
Foto: Ximena y Sergio
Como você conheceu o escritor Yukio Mishima?
Eu descobri a obra dele por acaso quando era muito jovem, aos 18 anos de idade. Estávamos nos anos 1980 e, pensando bem, havia passado apenas uma década da morte dele por meio do ritual suicida seppuku. Li O Pavilhão de Ouro e me identifiquei totalmente com aquele romance. Desde então, ele jamais me abandonou. Sua influência. Sua relação com a morte. Suas obsessões. Quando quero escapar do mundo, leio Mishima. Eu só me relaciono com o mundo por meio da poesia. O mundo real não me interessa. Só amo os poetas. Agora mesmo há uma frase de Mishima na minha cabeça, que pulsa como um coração, como uma batida nas minhas têmporas. Ele a escreveu para o escritor Yasunari Kawabata pouco antes de se suicidar. “Passei pelo mundo, praticamente toda a minha vida, tapando o nariz”. O mundo real cheira mal. E Mishima transforma esses excrementos em ouro. Eu também. É como se precisasse da merda ao meu redor para transformá-la em beleza.

Como o rigor formal e ritualístico do teatro Nô serviu de suporte para encenar essa despedida e o sacrifício pela liberdade? De que maneira a síntese entre o poema e os códigos orientais traduz esse gesto poético de libertação?
No fundo, retomo a obra clássica Hagoromo, do teatro Nô, que Mishima menciona em seu último romance, A Corrupção de um Anjo, o romance que enviou ao seu editor na mesma manhã em que cometeu o seppuku. É uma aposta no mundo dos anjos, no mundo da Terra Pura; é o veículo para a liberdade, para a beleza.
Angélica Liddell é dramaturga, diretora e atriz de Seppuku, El funeral de Mishima o El placer de morir.
Por ocasião do centenário de nascimento do escritor japonês Yukio Mishima, celebrado em 2025, Angélica Liddell apresenta um espetáculo baseado no código espiritual dos samurais, que combina erotismo, morte e beleza. Em japonês, seppuku é uma forma ritual de suicídio por estripação, também conhecido por harakiri, método escolhido por Mishima para finalizar sua história de vida. Com um longo poema de despedida, inspirado nos códigos do teatro nô – drama de canto e de dança praticado no Japão desde o século XV –, a artista catalã considera que o sacrifício poético está ligado à conquista da liberdade. Admiradora do escritor desde a adolescência, Angélica constrói sua obra em íntima relação com a de Mishima.
Ficha técnica
Direção, texto, cenografia e figurinos: Angélica Liddell
Inclui trechos dos textos Patriotismo e O marinheiro que perdeu a graça do mar, de Yukio Mishima. Adaptação da peça de teatro Nô Hagoromo (O manto de plumas) (século XIV)
Intérpretes: Alberto Alonso Martínez, Angélica Liddell, Masanori Kikuzawa, Ichiro Sugae, Gumersindo Puche e Kazan Tachimoto
Desenho de luz: Javier Alegría
Direção técnica: Maxi Gilbert
Operação de Luz: Kuka Batista
Som: Antonio Navarro
Direção de palco: Elena Galindo
Logística: Micaela Ferrer
Produção: Gumersindo Puche
Assistente de produção: Jaime del Fresno
Coprodução: Festival Temporada Alta, Théâtre National de Strasbourg, Odéon–Théâtre de l’Europe, Wiener Festwochen | Free Republic of Vienna, Festival Grec, com o apoio da Comunidad de Madrid
Agradecimentos especiais: Instituto Cervantes de Tóquio e ao ator de teatro Nô da escola Konparu, Tsuano Yamai
Equipe Brasil
Tradução: Beatriz Sayad
Produção executiva: Giovanna Monteiro
Assistência de produção: Yumi Ogino
Direção técnica: André Boll
Construção da cenografia: Wanderley Cenografia
Cenotécnicos: Enrique Casas, Fernando Zimolo, Mauro José, Rafael Alcantara, Wanderley Wagner e William Zimolo
Responsável técnico de áudio: Randal Juliano
Responsável técnica de vídeo: Júlia Fávero
Responsável técnica de iluminação: Sibila
Técnicos de iluminação: Emílio de Souza e Ivan Marques
Camareira: Arieli Marcondes – UMAR/Costume Care
Carregadores: André Luiz Marques Assumpção, Carlos Eduardo Gomes Fernandes, Marcos Vinícius Capim Gomes e Ygor de Oliveira Ferreira
Enfermeiras: Alessandra da Silva Santos e Andrea Vilar
Produção no Brasil: Performas Produções
Direção Geral: Andrea Caruso Saturnino
O espetáculo Seppuku – El funeral de Mishima o El placer de morir foi apresentado no dia 13/09 às 21h no Sesc Santos.
Utilizamos cookies essenciais para personalizar e aprimorar sua experiência neste site. Ao continuar navegando você concorda com estas condições, detalhadas na nossa Política de Cookies de acordo com a nossa Política de Privacidade.