Vacina contra a desinformação

02/04/2026

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Em meio à epidemia digital de notícias falsas, profissionais têm o desafio de abordar assuntos relacionados à saúde de forma acessível e acolhedora (foto: Ciência Suja/ Divulgação)

Leia a edição de Abril/26 da Revista E na íntegra.

POR LUCIANA ONCKEN

Durante as noites mais incertas da pandemia de covid-19, a falta de sono tornou-se presença silenciosa nas vielas de Heliópolis, a maior favela de São Paulo, na zona Sul da capital. Por meio de pesquisas, o projeto Observatório de Olho na Quebrada revelou que a insônia vinha, sobretudo, da angústia profunda sobre o futuro, do medo do desemprego e do desespero de não saber como pagar as contas no final do mês.  

Diante do problema, a solução encontrada foi criada no próprio território. Em vez de apenas noticiar a situação, a Rádio Comunitária de Heliópolis transformou a dor coletiva em ação, utilizando o levantamento de dados para dar visibilidade às urgências locais. Munidos de informações precisas, mobilizaram parcerias que se converteram em comida na mesa e amparo psicológico para os moradores.

Com o mesmo compromisso, a comunidade mudou o modo de informar. Quando fake news começaram a circular dizendo que a população não deveria usar máscaras de proteção, a rádio percebeu que apenas desmentir a notícia não seria suficiente. A solução foi contratar costureiras locais para produzir as máscaras ali mesmo, gerando renda e desmistificando o medo.

Em Heliópolis, a proposta da rádio comunitária não é apenas ter uma grade de programação, mas ser uma rede de sobrevivência, acolhimento e cuidado. Como resume o coordenador da rádio, Reginaldo Gonçalves, representante da União de Núcleos, Associações dos Moradores de Heliópolis e Região (Unas), “a gente não é a voz da comunidade, mas potencializa essa voz existente no território”. Para ele, é escutando essa voz que a verdadeira promoção da saúde acontece.

Reginaldo Gonçalves na sede da Rádio Comunitária de Heliópolis, tornou-se uma peça fundamental na comunicação sobre saúde na região (foto: Nilton Fukuda)

Para além da doença
O êxito de Heliópolis aponta para uma necessidade de resgatar o conceito de saúde no imaginário social. Embora a Organização Mundial da Saúde (OMS) defina seu significado como “um completo estado de bem-estar físico, mental e social, e não apenas a ausência de doença ou enfermidade”, o médico Marco Akerman, sanitarista e professor da Faculdade de Saúde Pública, da Universidade de São Paulo (FSP/USP), observa que a lógica de mercado reduziu esse imaginário ao consumo de hospitais, planos e medicamentos. Para o especialista, “a saúde real deve extrapolar o tratamento de doenças, consolidando-se no direito à cidade, ao saneamento, à cultura, à educação e ao lazer.”

Para que a comunicação traduza isso na prática, a disciplina de promoção da saúde, comunicação e educação da FSP/USP, tirou seus alunos das salas de aula, propondo as “andanças semióticas” em busca do conceito de saúde. Ao caminharem por São Paulo, os estudantes puderam traduzir as desigualdades e as potências do território em formatos inovadores, como zines de protesto, aplicativos e perfis interativos nas redes sociais. O exercício revelou que “a saúde pública funciona como um catavento: uma estrutura que só ganha movimento e gera energia quando todas as suas pás (educação, assistência social, segurança e cultura) giram juntas”, como apresenta o guia Promoção da Saúde em Ação, do Centro de Estudos, Pesquisa e Documentação em Cidades Sustentáveis (CEPEDOC/USP).

Comunicar com contexto
Historicamente, um dos desafios da comunicação em saúde foi criar pontes. Em muitos casos, veículos de comunicação e instituições de saúde abordaram o tema a partir de uma lógica autoritária, ditando regras sobre o que fazer e exigindo que a população cumprisse as orientações, desconsiderando suas vivências.

Pesquisadora e doutora em Saúde Pública, Monique Oliveira desconstrói frontalmente modelos de comunicação que não levam em consideração o contexto social dos indivíduos. “Comunicação não é troca de informação. Comunicação é um encontro de sentidos e de mundos”, defende. Ela argumenta que, no ato de comunicar, desconsiderar a complexidade da população não gera saúde, mas distanciamento: “Eu chego em uma comunidade e falo: ‘Lavem as mãos’. Mas, e se ali ninguém tiver água? É preciso estar comprometido com os sujeitos e os contextos”, pondera.

Sob essa ótica, o conceito de “letramento em saúde” ganha um significado muito mais democrático. A pesquisadora defende que o letramento serve para “abrir uma ponte de negociação onde esses mundos possam conversar”, colocando a pessoa como protagonista de suas escolhas.

Exemplo de ações nessa linha é o projeto JuventudeS e Saúde, realizado no Grajaú (extremo da zona Sul de São Paulo). Ao perceber que os adolescentes da região evitavam os serviços de saúde por medo de represálias e constrangimentos ao falarem sobre sexualidade e prevenção do HIV/aids, o projeto propôs uma solução analógica e simples: instalar caixas de perguntas anônimas nas escolas, permitindo que as dúvidas reais sobre prazer, HIV/aids e identidades emergissem longe do olhar repressor. A iniciativa trouxe aos adolescentes a dimensão do protagonismo, deixando de ser meros objetos de estudo e se transformando em comunicadores de suas próprias realidades. 

A escuta que quebra tabus
No programa da rádio Heliópolis Saúde das mulheres nas ondas do rádio, comandado pela locutora Vera Lúcia Pereira da Silva, um bate-papo com uma enfermeira e uma assistente social abriu um tema até então inesperado e que tomou conta do episódio daquele dia: a sexualidade das pessoas idosas. Revelou-se ali uma demanda reprimida e silenciosa. O sucesso do tema foi tamanho que precisou ser repetido em mais três programas, forçando a rádio a alterar sua grade de planejamento para atender ao clamor do território.

Como o tema carrega um forte peso moral, a rádio funcionou como um porto seguro, um lugar onde o anonimato foi respeitado. A adesão só foi possível porque o tom adotado fugiu do jargão clínico. “A gente procurou fazer um bate-papo com uma linguagem simples, nada muito técnico. Era para acolher, para abraçar a comunidade mesmo”, explica Vera Lúcia.

O retorno dessa abordagem humanizada extrapolou os microfones e materializou-se nas ruas de Heliópolis. Dias após o programa ir ao ar, ao caminhar pela comunidade, ela foi parada por uma ouvinte: “Veio uma senhora com os seus oitenta e poucos anos me abraçar e dizer que finalmente alguém falou aquilo que ela queria ouvir. Ela se sentiu representada”.

Linguagem importa
O processo de comunicação é amplo e envolve a linguagem acessível e livre de julgamentos também no ambiente de atendimento clínico. A revolução na comunicação em saúde, para ser completa, precisa adentrar os consultórios.

A jornalista Cristiane Segatto, ganhadora do Prêmio Esso de Jornalismo por duas vezes, resume a regra de ouro para esse ambiente: “A comunicação não é aquilo que você diz, é aquilo que o outro entende do que você diz”. Recentemente, ela traduziu em linguagem acessível o tema da endometriose, com o livro Dores femininas: a jornada humana de um médico contra a endometriose (Matrix Editora, 2025), em coautoria com o médico ginecologista Rubens Paulo Gonçalves Filho. 

O médico Luis Fernando Correia, comentarista de Saúde da CBN e TV ConnectUSA, pontua: “Na hora que você tem o dado científico mostrando que mais da metade dos pacientes sai da consulta do médico sem entender o que aconteceu, algo está errado. A culpa não é do paciente, é responsabilidade do médico, que não soube explicar”.

A escolha das palavras no ambiente clínico e na mídia tem um grande peso na adesão aos tratamentos. Essa mudança de postura encontra amparo em um movimento global caminhando nessa direção. Um exemplo é o guia Linguagem importa, endossado por diversas sociedades médicas. O documento orienta profissionais a abandonarem termos estigmatizantes que reduzem o indivíduo à sua condição. Em vez de rotular alguém como “diabético” ou “obeso”, a orientação é usar “pessoa com diabetes” ou “pessoa com obesidade”. “A existência de uma pessoa não se resume a um diagnóstico”, lembra o médico endocrinologista Fernando Valente, à frente do departamento de Educação da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD), uma das sociedades que assinam o documento.

Outro ponto crucial é a eliminação da culpa. O guia recomenda abolir expressões como “trapacear na dieta”. O endocrinologista lembra que essas palavras imprimem um julgamento moral severo, gerando vergonha e afastando o paciente do cuidado. “A linguagem deve reconhecer que viver com uma doença crônica é complexo e que as pessoas fazem o melhor que podem dentro de suas circunstâncias sociais”, observa o médico, que é criador e apresentador do primeiro podcast de saúde do Brasil, criado em 2015 pela SBD.

O médico Fernando Valente, à frente do departamento de Educação da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD), defende mudanças na linguagem médica para evitar perpetuar preconceitos (Foto: Leandro Godoi)

O submundo da desinformação digital
Se no território físico, o desafio envolve escuta e empatia, no território digital a saúde também enfrenta um inimigo invisível, rápido e que movimenta muito dinheiro: a indústria da desinformação. O alerta vem do estudo da NetLab, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ): “não se trata de ingenuidade, mas de um modelo de negócio”.

O estudo coletou, entre abril e maio de 2025, 170 mil anúncios na principal plataforma de redes sociais, tendo analisado detalhadamente uma amostra de 6.579 dessas peças. O resultado apontou que 4.997 anúncios (76%) eram fraudulentos. A coordenadora de projetos no NetLab/UFRJ, Nicole Sanchotene, uma das responsáveis pelo levantamento, explica que essa indústria utiliza o “populismo comercial”: vende soluções mágicas e fáceis para problemas reais e complexos, frequentemente acusando a medicina tradicional e a indústria farmacêutica de esconderem a cura da população.

O perigo é potencializado pelo uso de inteligência artificial. Golpistas clonam a voz e a imagem de figuras de alta credibilidade para vender suplementos inúteis ou chás milagrosos. “Tem gente ganhando muito dinheiro com isso. Existe um mercado e um sistema muito organizado de desinformação”, adverte Nicole.

Esse mercado da fraude é tão sofisticado que raramente nega a ciência de forma explícita; pelo contrário, ele a sequestra. O jornalista Theo Ruprecht, criador do podcast Ciência Suja, alerta que a desinformação frequentemente se apropria do jargão acadêmico para ganhar credibilidade. “As pessoas não estão negando a ciência, estão propondo uma leitura alternativa, completamente enviesada, porque a ciência oferece um selo que todo mundo quer usar”, reflete o jornalista.

O impacto disso na vida real pode ser significativo. Nesse cenário, um paciente recém-diagnosticado pode estar mais vulnerável, como avalia Valente. “A informação errada é pior do que não ter informação. Quando a pessoa recebe um diagnóstico, está muito vulnerável, muito sensível, e infelizmente essas pessoas se aproveitam da fragilidade para ganhar dinheiro”, lamenta o médico.

“Um dos maiores perigos dessa engrenagem é achar que estamos imunes”, destaca Nicole. Ela explica que o ecossistema digital permite a microssegmentação, ou seja, direcionar a propaganda exata para a fraqueza exata de cada usuário – e isso exige uma vigilância. “Em muitos casos, as pessoas enxergam isso como uma coisa dos outros: ‘as outras pessoas é que caem, eu não caio’. Mas é um mercado tão grande que atinge todos os perfis possíveis”, sinaliza a pesquisadora.

Para Correia, da CBN, o principal sinal de alerta de desinformação na internet é o uso do pânico como ferramenta de engajamento. “Se a primeira mensagem que você recebeu é para te causar medo, pare por aí”, ensina. Ele lembra que a verdadeira comunicação em saúde busca orientar, e não assustar. “A informação de saúde não pode levar medo para as pessoas, deve educar”, explica.

Cristiane propõe ainda ações que visem a educação para a saúde desde a infância, nas escolas. “Assim como aprendem português, matemática, as crianças tinham que aprender também a como cuidar da saúde, como ter discernimento para saber se uma informação é confiável ou não”, considera a jornalista.

Antídoto na prática
Diante de um ecossistema digital que lucra com o medo, como a ciência pode reagir? A resposta tem vindo de comunicadores que subvertem a lógica do algoritmo. O Ciência Suja aposta em grandes narrativas e investigações de campo para prender a atenção do público e criar um efeito vacina contra fraudes futuras. “A gente acredita que é possível, por meio de recursos narrativos, trazer conceitos de ciência que ajudam a desmontar a desinformação estruturalmente, servindo como proteção para os próximos casos”, explica Ruprecht.

Na internet, o cirurgião-dentista Luiz Rodolfo May dos Santos, criador do perfil Dicas odonto, adotou a roupagem do momento para traduzir ciência. Incorpora os memes em alta e o humor para combater a desinformação. “É preciso pegar as informações científicas atuais e corretas e roteirizá-las de forma leve, usando humor e uma boa narrativa”, aposta.

A arte também surge como uma poderosa ferramenta de letramento. A ilustradora e comunicadora Nathalia de Souza, que vive com diabetes tipo 1 e deficiência auditiva, utiliza seus traços para dar visibilidade a corpos e situações reais. Um exemplo prático dessa postura foi sua contribuição visual para o e-book Criança de férias – guia para manter a alimentação equilibrada e incentivar a atividade física, uma publicação da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (Abeso) também disponível em audiobook. Fugindo dos bancos de imagens com modelos que pouco conversam com a realidade da população brasileira, a artista ilustrou diferentes biotipos, etnias e constituições familiares. Em sua página Sweet ilustra, ela expande esse trabalho naturalizando o uso de bombas de insulina e aparelhos auditivos em situações de lazer, de trabalho e do cotidiano. “O fantástico, às vezes, está no simples. Se sentir representado também é saúde”, resume Nathalia. 

Com ilustrações que naturalizam
seu cotidiano com diabetes tipo 1 e
deficiência auditiva, Nathalia de Souza
faz com que outras pessoas na mesma
situação se sintam representadas

(foto: Nilton Fukuda)

Seja pelo meme que ensina sobre saúde bucal, pela ilustração que reforça a diversidade, pelo podcast que descomplica a ciência ou pelo microfone de uma rádio na favela que acolhe as dores da comunidade, comunicar a saúde no século 21 transcende o repasse de diagnósticos ou a informação sobre doenças. Envolve escuta, diálogo, acolhimento e letramento, para ser capaz de saber de si a partir do olhar para o coletivo.  

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