
Entre análises e histórias de resistência, Pumla Dineo Gqola examina como a violência contra as mulheres é sustentada por estruturas sociais que transformam o medo em ferramenta de controle
Não ande sozinha à noite. Avise onde está. Evite usar roupas curtas. Saiba com quem anda. Não beba. São muitas as lições de sobrevivência que forjam as mulheres, como se, num mundo patriarcal, coubesse a elas garantir a própria segurança. Em A fábrica do medo feminino, a pesquisadora sul-africana Pumla Dineo Gqola nos mostra que esse script habitual, jamais seguro o suficiente, nos prepara para uma vida de medo. Analisando diferentes manifestações da violência contra a mulher no mundo, a autora expõe as engrenagens do que une todos os países: a fábrica do medo, em cuja linha de produção se amontoam corpos de mulheres violentadas, quando não assassinadas, que não levam à interrupção do maquinário misógino, mas sim à ampliação do terror de ser a próxima vítima. Para Gqola, o medo de ser violentada se torna um idioma que exige uma perversa fluência das mulheres, que se veem forçadas a conduzir a vida a partir de um cálculo vigilante, como se viver e evitar a violência fossem sinônimos. Não à toa, ela se pergunta: quem seríamos e o que faríamos se não tivéssemos que nos preocupar em nos manter vivas num momento em que abundam casos de feminicídio?
Comprometida com o feminismo, ela escolhe apresentar histórias de mulheres que, mesmo sem deixarem de temer, escolheram sustentar seus desejos. Lupita Nyong’o e Marielle Franco aparecem, ao lado de mulheres comuns, não apenas como vítimas da violência de gênero, mas, especialmente, como exemplos de uma coragem de viver que não depende da falta de medo.

Assim, se as mulheres não estão seguras em lugar algum — sobretudo quando é preciso desmontar a ficção do homem monstruoso e entender que em toda parte a misoginia forma os homens —, Pumla Dineo Gqola nos convoca, por meio de suas análises contundentes, a desaprender o idioma do medo e, coletivamente, lutar por um futuro livre do patriarcado.
* Texto originalmente publicado na orelha do livro.
:: Trecho do livro
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