Após a morte da mãe, Dalva, uma menina de nove anos, passa a conviver com o isolamento e a crescente melancolia do pai. Convencida de que possui poderes sobrenaturais, ela tenta interferir na realidade para reunir novamente sua família. Entre drama social e horror fantástico, o filme transforma o luto em uma experiência inquietante e sensível.
Mais sobre A Sombra do Pai:
Dirigido e roteirizado por Gabriela Amaral Almeida, A Sombra do Pai acompanha Dalva, uma menina de nove anos que perdeu a mãe e vive com o pai, Jorge, um trabalhador da construção civil consumido pelo cansaço, pela precariedade e pelo sofrimento emocional. Enquanto o pai mergulha em um processo de degradação física e psicológica, Dalva passa a acreditar que possui habilidades sobrenaturais capazes de alterar o curso dos acontecimentos e trazer de volta aquilo que perdeu.
A narrativa articula horror, fantasia e drama familiar para abordar temas como luto, abandono, infância e trabalho. Grande parte da força do filme reside no olhar de Dalva, que interpreta o mundo por meio da imaginação e da crença no sobrenatural. Assim, acontecimentos cotidianos ganham contornos fantásticos, fazendo com que a fronteira entre realidade e assombração permaneça constantemente incerta.
A recepção crítica destacou justamente essa combinação entre horror e comentário social. O filme consolidou Gabriela Amaral Almeida como um dos principais nomes do terror brasileiro contemporâneo, frequentemente associado ao chamado “horror social”, vertente que utiliza elementos fantásticos para discutir desigualdades cotidianas ou estruturais.
A Sombra do Pai estreou na mostra competitiva do Festival de Brasília, onde recebeu os prêmios de Melhor Atriz Coadjuvante para Luciana Paes, Melhor Montagem e Melhor Som. Também foi indicado ao prêmio principal do Festival Internacional de Cinema de Tóquio e conquistou o prêmio Black Tulip de Melhor Filme no Imagine Film Festival, na Holanda. No Fantasia Film Festival, no Canadá, Nina Medeiros recebeu o prêmio de Melhor Atriz, enquanto o filme recebeu uma Menção Honrosa da crítica especializada.
O filme desloca o horror para o cotidiano da classe trabalhadora brasileira. Em vez de recorrer a criaturas monstruosas ou ameaças externas, o filme constrói sua atmosfera de inquietação a partir do desgaste emocional, da precariedade das relações familiares e da percepção infantil da morte. O sobrenatural surge menos como espetáculo e mais como expressão simbólica de dores reais.
Dentro do contexto do terror brasileiro contemporâneo, A Sombra do Pai ocupa um lugar importante por demonstrar como o gênero pode dialogar com questões sociais sem abandonar a tradição das histórias de fantasmas, assombrações e retornos dos mortos. O resultado é uma obra que aproxima o horror de experiências muito concretas da realidade brasileira, especialmente a vulnerabilidade da infância e a fragilidade dos vínculos familiares diante da perda.
Título: A Sombra do Pai
Ano: 2018
País: Brasil
Direção: Gabriela Amaral Almeida
Roteiro: Gabriela Amaral Almeida
Produção: Rodrigo Teixeira, Rodrigo Sarti Werthein e Rune Tavares
Fotografia: Bárbara Alvarez
Direção de arte: Valdy Lopes
Distribuição: Pandora Filmes
Elenco principal: Nina Medeiros (Dalva), Júlio Machado (Jorge), Luciana Paes (Cristina), Rafael Raposo (Elton).
Idioma: Português
Essa exibição integra a MONSTRA de cinema, uma mostra dedicada ao cinema de terror que propõe um percurso histórico e crítico sobre a representação das mulheres no gênero. A curadoria atravessa diferentes épocas e arquétipos femininos, acompanhando a transformação dessas personagens ao longo do tempo, até chegar à emergência de diretoras que passam a comandar as câmeras, as narrativas e os imaginários do terror.
A Sombra do Pai apresenta uma perspectiva feminina bastante incomum dentro do horror brasileiro contemporâneo. O filme foi escrito e dirigido por uma mulher, Gabriela Amaral Almeida, mas, mais importante do que isso, organiza sua narrativa a partir da experiência de uma menina que tenta compreender o mundo através do luto, da imaginação e do medo.
Diferentemente de muitos filmes de terror centrados em ameaças externas, a obra desloca o foco para a experiência emocional de Dalva. A infância feminina não aparece como espaço de inocência idealizada, mas como um território atravessado por responsabilidades precoces, ausência afetiva e insegurança. A Sombra do Pai acompanha uma menina tentando dar sentido a um mundo que se torna cada vez mais estranho, doloroso e incompreensível. O terror surge da forma como ela percebe essa realidade, e não apenas dos acontecimentos sobrenaturais em si.
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