Tom Zé: “Ninguém pode se livrar do diabo do seu próprio destino”

09/10/2026

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“Eu sempre lavo o cabelo antes de viajar. Nesse dia, eu estava secando o cabelo quando o Tom Zé ligou para o meu quarto pedindo pra descer na hora. Saí correndo, com cabelo molhado e tudo”, conta Cristina Carneiro, que em 2026 soma mais de trinta anos como tecladista da banda de Tom Zé. Era a primeira vez em que ela estava em turnê com o músico baiano e ainda não sabia que, com ele, os ensaios não param.  

Era uma proeza: 21 dias da Itália à Áustria, da Alemanha à Suíça, da Bélgica à França, com um repertório que fazia um sobrevoo da carreira de um músico que já tinha feito de tudo. Do prêmio popular do IV Festival da Canção da Record com “São São Paulo”, que virou a faixa de abertura do seu disco de estreia, Grande Liquidação (1968), até a desconcertante apresentação de “A felicidade” na TV Cultura, em que Tom Zé se apresentou com seus instrumentos não convencionais, como enceradeiras, serrotes e um par de esmeris que eram tocados com agogôs. Em 1995, logo depois do lançamento de Hips of Tradition (1992) pelo selo Luaka Bop, dirigido por David Byrne, Tom Zé estava na sua segunda volta pela roda da fortuna, com uma grande projeção internacional, que lhe rendeu a alcunha de “músico onívoro do Brasil”, cravada por Jon Pareles, em uma resenha do The New York Times sobre o primeiro show do artista no Central Park em julho de 1993. Era só o começo. 

“A gente já fez muito ensaio em quarto de hotel, no ônibus, na van”, relembra Cristina. Como não era possível ensaiar com os instrumentos no transporte ou no hotel, cada um fazia como podia: ou cantava a melodia de seu instrumento, ou repetia a percussão pelo próprio corpo ou fazia a mímese do seu movimento ao tocar. Para Cristina, musicista de formação erudita, o lance era observar a ordem em que a música acontece. “Foi um marco pra mim: 21 dias direto e não é uma questão de endeusar o cara, mas o Tom Zé é meu ídolo”, afirma, “Eu achava o máximo ele mudar o repertório no meio do show, isso faz parte do show do Tom Zé.”  

Entre 1995 e 1996, Tom Zé costurou a Europa, da casa de shows New Morning na França ao Teatro Nacional da Macedônia; logo depois, em 1997, o artista ainda lançaria a trilha sonora do espetáculo “Parabelo”, do Grupo Corpo, junto com José Miguel Wisnik. Este show que o Selo Sesc traz ao público no álbum Relicário: Tom Zé (Ao vivo no Sesc 1996) é o resultado desse laboratório, de uma incessante procura de Tom Zé. Como ele mesmo disse em entrevista ao Roda Viva em agosto de 1993, “Ninguém pode se livrar do diabo do seu próprio destino.” Para Tom Zé, o desejo é uma fatalidade. “Não há bom senso, não há ameaça de fome, não há carro velho, não há cobrador batendo na sua porta, não há empobrecimento da sua vida, não há nada que possa te tirar do fato de você ser vítima das suas próprias ideias.” 

“Eu acho que a música Dói [1976] já foi feita no tempo em que eu estava comprometido até a boca com os instrumentos experimentais”, afirma Tom Zé em entrevista exclusiva para comentar o repertório apresentado nesse disco do Selo Sesc. “Mas Augusta, Angélica e Consolação [1973] foi feita ainda no tempo em que eu não trabalhava dessa maneira. Eu fiz essa música, Augusta, graças a Deus, graças a Deus, porque quando eu cheguei em São Paulo, a Rua Augusta, depois da Paulista, começava a ter lojas de roupas e, quanto mais eu ia descendo, as lojas iam ficando mais sofisticadas.”  

Reprodução do jornal Folha de S. Paulo de 2 de novembro de 1996

Na época, Tom Zé tinha se casado com Neusa, com quem divide o café, a carreira e a vida até hoje. Juntos, eles moravam na Rua Angélica, que era repleta de consultórios médicos. Um dia, o músico baiano ouviu uma história por aí de que, quando São Paulo estava começando, existia um fazendeiro que era dono das terras onde começaram a fazer a Angélica, a Augusta e a Consolação e, supostamente, ele teria colocado o nome das suas três filhas nas ruas do centro expandido da cidade. A história, ainda que falsa, deu a ideia para o compositor de dramatizar e personificar as características do bairro em uma música de desilusão amorosa, um clássico do cancioneiro popular. Está nessa música, inclusive, a estrofe que Tom Zé considera a melhor da sua carreira: “Quando eu vi/ Que o Largo dos Aflitos/ Não era bastante largo/ Pra caber minha aflição/ Eu fui morar na Estação da Luz/ Porque estava tudo escuro/ Dentro do meu coração”. 

O baterista Lauro Lellis, que acompanhou Tom Zé de 1983 até 2012, lembra de cor o dia em que conheceu a figura. “Era um sábado. Foi inesquecível: Tom Zé chegou dirigindo um Chevette com um ventiladorzinho acoplado do lado esquerdo porque o carro dele não tinha ar condicionado”, conta Lauro Lellis. “Não tinha regalia, não tinha como pagar ensaio, não tinha grana rolando”, relembra. “A gente tinha que gravar das 23h às 2h porque a gente não tinha como pagar o estúdio, então a gente usava fora do horário comercial. Cheguei lá e eles estavam construindo Nave Maria.” Essa música, que Lauro considera “eterna”, foi a música de abertura da turnê europeia e do show de 1996 que o Selo Sesc apresenta. “Essa bateria que está lá fui eu que criei… sabe, toda vez que eu ouço, eu me emociono”, confessa. 

Quase dez anos depois desse encontro no estúdio, Lauro embarcava com Tom Zé em um avião para um show que mudaria o jogo. “Quando eu conheci Nova York, eu nunca imaginei tocar lá”, conta Lauro, “Cara, a gente tocou no Summerstage lotado. Tinha uma esperança ali, mas era muito mais pelo prazer de criar, compartilhar a criação, entende? Era uma coisa de ter fé na música brasileira e se sentir orgulhoso de fazer uma coisa diferenciada.” 

Essa foi a primeira história que Tom Zé me contou quando eu visitei seu apartamento em Perdizes, São Paulo. Agitado, o músico conversa de pé, andando de um lado para o outro, movendo livros e discos de vinil como se fizesse uma arqueologia de soslaio da própria história. “E teve esse outro incidente também em Nova York, que foi formidável”, diz. “Esse ano, não sei por quê, Milton Nascimento não pôde ir e alguém da gravadora fez contato para me mandar no lugar dele [para tocar no Summerstage]. Daí, o primeiro show dessa excursão, que era para ser no Canadá, foi em Nova York, no Central Park.” Tom Zé estava passando por um ostracismo tão grande no Brasil que, quando chegou, estava convencido de que faria um show de abertura para outro artista. “Eu aqui estava completamente desprezado, fora de circulação”, relembra. “Conversa vai, conversa vem, quando eu vejo o menino está abrindo o show para mim”, comenta sobre a apresentação de Alceu Valença, com quem dividiu o palco neste dia. “E o engraçado era que, quando eu cantei, o Summerstage estava entupido de um público brasileiro que não sabia nem quem era eu.”  

Na época, Tom Zé costumava ir ao centro de São Paulo e desconhecidos abordavam-no pedindo autógrafos, confundindo o artista com Raul Seixas. Enfurecido, ele fazia questão de assinar: “Tom Zé”, em uma declaração de guerra aos desavisados. “Então, quando eu cheguei no Central Park, estava entupido desse povo que me chamava de Raul, que estava trabalhando lá naqueles bares ali perto do Central Park. Então, o show foi um fracasso”, conclui. “Bom, aí viajei no outro dia pro Canadá. Fui pra uma cidade, pra outra… Quando eu cheguei, li os jornais de Nova York.” E estava lá, na página 14, a foto de Tom Zé estampada no The New York Times. 

Depois de uma elogiosa apresentação do músico, sua postura de palco e, principalmente, a sonoridade singular alcançada por Tom Zé, a resenha declarava que aquele tinha sido o show de destaque do Summerstage. “Sua banda soava tão despretensiosa quanto uma jam session de sala de estar, mas uma precisão relaxada mantinha coesos os arranjos esqueléticos enquanto Tom Zé cantava, entoava, grunhia ou imitava ruídos de máquina de pinball”, dizia a resenha de Jon Pareles, publicada no The New York Times em julho de 1993. “Ele não era um intérprete pop elegante e polido, mas um inventor encantado em exibir alguns de seus aparelhos a uma plateia receptiva.”  

Enquanto isso, a imprensa no Brasil não dava trégua. No mesmo ano, em agosto de 1993, o programa Roda Viva convidava o cantor e compositor para uma edição em que a imprensa parecia pouco interessada em conhecer histórias da turnê e processos de feitura da música. Em vez disso, houve uma grande quantidade de perguntas sobre o artista não saber falar inglês. Nunca fora poupado da linguagem do fracasso. E, em certa medida, também não se poupou. Em entrevista ao artista Hans Ulrich Obrist em novembro de 2010, Tom Zé afirma: “Bom, ao começar a fazer música eu descobri que era um compositor limitado, um instrumentista limitado e um cantor limitado. Foi isso que me ajudou a ser artista. Porque tive que me retirar do concerto dos eleitos, dos principais, dos importantes e ir para uma fronteira onde eu estava entre o som e o ruído, entre o ridículo e o aceitável.” Não é raro. Essa é uma frase carimbada do Tom Zé, do tipo que ele fala em toda entrevista: tornou-se bom por ser o pior de todos. O fantasma do ostracismo, tão frequentemente enfatizado, continuava a assombrá-lo mesmo em seus momentos de glória. 

“Toda véspera de show, Tom Zé tava alucinado”, conta Lauro, “Eu repeti esse diálogo mil vezes: eu falava, Tom Zé, seu show é do caramba, o show tá legal, vai ser foda, vamo lá, não tira essa música.” As alterações constantes no repertório, a alta exigência com os músicos e o temperamento quente no palco logo viraram parte da assinatura do artista. Se marcava um ensaio às 9h e o músico chegava às 9h, entendia que o músico estava atrasado porque a expectativa era começar às 9h. Durante as turnês, não deixava os músicos com muito tempo livre. Inventava ensaios, almoços, e o que mais. “Ele sempre trazia a banda pra ele”, conta Lauro.  

Muito antes de conhecer Tom Zé, o músico Jarbas Mariz tocava nos conjuntos de baile na Paraíba. Em 1969, seu conjunto foi convidado a receber um prêmio na televisão. A projeção era grande e Jarbas escolheu a música “2001 (Dois Mil e Um)”, uma colaboração entre Rita Lee e Tom Zé, para apresentar-se. A música, que também está no álbum de 1969 de Os Mutantes e no disco agora oferecido pelo Selo Sesc, é um emblema do tropicalismo por voltar sua forma e conteúdo ao debate entre cidade e campo, recusa e tradição. 

Vinte anos depois, em 1989, Jarbas chegou em São Paulo e começou a promover seu disco, o que, na época, significava levar sua fita cassete de casa de show em casa de show. “Funarte me ligou e perguntou: quem é o diretor do seu show?”, relembra. “Você precisa ter um diretor pra fazer esse show aqui. Conhece o Tom Zé? Acho que ele é o cara pra dirigir seu show.” Com mediação institucional, Jarbas entrou em contato e fizeram o show. Começaram a colaborar juntos. “Um dia, ele me ligou e disse: você topa me ceder dois anos e meio da sua carreira?”, conta o músico, que acompanhou Tom Zé tocando percussão, bandolim e violão 12 cordas ao longo de vinte anos.  

Para além da inovação sonora, todo o repertório do Tom Zé interessava aos músicos que o acompanhavam. “O Tom Zé fez bastante teatro, então eu aprendi muita coisa com ele”, conta Jarbas. “Eu cantava com ele o tempo todo e ele dizia: Jarbas, quando cantar, canta pra última pessoa da última cadeira do teatro.” Do espetáculo Nós, por exemplo, que apresentou junto com Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa e Maria Bethânia, em Salvador, até o musical Arena canta Bahia, dirigido por Augusto Boal, em São Paulo, a teatralidade é um fator fundamental no universo de Tom Zé. No projeto Relicário: Tom Zé (Ao vivo no Sesc 1996), o músico interpreta A Carta, terceira faixa do seu disco Correio da estação do Brás (1978), em que o eu-lírico precisa começar a escrever uma carta para mandar notícias a sua família. O final dessa música é conhecido pelo uso de fungadas como percussão que acompanha o violão, como se o suposto choro do eu-lírico desse ritmo à música. A entrega de Tom Zé ao vivo neste show é única. Gemidos, fungadas e palmas provocam um sentimento de não somente angústia, saudade e melancolia, como na versão gravada, mas também de raiva e ação, como se o artista baiano estivesse pronto para correr uma maratona depois de interpretar uma das suas composições mais sensíveis.  

Ávido pesquisador, Tom Zé nunca deixou de se interessar por outras linguagens além da música. “O tropicalismo tem aquele rapaz dos parangolés, o Oiticica, que era um ídolo para nós”, comenta na entrevista ao artista Hans Ulrich Obrist em novembro de 2010. “E quem ampliava nosso horizonte para os artistas plásticos eram os poetas concretos Augusto e Haroldo de Campos, e Décio [Pignatari].” Enquanto a lírica de Tom Zé é recheada de referências à própria música brasileira e à nossa tradição da canção, sua verve experimentalista busca transgredir essa mesma tradição. “A arquitetura era essa: o que eu fazia era botar os instrumentos como cavaquinho bem agudos e instrumentos como o contrabaixo muito graves, que aí a parte do meio onde a voz canta ficava um pouco limitada, mas eu conseguia fazer uma melodia ali, entende?”, pergunta. “Dava um certo colorido ao negócio. Quando você está entre o que é muito agudo e o que é muito grave, a voz tem uma liberdade muito grande, entre tônica e subdominante, e eu podia passar por cima de tudo. Podia brincar com a voz.” 



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