Em memória de Ademir Barros dos Santos
Estamos aqui, nesse espaço da quarta edição de Frestas – Trienal de artes que condensa a cosmovisão kaingang, através das palavras de Tadeu Kaingang. Com elas, costuramos as conexões entre as elaborações do mundo e as práticas que elas geram. Não nos interessa definir inícios ou finais, como nos ensinou Antônio Bispo dos Santos (Nêgo Bispo), mas gerar envolvimentos nos processos, entendendo que caminhar não é uma ação linear, mas construída com passos, que podem ser sincronizados ou descompassados, envolvida em entroncamentos, encantamentos, encontros, atolamentos, alargamentos, lentidões, estreitamentos, ligeirezas. O caminho pode ser fundo, curvo, torto, plano, incerto. Praticamos o thaki, conceito andino que reforça a importância de nos conectarmos com o sagrado, também apresentado por Silvia Rivera Cusicanqui.
Percorrer esse longo caminho em três foi um gesto de amplitude. Entre idas e vindas, descompassos e sincronia, pareadas em frequências harmônicas e disconformes regidas por circularidades de retornos e sobressaltos. Foi preciso “pisar no chão devagarinho”, como já nos disse a sambista Dona Ivone Lara, e “sustentar a pisada”, como adverte a forrozeira Cátia de França. Nessa busca, conectamos nossos ouvidos e pés ao solo de Sorocaba, entrecruzando os nossos caminhos com os de Frestas, marcando os nossos rastros com respeito por este chão, cavando buracos ou cobrindo outros quando preciso, construindo pontes quando encontros dependiam delas, fertilizando solos e deixando vegetações crescerem.
Essa foi a forma que demos ao desejo de lançar mão do encontro como método, que se deu ora entre artistas, ora entre coletivos, comunidades e entes, ora entre locais de rezo. Foram convites ao trabalho colaborativo — e à construção da amplitude das possibilidades de ser e estar no mundo, de se fazer e entender a arte que ocorre quando nos juntamos. Quisemos refletir coletivamente sobre a frequência e necessidade de firmar os passos em superfícies profundas.
Essa jornada culminou nessa exposição que extrapola o espaço Sesc, com diferentes áreas e profissionais envolvidos, e conflui aproximadamente 102 participantes, entre artistas, iniciativas comunitárias e lugares vivos do território, gerando um conjunto de pelo menos 180 projetos e obras, que oferecem ao público formas de caminhar e demonstram que rezos são atos políticos.
A prática educativa tem centralidade na exposição e mantém sua força vital sem ignorar tensões, como não nos deixa esquecer Silvia Rivera Cusicanqui.
Queremos que Frestas seja uma zona de encontros, de reverberação de práticas que reconheçam as contradições como parte da realidade social e política, que valorize a autonomia de cada discurso presente em cada projeto e obra que adentra ao território Sesc Sorocaba. Como zona de encontro, Frestas também resulta de processos de afirmação dos saberes gerados pelas distintas relações possíveis que a vida promove e, portanto, podem figurar nesta mostra. O percurso foi longo. Caminhamos, olhamos a cidade como espaço público em disputa, nos deparamos com as armadilhas de suas narrativas, com os esquecimentos afundados no tempo. E, com ouvidos atentos, os murmúrios da luta coletiva que persiste impregnada em todo canto desse território se fizeram escutar.
Vemos essa edição em sua circularidade e compartilhamento, pensando em todos aqueles que sempre dão um jeito de recomeçar, de reencontrar caminhos, porque assim se faz a maior de todas as peregrinações, a vida.
Por Luciara Ribeiro, Khadyg Fares, Naine Terena.
Curadoras.
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Fag vẽ luciara ribeiro, khadyg fares, naine terena.
Curadoras.
Khadyg Fares é mestra e doutoranda em História da Arte pela Universidade Federal de São Paulo, educadora, pesquisadora e curadora, atuando tanto nas instituições como de forma de independente.
Educadora, pesquisadora e curadora, Luciara Ribeiro é mestra em história da arte pela Universidade de Salamanca (Espanha) e pelo Programa de Pós-graduação da Universidade Federal de São Paulo, tendo atuado em diversas instituições de educação, arte e cultura, e atualmente na direção artística da Escola de Artes.
Naine Terena é doutora em Educação pela PUC de São Paulo, mestra em Arte pela UnB, curadora e artista educadora, tendo realizado circuitos de arte no Brasil e exterior. Atualmente é pesquisadora na Universidade Federal de Mato Grosso.
O Conselho Territorial é uma instância consultiva proposta pela equipe curatorial da 4ª edição de Frestas, com a intenção de conversar com as pessoas do Território Sorocaba em colaboração na pesquisa e aprofundamento conceitual e suas relações com a cidade, a apresentação de artistas do entorno e sugestões sobre maneiras de adentrar as nuances da sociedade local a partir de pontos de interesse e temas importantes, reafirmando o partido curatorial de que “todo caminho é um rezo” e todo rezo é compreender o caminhar como prática constante da vida, com processos atentos de escuta, sabedoria e proteção.
Ademir Barros dos Santos (em memória) foi um professor, pesquisador, escritor e militante do movimento negro, com forte atuação em Sorocaba. Ele era um grande griot e intelectual, reconhecido por sua dedicação à valorização da história africana e afro-brasileira, e por seu compromisso com a educação e com a cultura de matriz africana.
Em sua trajetória acadêmica, ajudou a colocar em evidência a importância da educação que considera as relações étnico-raciais, e a história africana e afro-brasileira como partes essenciais do currículo e da cultura escolar. Sua obra e atuação ajudaram a formar e inspirar novas gerações de pesquisadores, ativistas e educadores comprometidos com as causas da negritude e da justiça racial.
Foi coordenador da Câmara de Preservação Cultural do Núcleo de Cultura Afro-Brasileira da Universidade de Sorocaba, posição que ocupava desde o final da década de 1990.
Ademir foi pilar essencial no Conselho do Território desta Trienal, com seu olhar preciso e generoso, que só os grandes mestres e sábios possuem. Ademir tinha muito ainda a ensinar, foi um intelectual muito comprometido com as causas comunitárias, porém partiu precocemente em outubro. Ademir, homem das letras e do tambor, seu legado é gigante!
Daia Moura é artista negra. Doutora e mestre em Educação pelo PPGEd UFSCar. Arte-educadora pela Universidade de Sorocaba, intercambista na Universidad Mayor (Santiago/Chile).
Co-fundadora da Plataforma de Pesquisas Cunhãntã, performer e pesquisadora do Projeto Entre de performance, instalação e Realidade virtual. Co-curadora do Projeto Mulheria 2025 do Sesc. Anfitriã do Projeto Rotas afro em Sorocaba. Atriz, performer, dramaturgista, palestrante, oficineira, apaixonada pelo poder transformador das artes negras. Atualmente é instrutora de Artes Cênicas no Sesi/Sorocaba.
Kátia Barelli é graduada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho – Campus de Bauru, e mestre em Comunicação e Cultura pela Universidade de Sorocaba. Atua como gerente adjunta do Sesc Sorocaba, onde desenvolve e acompanha projetos voltados à cultura, educação e ações socioformativas. Sua trajetória integra gestão, comunicação e articulação institucional, com foco na criação de experiências culturais que fortalecem vínculos comunitários e ampliam o acesso à cultura.
A exemplo do Conselho Territorial, esta é uma instância consultiva, que expande a percepção da Equipe curatorial da 4º Trienal de artes Frestas – do caminho um rezo, na intenção de que pudéssemos ter a percepção expandida de artes, territórios, coletividade, estética, considerando os conceitos, as experiências e as teorias adotadas como orientadoras para o marco curatorial. Se todo caminho tem um rezo, a percepção de conexões requer olhos atentos aos cruzamentos, retornos, atalhos e expansão da noção de trajetos e trajetórias. Os participantes ampliam olhares para além de Sorocaba e do estado de São Paulo, proporcionando diálogos entrecruzados.
Coletivo Kókir é formado por Sheilla Souza e Tadeu Kaingang. “Kókir” significa “fome” na língua Kaingang. Realizam trabalhos em parceria com diferentes povos indígenas do Brasil e com etnias de outras partes do mundo. Suas criações envolvem aspectos da visão ancestral sobre arte e cultura, refletindo sobre as relações entre os saberes dos povos originários e as formas de habitar o planeta, além de destacar a fome em seus diferentes sentidos — real e metafórico.
Joana Maria, quilombola, mulher preta, filha de Antônio Bispo dos Santos (Nêgo Bispo), moradora do Quilombolo Saco Curtume, em São João do Piauí. Presidenta do Instituto Umbuzeiro, Embaixadora da Política de Equidade, Educação para as Relações Étnico-racias e Educação Escolar Quilombola e representante do Propósito de Envolvimento Roça de Quilombo, idealizado por Nego Bispo. Graduada em Educação Física e pós-graduada em Tecnologias da Educação e em Gestão de Políticas Públicas em Gênero e Raça.
Gislana Monte Vale é doutoranda em Psicologia pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e mestre em Avaliação de Políticas Públicas pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Atua como consultora em políticas públicas e acessibilidade cultural. É vice-coordenadora do Fórum de Acessibilidade Cultural da ABRACE e integra os Grupos de Trabalho de Acessibilidade Cultural do Ceará e da FUNARTE. Também é conselheira de Políticas Culturais do Ceará.
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