Universo sonoro de Branca Vianna

05/01/2026

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Fundadora da Rádio Novelo, Branca Vianna atuou 25 anos como tradutora simultânea e hoje se dedica a produzir e apresentar podcasts jornalísticos com histórias diversas (foto: Ângela Siamsen)

Leia a edição de Janeiro/26 da Revista E na íntegra.

POR LUNA D’ALAMA

Criada em 2019, no Rio de Janeiro, a Rádio Novelo é considerada a maior produtora de podcasts jornalísticos do país. Em quase sete anos, já foi responsável pela produção de mais de 30 programas, entre projetos próprios e os destinados a clientes como a revista Piauí (Foro de Teresina e O Sequestro da Amarelinha), o Museu do Ipiranga e a Japan House. Em agosto de 2020, a produtora lançou sua primeira série original, Praia dos Ossos, referência no estilo narrativo em língua portuguesa, com milhões de acessos e downloads. No ano passado, a Novelo divulgou a série Avestruz Master, sobre uma grande fraude financeira ocorrida no país, nos anos 2000, que usava a criação de avestruzes como fachada para um esquema de pirâmide.

À frente da produtora está a linguista Branca Vianna, que por 25 anos trabalhou como intérprete simultânea, e hoje empresta sua voz aos podcasts Rádio Novelo Apresenta e Fio da Meada. “Quando surgiram os podcasts, para mim, se abriu um mundo maravilhoso. Vi como algo muito natural, pois sou multitasking. Já estava acostumada a ouvir e prestar atenção em outra língua, traduzir, falar com as colegas de cabine para ver se estava tudo certo etc.”, lembra Vianna.

Neste Encontros, a fundadora da Rádio Novelo fala sobre as diferenças e semelhanças entre rádios e podcasts, como surgem as histórias dos programas, de que modo equilibrar interesse público e interesse do público. Explica, também, como tratar temas sensíveis (como abuso sexual) e analisa o mercado de podcasts no Brasil – um dos maiores do mundo – , entre outros assuntos do universo da podosfera.

RÁDIO X PODCAST
O podcast é um formato em áudio que você pode baixar, que não está online o tempo todo, como uma emissora de rádio. Alguns podcasts, especialmente nos Estados Unidos, têm essa tradição de serem programas que, às vezes, começam em rádio – ou fazem o caminho contrário. Aqui no Brasil, algumas rádios pegam certos programas e os transformam em podcasts. Então, a diferença não é muito grande, especialmente quando se trata de rádios públicas da Europa e dos EUA. Para mim, é só um arquivo em áudio – pode ser qualquer coisa, mais ou menos experimental. Pode ter entrevista, ser narrativo ou uma experimentação sonora. Realmente, a diferença entre rádio e podcast é uma fronteira muito difícil de delinear.

ORIGEM DAS HISTÓRIAS
No caso de Praia dos Ossos, contei sobre o assassinato de Ângela Diniz (1944-1976) para Paula Scarpin e Flora Thomson-DeVeaux [diretora de criação e diretora de pesquisa, respectivamente, da Rádio Novelo], e achamos que seria uma boa história para contar em podcast. Isso foi em 2018, dois anos antes do lançamento. Começamos a pesquisar e vimos que havia muita gente envolvida na faixa dos 80 anos, e que poderíamos entrevistá-los. Então, tiramos do papel um plano antigo de criar a nossa própria produtora. Depois disso, a jornalista Carol Pires, que cobre política, propôs um podcast sobre o então presidente Jair Bolsonaro. Retrato Narrado foi lançado em setembro de 2020, com seis episódios e uma faixa bônus. Naquele momento, era preciso saber quem era esse homem, como foi sua infância, de onde surgiram suas ideias e obsessões. Carol foi investigar, viajou à cidade onde ele nasceu [Glicério-SP], conversou com familiares, com quem trabalhou com ele no Exército. Já o podcast Collor vs Collor surgiu por sugestão da jornalista Dora Kramer. Então, cada história vem de um lugar diferente. A gente está sempre alerta. 

TEMPO DE APURAÇÃO
A maioria das pautas sai da própria redação da Rádio Novelo, mas a gente também recebe muitas sugestões de ouvintes ou pessoas conhecidas (família, amigos). Distribuímos as pautas de acordo com o interesse e o perfil de cada repórter. Também trabalhamos com freelancers, que podem sugerir a pauta ou serem pautados. O tempo que leva depende de cada história. Algumas “viram” em semanas, outras em um ano. O podcast Sala de Espera, sobre aborto legal no Brasil, levou uns 15 meses entre a pesquisa e o lançamento, em julho de 2025.  Uma história de 20 minutos da Rádio Novelo Apresenta, por exemplo, pode levar seis meses para ficar pronta. Às vezes, é porque o fato está acontecendo à medida que estamos apurando, em outras levamos um ghosting [sumiço] de alguém. Aí a pauta fica na gaveta. As histórias que “viram” mais rápido são entrevistas em que você não precisa reunir vários áudios nem viajar. A edição e a sonorização são as partes mais rápidas. Também tem história que achamos que será longa e não rende, e outras para as quais prevemos meia hora e acabam ocupando um episódio inteiro.

PRAIA DOS OSSOS
Não considero esse um podcast de true crime, porque não investiga o crime, não tem mistério. No assassinato da Ângela Diniz, nunca houve dúvidas de quem a matou, porque o Doca Street (1934-2020) era um assassino confesso. A questão era abordar como aquele crime foi visto pela opinião pública, pela imprensa, pela Justiça. Isso aconteceu em 1976, e qualquer pessoa mais nova que eu não deve se lembrar desse caso. Então, no primeiro episódio, a gente conta o crime e, a partir dali, as narrativas criadas em torno dele. Também abordamos quem era Ângela Diniz: uma mulher bonita, sedutora, glamourosa. Mas ela não morreu por ser sexy e provocante – morreu por ser mulher. O caso, em si, é um feminicídio clássico que a gente vê tanto pelo Brasil e por outros países. Mais que o caso, nos interessava o contexto político daquilo que aconteceu no meio da ditadura, na segunda onda do movimento feminista. Hoje, passados cinco anos e meio do lançamento, Praia dos Ossos já deve ter superado sete milhões de downloads. A cada vez que sai mais alguma coisa sobre a Ângela Diniz, como filmes ou séries, nossa audiência aumenta.

RELEVÂNCIA E INTERESSE
Há histórias nos nossos podcasts que são engraçadas, chamamos de “bobo alegre”. São ótimas, a gente adora. Mas, mesmo nessas, sempre existe um fundinho de alguma coisa a mais, para podermos contar uma boa história. Temos que justificar para nós mesmos e para o público por que estamos contando determinada história agora. Qual é a relevância dela? Às vezes, são histórias que aconteceram 30 anos atrás, no século 19 ou ontem. É superimportante essa justificativa. Em geral, isso tem a ver com um contexto mais amplo, seja político, histórico, social, nacional ou regional. É raro contarmos uma história apenas porque é divertida, engraçada ou bizarra. Aliás, recebemos sugestões em que pessoas dizem: “Acho que vocês vão adorar!”. Isso já é um sinal de que, provavelmente, a gente não vai adorar. Podemos passar para outro veículo que tenha mais a ver com essas pautas, pois raramente contamos uma história só por contá-la.

MERCADO DE PODCASTS
Tem cada vez mais gente produzindo podcasts. Não acho que o mercado esteja saturado, nem de perto. O Brasil é realmente um dos países em que mais se ouvem podcasts, mas, mesmo assim, ainda é um número pequeno de pessoas [em relação ao total da população]. Acho que a audiência só vai aumentar com a diversificação da produção: podcasts para crianças, adolescentes, de esporte, de música, regionais, de uma cidade específica, de um nicho. Assim, deve aumentar o público e consolidar esse mercado. Se você olhar na lista dos 50 podcasts com maior audiência do Spotify, por exemplo, vai perceber que são todos meio parecidos. De repente, a onda vira “mesacast” com vídeo [podcast de vídeo ou videocast, em que os participantes se reúnem para uma conversa informal, como numa mesa-redonda], aí vai todo mundo produzir. Agora a onda é produzir podcast sobre o bem-estar das mulheres ou sobre religião.  Se diversificar, acho que aumenta o público. Ainda tem muito espaço.

VIABILIZAR PROJETOS
Você pode fazer um podcast regular sozinho, sem equipe de edição, publicação, divulgação. É possível, mas muito difícil. Então, de modo geral, o ideal é você ter anunciantes, apoio do terceiro setor, anúncios dinâmicos, programáticos, automáticos. Minha sugestão é atirar para todos os lados. Além disso, tentar trabalhar com plataformas (como Audible, Deezer, Globoplay). Estou nesse negócio há seis anos e já presenciei uns três ciclos diferentes. Antes ninguém sabia o que era um podcast. De repente, tudo quanto é plataforma queria financiar algum, qualquer coisa. Recebemos muita reclamação de que temos anúncios nos podcasts, mas estamos fazendo um produto caro, especializado, que leva tempo, com uma equipe grande de jornalistas experientes. Se tivermos que cobrar mensalidade para conseguirmos nos pagar sem anunciantes, o valor vai lá na estratosfera. Então, como ouvinte, também acho chato, mas ouço o anúncio. É importante.

Para Branca Vianna, o mercado ainda não está satudado de podcasts, mas é preciso diversificar as produções (foto: Kevin Rodrigues).

TEMAS SENSÍVEIS 
A gente já tratou de casos de abuso sexual, por exemplo. Esse é um dos crimes em que a pessoa que sofreu a violência não consegue se livrar fisicamente do ocorrido. E o relato dispara esse gatilho, por isso temos que tomar muito cuidado. Por outro lado, do ponto de vista jornalístico, você precisa dos detalhes do fato, saber o que aconteceu, para poder checar. Então, é um equilíbrio muito complicado e difícil de fazer. Não somos uma redação investigativa, como a [Agência] Pública ou a [revista] Piauí. No podcast Silenciadas, da Piauí, as jornalistas Cristina Fibe e Mari Faria falam bastante sobre como é difícil cobrir temas de abusos, pois não há um protocolo, algo no manual de redação. Você não aprende na faculdade a fazer uma apuração dessas. Esse podcast não trata sobre detalhes dos casos, mas sobre como cada um deles foi recebido quando chegou às redações. Mostra como é difícil apurar e publicar casos de abuso sexual no Brasil, especialmente quando os acusados são homens muito poderosos, ricos e com conexões influentes. 

RADAR LIGADO
Gosto de histórias. As que eu mais gosto em podcast são as surpreendentes, seja do Rádio Novelo Apresenta, do This American Life, do Radiolab, de qualquer um desses podcasts. Pode ser até um tema banal, sobre o qual está todo mundo falando na imprensa, nas redes sociais. Mas o podcast pega uma história e a vira do avesso, mostra um aspecto que ninguém pensou. Ou conta essa história de um jeito completamente diferente e isso faz o público parar para ouvir. Quando ouço algo assim, penso: “Achava que já sabia tudo desse assunto, mas nunca tinha pensado nesse aspecto”. Pode ser uma história triste, engraçada, tanto faz. É isso que mais me interessa nas histórias que ouço, produzo e das quais gosto. O podcast Praia dos Ossos é um bom exemplo. Pegamos uma história que muita gente já conhecia, explicamos e surpreendemos. Fizemos as pessoas pararem e refletirem.  

A podcaster e fundadora da Rádio Novelo, Branca Vianna, participou da reunião do Conselho Editorial da Revista E, no dia 26 de novembro de 2025. A mediação do bate-papo foi de Claudia Dias Perez Machado, coordenadora de conteúdo integrado do Sesc Digital.

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