernhardt se depara com o Brasil em transformação, em um momento de efervescência cultural e política”, afirma o diretor Ulysses Cruz. Para ele, a visita da atriz ao país, dois anos antes da abolição oficial da escravatura, oferece uma oportunidade de explorar um episódio histórico pouco conhecido e imaginar os encontros que marcaram aquele período.
Samir Yazbek também destaca a relevância dessa história para compreender a formação social brasileira. “Quando o diretor Ulysses Cruz me contou sobre a visita da atriz Sarah Bernhardt a São Paulo, logo notei que essa história, tão pouco conhecida dos brasileiros, possibilitava um mergulho em temas que marcaram a nossa formação e que continuam ecoando em nossa sociedade”, conta o dramaturgo.

Personagens inspiradas em figuras históricas
Interpretada por Arietha Corrêa, Sarah Bernhardt é apresentada como uma mulher independente, empreendedora e à frente de seu tempo. Além de atriz, foi escritora, escultora e empresária, construindo uma trajetória que desafiou convenções sociais de sua época.
A narrativa reúne personagens inspiradas em figuras históricas brasileiras e francesas, sem compromisso com a reprodução fiel de suas biografias. Entre elas estão José Menezes, estudante de Direito e aspirante a dramaturgo que busca escrever uma peça inspirada na vida e na obra de Luiz Gama, escritor e abolicionista; e Francisco da Conceição, também estudante de Direito, que sonha em se tornar ator e se aproxima de Sarah interessado na possibilidade de ampliar os negócios de sua família no mercado estrangeiro.
A montagem também traz referências a Antônio Bento, promotor público, juiz e abolicionista; aos estudantes Florêncio de Abreu, José Bonifácio e Venceslau Brás; à advogada piauiense Esperança Garcia; e à pintora francesa Louise Abbéma, interpretada por Bárbara Bruno, em participação especial.
A presença de Luiz Gama, que morreu em 1882, ganha destaque na construção dramatúrgica. Seus ideais libertários influenciaram estudantes e intelectuais de sua época, tornando sua trajetória uma das inspirações para a peça.

O teatro como ferramenta de transformação
A montagem investiga o encontro entre diferentes tradições culturais e o potencial do teatro para provocar mudanças na sociedade. Ao aproximar personagens de contextos distintos, o espetáculo propõe uma reflexão sobre as relações entre arte, política e identidade, além de questionar estruturas de poder e preconceitos que atravessam a história brasileira.
Para Arietha Corrêa, interpretar a protagonista representa também uma oportunidade de reencontro com o palco. Desde a morte do diretor Antunes Filho, em 2019, a atriz não havia encontrado uma obra que a sensibilizasse a ponto de desejar voltar aos palcos.
“Sarah Bernhardt em São Paulo veio ao encontro de um propósito maior em minha alma, que é uma peça sobre teatro e sobre uma personalidade ímpar, uma mulher à frente de seu tempo, independente, versátil, empreendedora e forte”, declara a atriz.
A montagem marca o primeiro encontro de Arietha Corrêa, Ulysses Cruz e Samir Yazbek no teatro. Os três têm em comum a experiência de terem trabalhado, em diferentes momentos de suas trajetórias, com Antunes Filho, no Centro de Pesquisas Teatrais (CPT) do Sesc São Paulo.
Além do elenco principal, o espetáculo reúne quatro jovens artistas egressos da Escola Superior de Artes Célia Helena: Flávio Passos, Gabriel Amaral, Gabriel Frossard e Henrique Fredel. A equipe criativa conta ainda com Aline Santini, responsável pela iluminação; Jal Vieira, pela criação de figurinos e direção de visagismo; e Irmãos Lessa, pela trilha sonora original e direção musical.

Acessibilidade
A partir de 23 de outubro, o espetáculo conta com recursos de acessibilidade, incluindo interpretação em Libras, audiodescrição e recursos táteis. As sessões são abertas a pessoas com e sem deficiência.
Serviço
Sarah Bernhardt em São Paulo
Temporada: de 16 de outubro a 22 de novembro de 2026.
Horários: sextas e sábados, às 20h; domingos e feriados, às 18h.
Classificação indicativa: 12 anos.
Ingressos: R$ 60 (inteira), R$ 30 (meia-entrada) e R$ 18 (Credencial Plena).
Sessões extras: 23 e 30 de outubro; 6 e 13 de novembro, às 15h. Também haverá sessão em 12 de novembro, quinta-feira, às 15h.
TSPI: sessões gratuitas para pessoas com 60 anos ou mais nos dias 30 de outubro e 13 de novembro, às 15h.
Acessibilidade: interpretação em Libras, audiodescrição e recursos táteis a partir de 23 de outubro.
Consulte os canais oficiais do Sesc São Paulo para informações sobre ingressos, sessões e recursos de acessibilidade.

Ficha técnica
Autor: Samir Yazbek
Direção artística e espaço cênico: Ulysses Cruz
Direção assistente e direção de movimento: Leonardo Bertholini
Direção de produção: Alexandre Brazil
Iluminação: Aline Santini
Trilha sonora original e direção musical: Irmãos Lessa
Figurino e direção de visagismo: Jal Vieira
Direção de elenco: Vanessa Veiga
Elenco: Arietha Corrêa (Sarah Bernhardt), Daniel Haidar (Francisco da Conceição), Jorge Neto (José Menezes), Gabriela Correa (Esperança Garcia), Flávio Passos (José Bonifácio), Gabriel Amaral (Antônio Bento), Gabriel Frossard (Florêncio de Abreu) e Henrique Fredel (Venceslau Brás). Participação especial de Bárbara Bruno (Louise Abbéma).
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