
Ancorada nas origens, a atriz, cantora e diretora compartilha as motivações de sua trajetória artística
Leia a edição de Abril/26 da Revista E na íntegra.
POR RACHEL SCIRÉ
FOTOS NILTON FUKUDA
Com os pés enraizados na periferia de Taboão da Serra, região metropolitana de São Paulo, e o olhar voltado para um horizonte descortinado por artistas como Léa Garcia (1933-2023), Ruth de Souza (1921-2019) e Elza Soares (1930-2022), Naruna Costa tem firmado presença na cena brasileira. Só nestes primeiros meses do ano, a atriz pode ser vista na telenovela Coração acelerado (Rede Globo, 2025) e no longa Salve geral: irmandade (2026), derivado da série Irmandade (Netflix, 2019-2022), que protagonizou.
Apesar da visibilidade midiática, Naruna se nutre do teatro, especialmente no Espaço Clariô, sede do grupo de teatro de mesmo nome, do qual é uma das fundadoras. É ali, no munícipio em que cresceu, que ela coloca “os pés no chão para poder voar mais alto”. Criado em 2002, com o intuito de realizar produções que dessem conta de abordar “as trajetórias daquela população, daquele elenco, naquele lugar”, o grupo teatral buscava inverter a lógica: “em vez de a periferia ir para o centro consumir arte, fazer um movimento do centro para periferia”, conta.
Essa demanda dialogava com a própria história da atriz, cantora e diretora, que teve acesso às artes cênicas apenas na adolescência, a partir de oficinas da União Teatral Taboão (UTT). Formou-se no Senac e ingressou na Escola de Arte Dramática da Universidade de São Paulo (EAD/USP), em 2004, na qual aguçou o olhar crítico diante da carência de representatividade preta e periférica no curso e nas produções em cartaz.
Nos palcos, ganhou destaque em montagens como Hospital da gente (2008), do Clariô, Garrincha: uma ópera das ruas (2016), do diretor estadunidense Bob Wilson (1941-2025), quando viveu Elza Soares, e no espetáculo Elza, o musical (2025). Algumas participações mais recentes no audiovisual são Hoje eu quero voltar sozinho (2014), Marighella (2019), as telenovelas Beleza fatal (HBO Max, 2025) e Todas as flores (Globoplay, 2022).
Pela direção teatral de Buraquinhos ou o vento é inimigo do picumã, do coletivo Carcaça de Poéticas Negras, Naruna tornou-se a primeira mulher negra a conquistar o prêmio da Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA), em 2018. Em 2024, também ganhou o Prêmio Shell de Teatro pela direção musical de Boi Mansinho e a Santa Cruz do Deserto, do Grupo Clariô. Sobre essa trajetória fecunda e engajada, Naruna Costa fala neste Encontros.

Acredito na representação enquanto representatividade, nesse aporte do próprio corpo para poder somar em outras frentes. Existe um lugar de atuação no sentido de agir, não de falsidade.
origens
As memórias da minha infância e juventude traduzem o jeito como vejo e penso a arte hoje. Me afirmo a partir do ponto de partida de uma criança que cresceu em um ambiente rural, em um bairro em Taboão da Serra. Meu pai foi um dos primeiros moradores, era um local com pouca estrutura, sem asfalto e saneamento – tenho muito forte a imagem de buscar água em outro bairro, com as nossas latas. Ao mesmo tempo em que estava vivendo um momento lúdico, de relação com a natureza, com os animais que meu pai criava, existia a situação de sempre deparar com algum tipo de notícia ou de violência explícita normalizada naquele ambiente. Minhas memórias são de um pai preto que, sem dizer, trazia referências da religiosidade afro, afetado também por essas violências, com bastante reza, a presença de uma misticidade em casa, muitos cantos dele e de minha mãe. A relação com a cultura nordestina, que é o que a minha mãe traz como herança de Alagoas e Pernambuco, região da família dela, e as comidas, cantorias e a religiosidade de Minas Gerais, de onde veio meu pai. Trago um balaio que traduz um pouco o meu jeito de fazer teatro hoje.
representar
Vejo o meu ofício enquanto atriz do mesmo jeito que enxergo o teatro: a possibilidade de ser muitas coisas. O teatro é a casa de todas as artes, a gente consegue colocar todas as linguagens lá dentro. Acredito na representação enquanto representatividade, nesse aporte do próprio corpo para poder somar em outras frentes. Existe um lugar de atuação no sentido de agir, não de falsidade. Como diretora também, porque ofereço para o elenco e para o trabalho um ponto de vista de fora, mas com muito material de quem entende o teatro por dentro. Ser atriz de teatro de grupo faz toda a diferença.

travessia
A maioria dos meus projetos como diretora tem sido com elencos negros. Minha mediação é tentar fazer com que a tradução dos nossos sentimentos e anseios consigam ser feitos sem passar pelo emocional do artista que está no palco. Nós estamos lutando por muitas coisas, quando um artista negro vai para cena, falar de questões que lhe dizem respeito, é muito arriscado. A estética desse trabalho precisa ser muito bem construída para que ele não paire no palco e fique sozinho ali, fazendo terapia. Para traduzir essas dores para a plateia, a gente precisa criar artifícios estéticos, essa é a minha maior pesquisa. Tenho investido em uma linguagem de travessia, que ultrapasse nossas dores e chegue na plateia de forma nítida, para que, em vez de ter dó de quem está no palco, o público reflita. Por isso gosto muito de textos que são gostosos de serem ditos, têm fluidez na fala, muitas imagens. Isso evita de se entrar na catarse desde o início e ficar morando nela, sem conseguir dar conta depois de refletir sobre essa sociedade que a gente está vivendo ou gostaria de viver.
reconhecimento
É muita responsabilidade ser a primeira diretora negra a ganhar o APCA, depois de mais de 50 anos de existência da premiação. Esse reconhecimento também está relacionado ao fato de termos estado em cartaz no centro de São Paulo. Mesmo com 20 anos de Grupo Clariô, muita gente não conhecia meu trabalho, porque as estreias e temporadas sempre foram em nosso espaço. A nossa pesquisa é de mais de 20 anos e muita coisa interessante aconteceu com o fortalecimento do movimento de cultura periférica de São Paulo e a formação dos grupos pretos, que são Os Crespos, o coletivo das Capulanas, o Coletivo Negro, Os Inventivos e o Grupo Clariô de Teatro. Todos são de uma mesma geração e foram fundamentando uma linguagem um pouco mais fortalecida, para que outros grupos pudessem hoje escrever as suas dramaturgias. Quando uma geração mais jovem me convida para dirigir, está dialogando com isso. Juntos, vamos pensar as motivações atuais, porque antes talvez fosse necessário denunciar as violências diretas que a gente sofria. Agora as subjetividades são outras, é possível colocar no palco emoções, outras demandas da população negra.

audiovisual
A linguagem do audiovisual é muito importante politicamente para a população negra, é um jeito de reforçar ou ressignificar nossas imagens. Tem um lugar ali de formação política e cultural, em que a televisão e o cinema são responsáveis pela imagem que a gente representa para a sociedade. A maneira como cada personagem é abordado, como as produções estão pensando essas narrativas, envolve uma responsabilidade muito grande. Há uma luta, desde Ruth de Souza, Léa Garcia, e me sinto responsável por dar continuidade à caminhada delas. Fora que existe uma visibilidade na comunidade, é legal chegar na quebrada e ser a mina da novela, tem as tias, as pessoas da família, gente que eu convivo e fala: “nossa, você estava na televisão!”. Parece que cria uma ponte, uma esperança de outras perspectivas.
chão
São muitas as delícias e as dores de manter um teatro, o Espaço Clariô, de pé durante duas décadas. Não é fácil financeiramente, estruturalmente e politicamente. Existe uma questão também de liberdade criativa e de conexão com as nossas raízes, que é o lugar simbólico mais importante do Clariô. Eu faço teatro e me penso artista enquanto uma pessoa preta e periférica, que vem de uma periferia muito específica, que abraça muitos lugares do Brasil. Essa multiculturalidade é material de trabalho para mim e de recuperação das minhas forças enquanto artista brasileira. Eu vou para um monte de lugar, mas quando volto para casa, reorganizo a minha arte, a minha história, reconecto com a minha ancestralidade, meus objetivos espirituais e políticos. Coloco meus pés no chão para poder voar mais alto. Não é só um lugar concreto. Mas é claro que a gente valoriza muito ver três gerações crescerem lá dentro, jovens que tinham perspectivas muito diferentes do que têm hoje, se formando artisticamente, entrando na profissão a partir da referência do espaço, crianças que entendem o acesso ao teatro como um direito, o que não foi meu caso.
Clarianas
O Clarianas é um projeto musical que nasceu do espetáculo Hospital da gente, o primeiro do Grupo Clariô, e teve uma repercussão muito grande. A gente ia de casa em casa, cantando, bater na porta do povo, chamar para assistir à peça. A pesquisa de sonoridade vocal nasceu para o espetáculo, não tínhamos ainda os textos, não sabíamos o que montar e fomos olhar para as nossas ancestrais, inclusive as que estão mais perto, mães, avós, o que elas cantam, como são as vozes. Chegamos em um universo de cantos de trabalho, de cura. A gente fala que a música é um jeito de estar mais perto de Deus, e Deus é uma mulher negra. Então a música nos conecta com aquilo que a gente não tem acesso direto, porque nos foi tirado no modo como esse país foi construído.
A artista Naruna Costa esteve presente na reunião do Conselho Editorial da Revista E, no dia 26 de fevereiro. A mediação do bate-papo foi da jornalista Rose Silveira, que integra a Gerência de Estudos e Desenvolvimento do Sesc.
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