
O álbum A Viagem de Villa-Lobos, do Selo Sesc, refere-se a duas viagens: a primeira viagem de Heitor Villa-Lobos a Paris e uma viagem hipotética que o compositor faria à cidade de São Paulo de hoje. A interpretação do Projeto B de obras selecionadas de Villa-Lobos e livreto com desenhos de Manu Maltez, que mostram o músico na São Paulo atual. Disponível em CD nas Lojas Sesc e nas principais plataformas de áudio.
Na primeira viagem do compositor a Paris, em 1923, ele encontra a influência de compositores russos, como Igor Stravinsky, que fazem uma música moderna e original. Com base nessa experiência, ele comporia as obras que foram selecionadas pelo Projeto B. O grupo trabalha desde 2004 com a adaptação de obras de mestres da música erudita do começo do século 20. O Projeto B é formado por Yvo Ursini (guitarra, ruídos, arranjos e composição), Leonardo Muniz Corrêa (sax alto, clarinete, arranjos e composição), Vicente Falek (piano, arranjos e composição), Amílcar Rodrigues (trompete, cornet e flugelhorn), Henrique Alves (baixo) e Mauricio Caetano (bateria).

Mário de Andrade, em uma série de reflexões estéticas publicadas sob forma de crônicas na Folha da Manhã, entre 1943 e 1945 e reunidas, décadas depois em livro com o título de O Banquete, faz uma distinção entre as técnicas do “acabado” e as do “inacabado”. As primeiras, por serem dogmáticas, afirmativas e impermeáveis às discussões, não o interessam, ao passo que o inacabado, com sua proposta insinuante, dinâmica, é, para ele, um convite ao exercício do pensamento sensível e do olhar artístico. Excitar, desestabilizar e tirar o ouvinte de um estado letárgico são características de uma “arte
inacabada” e, neste sentido, talvez tenha sido esse o ponto central da busca dos jovens músicos do Projeto B na obra de Villa-Lobos.
A proposta intrigante deste trabalho – “A Viagem de Villa-Lobos” – aprofunda uma questão que não quer calar: que aspectos e elementos da música de Villa-Lobos permanecem (e permanecerão) contemporâneos a ponto de atraírem os ouvidos das novas gerações? O trabalho criativo do Projeto B, neste CD, propõe ao ouvinte a escuta de um Villa-Lobos “inacabado”, permeável e convidativo a novas interpretações e leituras.
Principalmente, pode-se dizer que o grupo intensifica uma característica presente, mas ainda não muito valorizada na obra do compositor: a oscilação entre o conforto e o estranhamento auditivos. Melodias populares brasileiras, harmonizadas de uma maneira tradicional trazem aos ouvidos uma familiaridade que é frequentemente destruída pela intervenção de idéias que agem em prol da disrupção, da esgarçadura do pensamento musical teleológico. Muito se fala sobre a inabilidade” de Villa-Lobos em lidar com as estruturas formais tradicionais, pautadas por um pensamento que considera o desenvolvimento musical de forma causal e direcional. Pois bem, nas mãos do Projeto B, os contrastes bruscos, os cortes formais imprevisíveis, a presença de linhas melódicas inesperadas e o uso de timbres de uma forma rude, características da poética de Villa, foram explorados de forma a provocar no ouvinte um novo e intrigante jogo perceptivo.

O Choros nº 5 – Alma Brasileira, por exemplo, começa fiel à partitura: tonalidade, andamento, melodia e harmonias intactas, apenas a presença de outros instrumentos nos indicam que não se trata da obra original para piano solo. Subitamente, na seção central, a mais rítmica da peça, explodem diferentes
timbres com uma impetuosidade já conhecida quando se trata de Villa e, no retorno à seção melódica, procedimentos de improvisação bastante livres são possíveis graças à manutenção de fragmentos rítmicos e melódicos do ostinato já assimilado pela memória do ouvinte.
Em A Bruxa – a última peça de A Prole do Bebê nº 1 – o caráter impressionista, delicado é desconstruído logo no início em proveito da exploração
das dissonâncias que, tratadas no original com a delicadeza do pianismo francês, aqui são colocadas em primeiro plano como elemento estrutural e não como
mero efeito. A sonoridade fluida e “líquida” de desenhos em intensidades pianíssimo se justapõe a momentos percussivos de muita energia e desenhos que se repetem em progressões são realizadas por diferentes timbres, tornando o elemento redundante em fragmentos espacializados e lançando o ouvido em um caminho de surpresas.
A ingenuidade e a singeleza melódica tipicamente brasileira são mantidas na Cirandas nº2 – A Condessa, pairando sobre planos de acompanhamentos que exploram dissonâncias. O brusco contraste com a seção mais rítmica, que aparece com a força de uma dança popular, nos arremessam a um tempo e a um espaço opostos mas complementares ao espírito de brasilidade presentes na peça.
Processos de expansão e afastamento cada vez maiores e de (de)formação rítmico e melódico-harmônica (Estudos para Violão nºs 12 e 8), uso de faixas de texturas superpostas e de improvisações realizadas por instrumentos raros no âmbito da música erudita, tais como guitarra e bateria, (Saudades da Selva
Brasileira) e diálogos entre música experimental, jazz e música brasileira permeiam o trabalho do Projeto B e confirmam sua opção estética diferenciada dentro
do universo na música instrumental brasileira.
Trazer à tona sonoridades, idéias e desenvolvimentos latentes na obra de Villa-Lobos, renovando e atualizando suas possibilidades de escuta, constitui-se em uma forma especial de homenagem aos 50 anos de sua morte. Deixemo-nos sensibilizar por esta proposta e embarquemos nesta viagem ao “inacabado”…
Yara Caznok

Presença é aquilo que fica da pessoa
depois que ela já foi embora.
Queria eu desenhar essa atmosfera.
Tirar foto de música. Esculpir fumaça.
Uma das coisas que mais gosto nessa coisa de arte
é que a gente pode sugerir tanto
sem precisar confirmar nada.
Esse Villa-Lobos que me apareceu nesses traços
depois de mergulhar nas adaptações do Projeto B,
foi um acerto de contas.
Levei o cara pra passear pela minha cidade
só pra ver o que sobrava.
De nós.
No começo do ano quando o Yvo me contou sobre a série de shows que o Projeto B faria com adaptações do Villa, disse pra ele – pô! quero desenhar essa bela história. Daí para o projeto virar um disco/livro foi um pulo. “A viagem” a princípio remetia ao período em que o compositor esteve na França fazendo novas amizades, assimilando influências, compondo coisas novas. Depois quando comecei a pensar no roteiro escutando as adaptações do grupo, acabei estendendo
“um pouco” essa viagem, trazendo o compositor para essas nossas ruas, avenidas, viadutos, shopping centers…
Manu Maltez

São Paulo, janeiro de 2009.
João Marcos Coelho, jornalista e crítico musical, nos telefona e dispara: “O que vocês acham de fazer um show com arranjos inusitados para a música de Villa-Lobos? Conversa com o pessoal e me liga.”
Assim o Projeto B partia nesta viagem por Villa-Lobos.
A adaptação de obras de mestres da música erudita do começo do século XX é um trabalho que o grupo desenvolve desde 2004. Está registrado no primeiro CD, Andarilho, com a adaptação e desenvolvimento de “St. Gaudens in the Boston Common”, de Charles Ives; e, no segundo CD, A Noite, com “Rondes Printanières”, trecho de “Le Sacre du Primtemps” de Stravinsky. O Projeto B é influenciado diretamente pelos experimentos realizados por esses compositores do começo do século XX. Os trabalhos com textura polifônica, polirritmia, harmonia e orquestração são um prato cheio para o grupo preparar adaptações inusitadas que por meio da instrumentação, releitura de dinâmicas, elaboração de improvisos e mescla de diferentes idiomas musicais, nos permitem digerir e transformar a música ao nosso gosto. Por quê? Simples: Ao longo do século XX, diversas vezes a música erudita e a popular se cruzaram através de seus autores; entretanto, insiste-se em separar as duas como universos diferentes, compartilhando a idéia de que a música é uma arte estática, desagregadora e conservadora. É justamente contra essas idéias que o Projeto B viaja desde a virada do século; e chega a uma conclusão óbvia – mas, que não se solidificou ao longo de gerações – de que a música é uma só.

Depois desse telefonema, o grupo se reuniu e decidiu embarcar nessa viagem. Escolhemos peças de Villa-Lobos que fizessem parte do período em que ele esteve em Paris pela primeira vez ou que tivessem claramente influência dos compositores do começo do século XX, deixando de lado o repertório mais executado de Villa-Lobos (Trenzinho Caipira, Bachianas e outras).
Para os arranjos, o grupo buscou o processo inverso ao das orquestrações das adaptações feitas nos outros dois discos e, ao invés da redução (orquestra para
combo), realizamos a expansão da orquestração (piano ou instrumentos solo para combo).
Depois de entrar em contato com este projeto, o artista Manu Maltez desenvolveu os desenhos que trouxeram o que faltava e sempre permeou a trajetória
do grupo: a nossa cidade.
Por fim, nos perguntamos: por quais processos passou a música do século XX? Quais foram nossas influências ao longo desse século? O que escutamos e o
que tocamos ao longo da caminhada do Projeto B?
As respostas dos integrantes do grupo a essas perguntas estão na abordagem dos arranjos, na execução e na livre improvisação; redescobrindo “A Viagem de Villa-Lobos”.
Projeto B
Yvo Ursini guitarra,ruídos, arranjos e composição
Leonardo Muniz Corrêa sax alto, clarinete, arranjos e composição
Vicente Falek piano, arranjos e composição
Amilcar Rodrigues trompete, cornet e flugelhorn
Henrique Alves baixo
Mauricio Caetano bateria

Produzido por Yvo Ursini
Gravado por João Zílio (Big John) em agosto e setembro de 2009 no estúdio do Sesc Vila Mariana, São Paulo.
Mixado por João Zílio (Big John) e Yvo Ursini em setembro de 2009 no estúdio do Sesc Vila Mariana, São Paulo.
Masterizado no Classic Master por Carlos Freitas
Roteiro e desenhos Manu Maltez
Projeto Gráfico Thereza Almeida
Foto Isabel D’Elia

A Viagem de Villa-Lobos está disponível em CD nas Lojas Sesc e nas principais plataformas de áudio.
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