Jennifer e Needy são amigas desde a infância, apesar de ocuparem posições muito diferentes na hierarquia social do colégio. Após um evento traumático que abala a pequena cidade onde vivem, Jennifer passa a apresentar comportamentos cada vez mais estranhos, levando Needy a questionar a natureza da transformação que tomou conta da amiga.
Essa é uma sessão especial. Após a exibição do filme, teremos comentários da pesquisadora, curadora e especialista em cinema de horror Beatriz Saldanha.
Beatriz Saldanha é pesquisadora, crítica, curadora e realizadora cearense radicada em São Paulo, escreve regularmente sobre filmes de horror para encartes de homevideo, catálogos de mostras e livros, entre eles um capítulo sobre as diretoras brasileiras de horror para a publicação para a publicação “Mulheres atrás das câmeras” (Abraccine). Doutoranda em Comunicação Audiovisual pela UAM com pesquisa sobre horror francês, escreve sobre o gênero para a revista eletrônica Les Diaboliques. Integrou curadorias e júris de diversos festivais pelo país e realizou a mostra “Les Diaboliques: Diretoras de horror 1980-1999″.
Mais sobre Garota Infernal:
Dirigido por Karyn Kusama e escrito por Diablo Cody, Garota Infernal acompanha Jennifer Check, uma adolescente popular e admirada por seus colegas, e Anita “Needy” Lesnicki, sua melhor amiga. Quando um acontecimento violento altera profundamente a dinâmica entre as duas, Jennifer passa a manifestar mudanças físicas e comportamentais inquietantes, enquanto Needy tenta compreender o que está acontecendo e quais são as consequências dessa transformação para sua comunidade.
Lançado em 2009, o filme surgiu em um contexto em que o terror adolescente era amplamente dominado por narrativas centradas em heteronormatividade e misoginia, com protagonistas masculinos ou em personagens femininas construídas para atender ao olhar masculino. Ao reunir uma diretora e uma roteirista interessadas em explorar amizade feminina, desejo, violência e poder, Garota Infernal propôs uma abordagem incomum para o horror de estúdio norte-americano. Diablo Cody afirmou que desejava discutir empoderamento feminino e a complexidade das amizades entre garotas.
Garota Infernal coloca no centro da narrativa as relações de amizade, rivalidade, identificação e ressentimento entre duas adolescentes. Em vez de utilizar a monstruosidade feminina como punição moral, o filme a transforma em linguagem para discutir desejo, violência e exploração. Para o cinema de terror, a obra tornou-se especialmente relevante porque antecipa discussões que ganhariam força na década seguinte sobre gênero, cultura pop, misoginia digital e representação feminina no horror. A revalorização crítica do filme tornou-se, inclusive, um caso emblemático de como obras dirigidas e escritas por mulheres podem ser inicialmente incompreendidas por estruturas críticas e mercadológicas que privilegiam determinados modos de leitura.
A recepção crítica inicial foi bastante negativa. O filme teve desempenho comercial abaixo das expectativas, enfim, flopou. Contudo, ao longo dos anos, passou por um intenso processo de reavaliação crítica. Diversas pesquisadoras, críticas e cineastas passaram a apontar que sua recepção negativa estava relacionada, em parte, à campanha de marketing do estúdio, que tentou vender o filme como um produto voltado ao público masculino interessado na imagem sexualizada de Megan Fox, obscurecendo suas dimensões satíricas e feministas. Hoje, a obra é frequentemente descrita como um clássico cult feminista do horror contemporâneo.
Título original: Jennifer’s Body
Título no Brasil: Garota Infernal
Ano: 2009
País: Estados Unidos
Direção: Karyn Kusama
Roteiro: Diablo Cody
Produção: Daniel Dubiecki, Mason Novick e Jason Reitman
Fotografia: M. David Mullen
Montagem: Plummy Tucker
Trilha sonora: Stephen Barton e Theodore Shapiro
Elenco principal: Megan Fox (Jennifer Check), Amanda Seyfried (Needy Lesnicki), Johnny Simmons, Adam Brody, J. K. Simmons, Amy Sedaris
Essa exibição integra a MONSTRA de cinema, uma mostra dedicada ao cinema de terror que propõe um percurso histórico e crítico sobre a representação das mulheres no gênero. A curadoria atravessa diferentes épocas e arquétipos femininos, acompanhando a transformação dessas personagens ao longo do tempo, até chegar à emergência de diretoras que passam a comandar as câmeras, as narrativas e os imaginários do terror.
Garota Infernal é um exemplo muito importante para pensarmos o cinema de terror e a indústria cinematográfica. A obra foi construída por duas mulheres cineastas, mas a campanha de marketing que o estúdio escolheu para divulgar o filme é completamente baseada no male gaze (“olhar masculino”). Enquanto a campanha publicitária comercializou imagens do filme que sexualizam a protagonista, com roupas curtas e poses sexy, a narrativa faz o processo de desobjetificar os corpos das personagens principais, focar em relações intrincadas de desejo e amizade, e trazer o feminino como tão perigoso quanto o perigo que a atração masculina fornece. Até porque a transformação primária de Jennifer acontece após ela passar a noite com roqueiros, dando a entender que a jovem passou por abusos e saiu desse processo transformada. O filme é uma crítica complexa à cultura de sexualização dos corpos femininos e do sistema patriarcal, mas o marketing é baseado na sexualização desses mesmos corpos. De acordo com a roteirista, Diablo Cody, o filme foi comercializado incorretamente por executivos, que focaram seus esforços numa audiência de homens jovens. A obra foi reacessada como um clássico feminista que ficou esquecido.
Em grande parte do cinema comercial, personagens femininas são organizadas como objetos de contemplação para um espectador presumidamente masculino, o male gaze. Garota Infernal centra-se em Jennifer, uma personagem interpretada por Megan Fox que era um sex symbol da época, no entanto o filme gradualmente desmonta esse dispositivo, seja pela construção narrativa seja pelo olhar da câmera, que não expõe exageradamente o corpo dela (como em vários outros filmes do gênero). Jennifer não é apresentada apenas como objeto de desejo; ela é uma figura multicamadas, que revela a violência estrutural associada à transformação de jovens mulheres em mercadorias visuais.
Em geral, os estereótipos da personagem mulher são encarnados no filme, mas também são criticados dentro de si mesmo. Garota Infernal é uma sátira ao consumo dos corpos e a como o cinema alimenta esse sistema. A diretora, Karyn Kusama, credita o filme por sua “distinta perspectiva feminina”, na intenção de que jovens mulheres pudessem ver a si mesmas representadas na tela.
Kusama tem uma cinematografia focada em representação de mulheres no cinema, em especial no cinema de horror, e se coloca como liderança de um cinema feminista, com personagens que têm ambiguidades e complexidades múltiplas. Em Garota Infernal, sua parceria com Diablo Cody foi um destaque, justamente após a roteirização de Juno, que tinha sido um grande sucesso. Cody afirmou que, ao escrever o roteiro, ela estava “simultaneamente tentando homenagear algumas das convenções que já vimos no terror, mas, ao mesmo tempo, subvertê-las”.
A amizade entre Jennifer e Needy é central para a narrativa, mas contemplamos a mudança de corpo e personalidade de ambas com a passagem do tempo. As duas personagens não são estereotipadas, são personagens complexas, apesar de ambas partirem de tipos clássicos dos filmes americanos: a nerd e a líder de torcida. Essa amizade é tão profunda que, no contexto do comming of age, a tensão sexual entre as duas é muito presente.
Ocultismo e satanismo, amizade e desejo, perseguição e violência, poderes sobrenaturais e estruturas de punição naturalizadas, Garota Infernal é um filme satírico, de terror e também metalinguístico sobre o cinema de terror. “O inferno é uma menina adolescente”.
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