PARA TODAS AS PESSOAS QUE AMEI | Texto inédito de Monique Malcher

28/02/2023

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Por Monique Malcher   ilustrações Elisa Riemer

Leia a edição de março/23 da Revista E na íntegra

Sufoquei todas as palavras.

Não tiveram espaço para o mostrar dos espinhos, das fraturas e das pernas que sempre dançam no escuro. Ensinei meu bebê, esse invisível que seguro a cada partida de alguém, a chorar abaixo da frequência das baleias para que nada o capture.

Sou avessa ao amor que se faz mentira no anzol. Será que minha vida amorosa é conhecer a mesma pessoa em corpos diferentes até aprender as lições de minhas prisões?

Dancei com meu filho na escuridão que me revive boca a boca, na claridade do quarto escuro. Saramago riu de minha história. Calma, enxergar se faz na luta de conviver com o que nos fura a menina, dos olhos. O vento sibilou histórias de antigo lugar, o meu território, que nunca mais meu corpo quis visitar.

Toco chão de poeiras, rodo maçanetas carcomidas, entro em salas e tudo é meu território antes que aceite que tudo que é meu ao mesmo tempo não precisa morar comigo. Não consigo descolar o bebê dos meus braços, sinto que todos vocês que beijei na boca rodaram a cabeça de meu menino. Meu despertador é a quebra do pescoço de quem mal se sustenta para enxergar o mundo.

O caminho do meio morre na encruzilhada.

Morro também ao revirar fotos, cartas e mensagens tolas. A certeza que não só os homens e mulheres e pessoas que amei foram as responsáveis pelo rasgo que vejo no espelho onde dormem todas as almas. Elas me revelam o segredo de que também sangrei como dança de centopeia que golpeia o rabo da próxima e da próxima e da próxima que é infinita dança do golpeio. O que me fizeram e o que fiz com o que me fizeram. Peço licença nesses dias dos que namoram para me retirar do círculo. Que o sal me acompanhe, mesmo agora que ando com os cílios e com as mãos.

Não sei a quem dei o poder de meus pés, não sei.

Procurei nas caixas de sapatos antigas, nas gavetas com pedaços de contas perdendo sua tinta no papel rascunho amarelo, nos plugues esquecidos que não encaixam em nada que preciso, nas pontas de cabelos que guardei das luas que cortei para crescer as mechas, mas era minguante e na minguante não se espera florescer. Fui contra a autoridade lunar, mas hoje a lua me pediu desculpas vendo meus cabelos beijando a bunda.

Elisa Riemer
Elisa Riemer

Fui contra minhas próprias falhas e diabruras.

Aprendi que machuco, e hoje quis parar. Eu quis, juro.

No final a loja funerária tem o lucro de todos os meus pedaços. Sou eu que morro quando delego para quem amei meus cuidados todos, mesmo que precise e queira que seja de um certo modo e parte do externo.

O amor nunca mais aniversariou.

Quando acendo uma vela, ela sempre faz o que faz meu bebê: chora e molda uma escada impossível de desbravar. Construo saídas falsas, porque ainda não estou pronta para dizer adeus. Cortei meus pés na noite dos amantes e nas noites que antecederam a data. Sufocar as palavras era não dar de comer para o descanso que me faltava, e quero dormir para amar nas madrugadas.

Jamais esquecer que na minha boca ainda vivem todas as pessoas que ousei amar, porque é perigoso encruzilhar e depois saber que não há meio termo, é tudo passagem. Morte ou vida, escolho todo dia porque sou filha do homem que chacoalha o instrumento que guia as almas que se perderam do mais importante: de si mesmas.

As palavras sentiram minhas mãos afrouxando o sufoco

antes de ser

tarde

demais.

Monique Malcher é escritora e artista plástica nascida em Santarém, no Pará, e reside em São Paulo. Com o livro Flor de Gume (2020), publicado pela Editora Jandaíra, ganhou o prêmio Jabuti na categoria Contos. Mestre em antropologia (UFPA) e doutoranda interdisciplinar em ciências humanas (UFSC), Monique também pesquisa literatura e quadrinhos produzidos por mulheres.

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