Desde a morte do marido, Amelia cria sozinha o filho Samuel, cuja imaginação parece cada vez mais difícil de controlar. Quando um estranho livro infantil surge em sua casa, mãe e filho passam a conviver com uma presença inquietante que desafia a fronteira entre trauma, medo e realidade.
Mais sobre Babadook:
Escrito e dirigido por Jennifer Kent, em sua estreia em longas-metragens, Babadook acompanha Amelia, uma mulher que perdeu o marido em um acidente no dia do nascimento de seu filho Samuel. Anos depois, o luto permanece não elaborado, enquanto a rotina exaustiva da maternidade e o comportamento cada vez mais instável da criança produzem um ambiente de tensão crescente. A situação se transforma quando um misterioso livro ilustrado, intitulado Mister Babadook, aparece na casa, introduzindo uma figura ameaçadora que passa a dominar a vida da família.
Embora utilize elementos tradicionais do cinema de assombração, o filme se afasta da lógica convencional do horror sobrenatural. Em vez de construir sua força a partir da revelação de um monstro externo, Babadook concentra-se na deterioração emocional de sua protagonista, explorando a relação entre luto, culpa, esgotamento psíquico e maternidade. A ambiguidade entre experiência psicológica e manifestação sobrenatural tornou-se um diferencial da obra.
O Babadook não funciona apenas como antagonista narrativo; ele opera como uma materialização de conteúdos psíquicos reprimidos. O filme se afasta da ideia de derrotar ou eliminar o horror e propõe uma questão mais perturbadora: como conviver com aquilo que não pode ser completamente superado.
Babadook rapidamente passou a ser considerado uma das obras fundamentais do horror do século XXI, transformando-se em um cult contemporâneo e em referência obrigatória tanto para a crítica especializada quanto para o debate acadêmico sobre o gênero. Além dos diversos elogios à direção de Jennifer Kent e à atuação de Essie David, Babadook teve um histórico de premiações expressivo. A obra acumulou 56 vitórias e 64 indicações, vencendo, entre outros reconhecimentos, o prêmio de Melhor Filme, Melhor Direção e Melhor Roteiro Original no AACTA Awards, principal premiação do cinema australiano. Também conquistou o Prêmio Especial do Júri no Festival de Sitges, além do prêmio de Melhor Atriz para Essie Davis. A estreia de Jennifer Kent recebeu ainda o prêmio de Melhor Primeiro Filme do New York Film Critics Circle.
Título original: The Babadook
Título no Brasil: O Babadook
Ano: 2014
País: Austrália
Direção: Jennifer Kent
Roteiro: Jennifer Kent
Produção: Kristina Ceyton e Kristian Moliere
Fotografia: Radek Ładczuk
Montagem: Simon Njoo
Trilha sonora: Jed Kurzel
Elenco principal: Essie Davis (Amelia), Noah Wiseman (Samuel), Hayley McElhinney, Daniel Henshall, Barbara West, Ben Winspear.
Essa exibição integra a MONSTRA de cinema, uma mostra dedicada ao cinema de terror que propõe um percurso histórico e crítico sobre a representação das mulheres no gênero. A curadoria atravessa diferentes épocas e arquétipos femininos, acompanhando a transformação dessas personagens ao longo do tempo, até chegar à emergência de diretoras que passam a comandar as câmeras, as narrativas e os imaginários do terror.
Babadook amplia o campo do terror com debates profundos sobre maternidade, abjeção e trabalho afetivo. Seu objeto central não é o assassinato, a perseguição ou a sobrevivência, mas a experiência da maternidade sob condições de esgotamento psíquico, isolamento e sofrimento não elaborado. Se recusa a idealizar a maternidade, adentrando um campo do debate de Adrienne Rich sobre a experiência materna concreta da instituição da maternidade. Enquanto a experiência diz respeito às práticas efetivas de cuidado, a instituição funciona como um conjunto de normas sociais que exige da mãe entrega total, devoção, negação de si, amor incondicional e estabilidade emocional permanentes. Em Babadook, Amelia fracassa precisamente em corresponder a esse ideal. E abraçar o fracasso, desmontando os ideais inalcançáveis, se torna a única maneira de sobreviver.
A obra também pode ser lida a partir do conceito de abjeção formulado por Julia Kristeva. Para Kristeva, a abjeção emerge quando algo ameaça as fronteiras que sustentam a identidade do sujeito. Em Babadook, essas fronteiras são continuamente desestabilizadas. Amelia já não consegue distinguir claramente entre o que pertence à sua vida psíquica e aquilo que se manifesta como presença externa. O monstro funciona como retorno daquilo que foi expulso da consciência: luto, raiva, frustração e sofrimento. O horror nasce não de uma alteridade absoluta, mas da impossibilidade de separar o eu daquilo que ela tentou reprimir. Algo que é impossível de reprimir, por serem sentimentos sinceros e profundos.
O filme torna visível algo frequentemente reprimido pela cultura: a coexistência entre amor, exaustão, ressentimento, culpa e desejo de fuga na experiência materna, enfim, a invisibilidade do trabalho reprodutivo. Amelia trabalha fora de casa, cuida sozinha do filho, administra o luto e sustenta emocionalmente uma família praticamente sem rede de apoio. O horror emerge justamente do colapso dessa estrutura. Em vez de representar a maternidade como destino natural, o filme evidencia os custos materiais, emocionais e psíquicos envolvidos na reprodução cotidiana da vida.
Babadook desafia o paradigma tradicional da maternidade monstruosa no horror. Historicamente, os filmes de terror apresentaram mães como figuras ou irrelevantes ou castradoras, histéricas, ameaçadoras. Nesta história, o que assombra a mãe não é uma essência monstruosa feminina; é o acúmulo de sofrimento que a cultura insiste em não reconhecer. Babadook desloca o problema da patologização individual para uma reflexão sobre isolamento social e sobre as exigências contraditórias impostas às mães.
Babadook pergunta quais formas de sofrimento são autorizadas a existir, quais precisam ser silenciadas e quais retornam, inevitavelmente, sob a forma do monstruoso.
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