
A obra marca o começo de uma pesquisa sobre zonas em transição. Quais os disparadores dessa investigação e o que nela te instiga?
Eu sempre me pergunto qual material me interessa articular em termos de criação coreográfica. O mais perto que cheguei dessa resposta foi por meio de uma abordagem de Marcelo Evelin, Meg Stuart e Maria Scaroni – artistas que se relacionam com estados emocionais, psíquicos ou “estados de dança”. Essa forma de perceber a dança me interessa, pois também evoca a relacionalidade constante com o ambiente. A palavra “zona” chegou para mim (como corpo branco brasileiro, imigrante, desobediente de gênero, queer) através de questões pessoais, por estar passando por muitos aeroportos, controles de segurança, estações de trem, casas que nunca viram casas. Ela foi se repetindo no cotidiano até virar coreografia. E um dia eu pensei: “Zona é esse espaço temporalmente inscrito numa geografia completamente abstrata, que afeta o corpo de forma física e emocional”. O corpo se modifica quando em contato com determinadas zonas. E, por ora, “zona” traz uma certa malícia coreográfica pra gente.
Qual dança se dança talvez diga de qual sonho se sonha. Dança nenhuma é inocente. Há uma relacionalidade constante com a cultura, com o modo como os corpos brincam e brigam.

A noção de transbordamento se faz presente no trabalho. De que forma você encara esse conceito?
Transbordar chega através de “derrama”, no título da obra. Diferentemente do transbordar, que pode ser cíclico, contínuo, natural, o derramar evoca um acidente, um imprevisto. Há algo na ideia de derramar que carrega urgência, quase um colapso: um limite é ultrapassado, e o que antes estava contido, vaza. As duas palavras evocam imagens semelhantes sobre um corpo, um elemento, que ultrapassa uma fronteira. Mas o modo como isso se dá muda o sentido do acontecimento. Essa diferença entre transbordar e derramar também nos atravessa como tema coreográfico: o que escapa do corpo? O que o corpo não consegue mais conter? O que acontece quando se derrama – fisicamente, emocionalmente, politicamente? Essa ideia do corpo afetado por zonas encontra no derramar um gesto que não é mais só estado, mas consequência. Algo que se precipita. Por isso, “derrama” é uma chave para pensar composição, presença e dramaturgia.
Como você enxerga o papel da dança na sociedade atual e o que ela pode mobilizar ou revelar sobre nossos tempos?
Eu acho que a dança não tem um papel, mas sim o papel que podemos dar a ela. Qual dança se dança talvez diga de qual sonho se sonha. Dança nenhuma é inocente. Há na dança uma relacionalidade constante com a cultura, com o modo como os corpos brincam e brigam. Talvez o ato de dançar seja um grande ensaio de brincar e brigar. Quando penso em dança como matéria, eu a vejo por tudo: no espaço doméstico, na rua, no teatro. A dança tem essa coisa esquisita de ser doméstica e pública ao mesmo tempo. É esse mistério que “nos pega”, algo que acontece ao corpo a partir do corpo. Tenho um fascínio por esse mistério que vem, quase como que sentir o tempo e lembrar do que não se sabe que se lembra enquanto se dança. Talvez seja não esquecer?

O espetáculo marca o início de uma jornada de pesquisa iniciada por Catol Teixeira na direção de “zonas” que se tornam danças. Nelas, harmonia e dissonância podem moldar um espaço compartilhado de linguagem do movimento. Concebido para três dançarinos, este capítulo de abertura foi criado para situações ao ar livre e à luz do dia, durante o crepúsculo. A performance serve como uma ode aos espaços liminares, abraçando as fronteiras de transição e transformação: busca-se dançar e celebrar o momento preciso em que o próximo movimento ainda não é conhecido, mas sentido. Evocando noções de “derrames” e “transbordamentos”, a obra lida com qualidades aquosas: o transbordamento como um prazer poético, mas, ao mesmo tempo, como uma enchente perigosa, uma destruição provocada pelo fracasso da sociedade moderna e colonial.
The work marks the beginning of a research into zones of transition. What triggered this investigation, and what draws you to it?
I always ask myself what material interests me in terms of choreographic creation. The closest I’ve come to an answer has been through the approaches of Marcelo Evelin, Meg Stuart, and Maria Scaroni — artists who work with emotional, psychic, or “dance states.” This way of perceiving dance interests me because it also evokes a constant relationality with the environment. The word zona reached me (as a white Brazilian body, immigrant, gender nonconforming, queer) through personal matters, as I moved through many airports, security checkpoints, train stations, and houses that never felt like homes. It kept repeating itself in my everyday life until it turned into choreography. One day I thought: “A zone is this temporally inscribed space in a completely abstract geography, which affects the body both physically and emotionally.” The body changes when in contact with certain zones. And for now, zona also brings with it a certain choreographic mischievousness.
What dance is danced may say what dream is dreamed. No dance is innocent. Dance is in constant relationality with culture, play, and clash.

The notion of overflow is present in the work. How do you approach this concept?
Overflowing emerges through “derrama” (spilling), in the work’s title. Unlike overflowing, which can be cyclical, continuous, natural, “derrama” (spilling) evokes an accident, an unforeseen event. There is something in spilling that carries urgency, almost collapse: a limit is crossed, and what was once contained spills out. Both words conjure similar images: a body, an element, crossing a boundary. But the way it happens changes the meaning of the event. This difference between overflowing and “derrama” (spilling) also cuts through us as a choreographic theme: What escapes from the body? What can the body no longer contain? What happens when it spills — physically, emotionally, politically? This idea of the body affected by zones finds in spilling a gesture that is no longer just a state, but a consequence. Something precipitates. That is why “derrama” (spilling) is a key to thinking about composition, presence, and dramaturgy.
How do you see the role of dance in today’s society, and what can it mobilize or reveal about our times?
I don’t think dance has one role, but rather the role we give it. What dance is danced may say what dream is dreamed. No dance is innocent. Dance is in constant relationality with culture, with the ways bodies play and clash. Perhaps dancing is a great rehearsal for playing and clashing. When I think of dance as matter, I see it everywhere: in domestic space, in the street, in the theatre. Dance has this strange quality of being both domestic and public at once. That’s the mystery that “gets us”, something that happens to the body through the body. I am fascinated by this mystery, which comes almost as a feeling of time itself, of remembering what one does not know one remembers while dancing. Perhaps it is about not forgetting?
The performance marks the beginning of a research journey by Catol Teixeira into “zones” that turn into dances, where harmony and dissonance shape a shared language of movement. Conceived for three dancers, this opening chapter was created for outdoor settings in daylight, at twilight. It is an ode to liminal spaces, embracing thresholds of transition and transformation: to dance and celebrate the precise moment when the next movement is not yet known, but already felt. Evoking “spillage” and “overflow,” the work explores watery qualities: overflow as poetic pleasure, but also as a dangerous flood, a destruction caused by the failures of modern and colonial society.
Utilizamos cookies essenciais para personalizar e aprimorar sua experiência neste site. Ao continuar navegando você concorda com estas condições, detalhadas na nossa Política de Cookies de acordo com a nossa Política de Privacidade.