Morreram Cacilda Becker

11/01/2023

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Arte: Frederico Zarnauskas

Nesta coluna, a jornalista Celia Moreira dos Santos apresenta textos sobre encontros e situações que vivenciou em sua carreira, atuando no campo cultural em artes, teatro e música. 

por Celia Moreira dos Santos* 

14 de junho de 1969. Morreram Cacilda Becker. Assim Carlos Drummond de Andrade escreveu. Descascando a casca podre da vida para mostrar o miolo da sombra da verdade de cada um dos ritos cênicos. Era uma pessoa Era um Teatro. Morrem mil ‘Cacildas’ em Cacilda. 

Espanto, consternação. Morria a maior atriz brasileira, ícone, lenda, um Teatro. 

Tinha apenas 48 anos. Mas já era uma unanimidade, estava além de adjetivos ou definições. Era. Uma personalidade teatral, muito além do chamado dama do teatro. Sua arte extrapolava definições. Era o Teatro e ponto final. 

Perfeccionista, conhecia cada centímetro do palco onde ia atuar. Media, e media novamente, com passos, o espaço do palco, onde seria a encenação. Orientava os colegas de cena, repetia as falas à exaustão. Era uma mulher pequena, muito magra, como se diz: um feixe de ossos. Mas era superlativa no palco. Não tinha mais tamanho, não tinha mais peso, virava um gigante.  Extrapolava estereótipos.

Para Cacilda, não era apenas decorar falas, vestir um personagem e subir ao palco. Exigia disciplina, muita disciplina. Normalmente, ela chegava ao teatro cerca de quatro horas antes do espetáculo e repassava todo o texto. “Zimba, nós vamos ter um trabalho infernal”. Era o que Cacilda dizia para o grande diretor Ziembinski sempre que iniciavam os ensaios de uma peça. “Ela dizia isso, mas com um brilho de alegria nos olhos. Sempre teve um fogo sagrado ardendo dentro daquele corpo frágil, uma paixão mística pelo teatro”.

A fragilidade do corpo nunca a impediu de ser Cacilda, uma atriz incomparável. Foi mediadora entre a classe teatral e a censura. Defendeu artistas. Foi ao DOPS – Departamento de Ordem Política e Social – para prestar depoimentos em defesa da classe teatral. Conta a lenda que, inclusive, quando Plínio Marcos estava sendo preso e já se encontrava dentro do camburão, disse ao policial que o levava: “Soltem esse homem!”. E foi tamanha a sua firmeza e veemência que Plínio foi liberado. Isso faz dela, entre outras qualidades, uma das maiores presenças de defensora das artes, conta Abílio Soares, ex-diretor do Teatro da USP. Era um símbolo de resistência.

Era de grande fragilidade física, mas no palco ela se transformava, Era um gigante de força. Nas palavras do famoso jornalista escritor Paulo Francis “era um monumento”. Num espetáculo memorável, no TUCA, em São Paulo, Caetano Veloso disse no espetáculo: Viva Cacilda Becker! 

Nos braços da plateia 

Praticamente morreu no palco, atuando. O palco era a sua vida, razão de viver. E sua vida a deixou, no intervalo da encenação de “Esperando Godot”, de Samuel Becket. Ao final do primeiro ato, ela foi até o camarim para descansar e se queixou de uma dor de cabeça. Tinha por hábito tomar uma aspirina antes de entrar em cena a cada espetáculo. Nesse dia, como a dor não passava, tomou duas e a dor não foi embora.

Disse para Walmor Chagas, seu companheiro de cena: “acho que estou tendo um derrame”. E desfaleceu. Foi levada às pressas para o Hospital São Luiz. Não era um derrame, dizem alguns. Era muito mais sério. Era um aneurisma cerebral. Não recobrou a consciência e após trinta e oito dias internada, faleceu. Walmor Chagas, anos depois se suicidou. Na ocasião, Jô Soares declarou “Walmor nunca se recuperou da morte de Cacilda. Foram companheiros de palco e de vida, embora separados, estiveram casados por anos”.

O falecimento de Cacilda provocou comoção nacional, principalmente na classe artística, que perdia sua grande líder e defensora. A atriz Marília Pera passava pelo teatro. Vendo o movimento anormal, entrou e presenciou um ambiente de incredulidade, consternação, desalento e preocupação. E conta: “Cacilda saiu do teatro, carregada pela plateia. Com o braço caído e eu me lembro que a mão, os dedos iam esbarrando pelas cadeiras. Era como se ela estivesse tentando se segurar ou se despedir daquele lugar. Do seu palco. Saindo de cena”.

Presença

Eu estive com Cacilda Becker por duas vezes. A primeira quando ela foi ser entrevistada para a Rádio Jornal do Brasil, na redação que ficava na Avenida São Luiz. A redação parou. Afinal, recebendo a maior atriz brasileira. Era uma mulher pequena, magra, um feixe de ossos, elegante e com uma voz muito peculiar. Impossível não a ouvir, prestar atenção. Era uma presença. Não passava despercebida. Foi colocada numa sala com o repórter que a entrevistaria. A porta foi fechada mas do lado de fora era possível ouvir a sua voz.

Na segunda vez, fui até o teatro, que levava seu nome e ficava na Avenida Brigadeiro Luiz Antônio, para uma entrevista. Eu a encontrei no camarim em preparativos para entrar em cena para a atuação em “Esperando Godot”. Falamos sobre o seu filho, Luiz Carlos Becker, o Cuca, que estreava em teatro na peça. Foi uma conversa de uma mãe amorosa, que demorara para engravidar, mas, finalmente teve o filho e a felicidade em ser mãe.

Como eu a encontrei extremamente cansada, não pude deixar de perguntar: É “Estragon” que a exaure? Ela respondeu positivamente, acrescentando sempre ser difícil interpretar uma peça de Becket, dramaturgo considerado como um dos escritores mais importantes e influentes do denominado teatro do absurdo do século XX. Cacilda se referiu a ele como niilista, expressa na peça. Niilismo vem de em latim nihi, que significa nada. Cacilda falou do seu niilismo, sendo muito difícil e exaustivo interpretar suas peças. 

E fui eu para o auditório assistir à peça, confirmando a sua visão do autor. Era um tapa na cara, mexia com profundezas. Talvez tenha sido a sua última entrevista em vida. Com a sua morte, o Jornal do Brasil assinou o meu depoimento, pois eu havia sido uma das últimas jornalistas a entrevistá-la. 

Esperando GODOT 

Em “Esperando Godot”, Cacilda dividia o palco com Walmor Chagas, que já fora seu marido. Eles se completaram em outras atuações. Na peça representavam os personagens Estragon e Vladimir. Em cena, eram dois esfarrapados vestidos de negro, sapatos furados. O cenário e o palco lembravam um filme de Chaplin, uma mescla de dor, desamparo, personagens perdidos, marginais.

Transmitiam tristeza, dor, alegria, esperança tudo ao mesmo tempo. Como muitos que assistiram a encenação, fiquei sem fôlego.  Quando tudo virava uma desesperança total, um naufrágio, entrava o filho de Cacilda, a dizer: Godot virá. E Godot não vinha. Em nenhum momento apareceu em cena. Era só uma insinuação de caos e esperança. 

Os espectadores sentiam a esperança e desesperança dos dois, na espera de alguém invisível. Estragon e Vladimir transmitiam todo o sofrimento do ser humano, em busca de redenção. E a ilusão era criada com a frase: Se Godot vier, todos nós seremos salvos. E todos ficavam esperando por ele, em vão. 

Coragem

Cacilda teve o desprendimento e a coragem de levar aos palcos autores como Becket, Tennessee Wiliams, Eduardo Albee, Suassuna. 

Emergia e submergia em sua arte. Para fazer o garoto de “Pinga Fogo”, enfaixava a região dos seios. Depois de uma semana de representação, a pele saiu e ficou em carne viva. Em “Maria Stuart” teve problemas nos rins porque a roupa era pesada demais e a peça durava 3 horas e meia. Levava aos extremos a sua atuação, não medindo sacrifícios, mesmo numa comédia. No palco não era só uma mulher, uma atriz. Era Cacilda.

Ao vê-la em “Pinga Fogo”, o crítico francês Michel Simon declarou: “Cacilda vem de muito mais longe do que os anos de aprendizagem em sua arte. É um monstro do teatro como Charles Chaplin. Ela é médium, mãe de santo, dos orixás. Chorei como “Madalena Arrependida” assim que o pano se levantou. 

Para Walmor Chagas, Cacilda foi a maior atriz dramática que o Brasil conheceu. “Cacilda tinha o sentido trágico da vida e o poder do teatro. Esta capacidade que o ator tem de chegar no inconsciente do espectador”. 

Para Adolfo Celi, diretor e ator italiano que foi um dos organizadores do TBC e que, anos depois, se transformou no vilão dos filmes do “OO7”, em “Pinga Fogo”, Cacilda trouxe à tona sua infância infeliz, de uma criança com problemas de sobrevivência. 

Infância 

Nascida em uma família pobre em Pirassununga, no final dos anos 30, mudou para Santos onde frequentou os círculos boêmios e vanguardistas. Estudou ballet e concluiu o curso de professora primária. Em 1940, mudou para o Rio de Janeiro com o objetivo de ser atriz. Participou do teatro do estudante e atuou na peça “Hamlet”, dirigida por Paschoal Carlos Magno. De volta ao Rio de Janeiro, trabalhou com o grupo “Os comediantes”, que promoveu uma revolução no teatro brasileiro. Em 1948, passou a lecionar interpretação na escola de arte dramática e entrou no Teatro Brasileiro de Comédias. 

Atuou em peças como “Vestido de noiva”, “Dama das Camélias”, “Antígona”, “Gata em Teto de Zinco Quente”. Em 57, fundou a sua própria companhia, o “Grupo de Teatro Cacilda Becker”, ao lado dos atores Walmor Chagas Ziembinski e Cleide Yaconis, sua irmã. Em 65, fez enorme sucesso com “Quem tem Medo de Virginia Wolf”. Em 69, “Maria Stuart”; no cinema, “A luz dos meus olhos”, “Caiçaras” e “Floradas na serra”. 

O dramaturgo e diretor Zé Celso homenageou Cacilda em várias encenações, algumas delas em unidades do Sesc. Apresentou, no Teatro Oficina, “Cacilda!!!!! A rainha decapitada”. A peça tem como foco o coma de Cacilda, mas também o coma do teatro e das ideias a respeito dos padrões aceitos para a existência humana. Mostra a ruptura com as convenções e processos criativos da época e também a vida pessoal e seus amores, como com Adolfo Celi, um dos diretores responsáveis pela criação do TBC. É um percurso inédito no labirinto das odisseias de Cacilda que marca a morte do amor ao teatro e a busca de um novo entusiasmo.

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*Celia Moreira dos Santos: Jornalista que trabalhou durante anos com produções de textos diversos e entrevistas especiais para as revistas Veja, Exame, Claudia, Afinal, Playboy, UP Date e o jornal Folha de São Paulo.

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