Laboratório Cidadão: desafios da distribuição de alimentos na quebrada

04/11/2022

Compartilhe:

O abastecimento de alimentos numa cidade do porte de São Paulo se dá através de uma rede complexa de atores, que tem como uma de suas características uma logística centralizada. Esse modelo causa diversos impactos no acesso e na qualidade dos alimentos, influenciando na formação de preço, dificultando sua rastreabilidade e o controle da segurança de alimentos, gerando grandes perdas, além de desvalorizar o trabalho dos agricultores e agricultoras e causar falta de clareza aos consumidores em relação ao que consomem. Junto a isto, estamos diante de uma realidade cada vez mais pungente de poluição e escassez dos recursos naturais (como água doce e solo agricultável), num contexto de mudanças climáticas e aprofundamento da desigualdade socioeconômica – que promove a fome e, ao mesmo tempo, epidemias de desnutrição e obesidade. É urgente a criação, implantação e fortalecimento de alternativas no campo da produção agrícola e da comercialização que sejam mais ecológicas, saudáveis e socialmente justas.

Nesse sistema alimentar dominante, acontece também a padronização e a queda na variedade de alimentos que são produzidos e vendidos. Também se perde a cultura alimentar dos povos nesse processo, em que, cada vez mais, alimentos saudáveis e culturalmente expressivos são substituídos por alimentos ultraprocessados da indústria.

Com a pandemia e o aprofundamento da crise social e econômica no país, somando ao desmonte das políticas públicas ligadas a Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (SSAN), estamos presenciando o aumento da fome e da desnutrição no país. No âmbito econômico também temos presenciado agricultoras, pequenos comércios e pequenos empreendimentos com dificuldades para se sustentar.

No município de São Paulo essa questão não é diferente, e muitas pessoas e comunidades estão mais vulneráveis em termos de segurança alimentar e nutricional. Ao mesmo tempo, no município de São Paulo é possível identificar uma multiplicidade de práticas agrícolas, entendidas como agricultura urbana. São hortas urbanas cultivadas de forma isolada ou comunitária, para fins de autoconsumo, comercialização, pedagógicos e/ou ativistas na promoção da segurança e soberania alimentar. São sítios e empreendimentos agrícolas que atendem a subsistência, comercialização de alimentos, produção de plantas ornamentais, com produção de médio e pequeno porte. Há também fomento ao turismo de base comunitária, áreas reivindicadas para a reforma agrária, retomada das práticas de cultivo tradicional nas Terras Indígenas. A maior parte dessas atividades e produção agrícola se encontra hoje em áreas periféricas.

Horta Ecoestudantil do Instituto Bigua. Foto: Vinicius Almeida

Entretanto, ao mesmo tempo em que a periferia produz alimento, existe uma grande dificuldade de fazer com que esse alimento chegue à mesa da população periférica, devido ao modelo centralizado de distribuição de alimentos, junto a outras inúmeras desigualdades e gargalos. Com este cenário desafiador, iniciativas passam a surgir nestes territórios, com um objetivo comum: pensar e agir coletivamente buscando formas de contornar os desafios relacionados à distribuição de alimentos na quebrada.

Suas ações para promoção do acesso ao alimento pelas pessoas mais vulneráveis auxiliam, ao mesmo tempo, a escoar os produtos das pequenas agricultoras, gerando renda e favorecendo a segurança alimentar e nutricional de muitas famílias. Junto a isto, estimulam a competência de hortas e pomares urbanos para produzir e criar circuitos curtos de comercialização e distribuição de alimentos dentro da periferia.

Em 2021, o Sesc Interlagos realizou o “Laboratório Cidadão: desafios para distribuição de alimentos na quebrada”, que buscou promover a reflexão coletiva sobre os desafios e saberes que essas iniciativas têm para compartilhar, dentro do horizonte da democratização do acesso a uma alimentação saudável. Os seis encontros aconteceram de forma virtual, entre agosto e setembro de 2021, e a partir dele foi elaborada a publicação “Desafios da distribuição de alimentos na quebrada: germinações a partir de um Laboratório Cidadão” com a sistematização do que discutido ao longo dos dias. Com ela pretende-se democratizar o acesso aos conteúdos e às reflexões gestadas e compartilhadas durante os encontros, com o intuito de contribuir para o debate e para as ações práticas relativas ao tema do Direito Humano à Alimentação Adequada e a Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional.

O Laboratório Cidadão contou com a Coletiva Orgânicas para Todes, que teve o papel de anfitriã, e com a SOF (Sempreviva Organização Feminista), como mediação, iniciativas que atuaram como articuladoras e  desenvolvedoras do processo, trabalhando de forma colaborativa.

Para conhecer o material, clique aqui.


Conteúdo relacionado

Utilizamos cookies essenciais, de acordo com a nossa Política de Privacidade, para personalizar e aprimorar sua experiência neste site. Ao continuar navegando, você concorda com estas condições.