Vera Drake, peregrina da compaixão

02/10/2026

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O Segredo de Vera Drake é, essencialmente, um filme sobre o cotidiano. Um cotidiano em reconstrução material e emocional após os horrendos anos em que a Alemanha nazista ameaçou a capital inglesa com bombas e destruição. Ante as traumáticas memórias de perda, o movimento, na Londres de 1950, quando se passa o filme, é de retomada da vida, entre o trabalho, os afetos, os projetos pessoais, a interação mútua e também as durezas no que se entende como sobrevivência.

Dona de casa, faxineira, cuidadora, mãe, esposa e amiga de muitas pessoas, Vera Drake é uma espécie de peregrina, senão “santa”, que ampara a muitos por compaixão. A doçura e o sorriso habitam seu rosto a cada passo que dá pelo bairro operário onde vive. Stan, seu marido, tem com o irmão uma oficina mecânica enquanto o filho, Sid, é alfaiate e Ethel, a tímida filha caçula, trabalha numa fábrica de lâmpadas, além de estar noiva de Reg, amigo da família.

Família, amigos e trabalho são uma célula que compreende todo um estado de coisas, ou seja, uma realidade de mundo. O filme traz, assim, uma sociologia aparentemente idealizada que vai, ao longo dos acontecimentos, revelando suas fissuras. O diretor Mike Leigh erige uma fábula do proletariado que, por contradições e revelações, vai se dissolvendo ao longo da trama e também na recepção que o espectador desavisado terá de lidar ou, pelo menos, tomar um partido.

Vera Drake também socorre jovens mulheres náufragas de recursos e de amparo que acabam engravidando por acidente ou violência. O gesto de Vera como aborteira é consciente e puro. Diferentemente de suas atividades como cuidadora e diarista, ela nunca recebeu um centavo pelos abortos. Detida, ela de pronto assume e explica à polícia que o faz porque “elas precisam de ajuda, elas não têm ninguém”. A compaixão permanece intacta a tal ponto que Vera Drake prefere, sob todas as consequências, assumir seus atos como gestos de amparo. E, não só, como sobrevivência, um ato de graça e de fé junto à imanência do mundo real.

O Segredo de Vera Drake fica junto da sua protagonista — e justo também, porque Vera opta pelo sacrifício. Não à toa, Imelda Staunton ganhou prêmio de melhor atriz no Festival de Veneza e também no BAFTA. Mike Leigh, melhor diretor no BAFTA, teve seu filme premiado com o Leão de Ouro de melhor filme. Importante citar que Leigh, cineasta radicado no teatro antes de enveredar pelo cinema, adotou aqui um extenso processo de improvisação que revelaria cada um dos personagens.

Num filme cuja diegese adota um tom de “fábula enviesada” com traços de materialidade social, Mike Leigh vez e outra quebra essa dinâmica quando insere, em paralelo, situações esquemáticas — a mais gritante é um contraste entre as jovens sem recursos e uma de família abastada que, violentada, teve pelo menos a chance de um atendimento hospitalar devidamente assistido.

À parte isso, O Segredo de Vera Drake possui, para um filme de 2004, um interessante viés de “obra atual”. Num traço sutil no filme, mas bem perceptível hoje, o interrogatório e detenção de Vera no departamento de polícia e mais tarde no julgamento não mostram nenhuma violência física que não a institucional, esta sempre aveludadamente agressiva. Em meio a isso, numa presença definitivamente indelével, uma policial lida com Vera Drake como só uma mulher poderia amparar outra mulher.

Por Paulo Santos Lima, jornalista, crítico, curador, pesquisador e professor de cinema em atividade desde 1998, atuando em veículos como Folha de S. Paulo e Valor Econômico, além de cursos e mostras no CineSesc, Sesc Consolação, Sesc Belenzinho, entre outros. Membro da ABRACCINE.

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