A atriz iraniana Khazar tem um nome difícil a ser pronunciado por brasileiros. Portanto, ela decide por uma noite, ser a Sherazade de Mil e Uma Noites, que é uma figura iraniana mundialmente conhecida. Essa Sherazade conta apenas uma história para o rei, sendo ela a tradução mitológica dos seguintes acontecimentos históricos do povo iraniano: a perseguição aos ativistas de esquerda do início dos anos 80; a execução em massa dos mesmos no final dos anos 80; o Movimento Reformista e os protestos após a reeleição de Mahmoud Ahmadinejad nos anos 2000; a queda de avião da companhia aérea Ukraine Airline por mísseis iranianos em 2020; e os protestos “Mulher, Vida, Liberdade” em 2022. Ao final dessa história, Sherazade revoltada derruba o rei, e Khazar se pergunta se teria a mesma coragem, reflete sobre a narração como ferramenta de salvação e de vingança.
Tapetes. Uma tela. Mil e uma histórias. A imagem de uma mulher que estende um tapete para contar uma história é o que muitos poderiam chamar de uma imagem universal sobre como contar histórias. Porém hoje é preciso ficar bastante alerta com aquilo que se entende por “universal”. Muito possivelmente esse “universal” é a versão eurocentrada de como compreender as outras nações a partir dos interesses deles.
Tal como a dramaturgia, a encenação flerta com o imaginário do que se sabe, do que se espera, do que se acredita compreender quando o assunto é Irã, seus tapetes, véus, mulheres e lutas.
Ficha Técnica
Direção, cenografia, vídeo: Luiz Fernando Marques (Lubi)
Atuação e dramaturgia: Khazar Masoumi
Direção musical e operação de som: Murilo Lourenço
Figurino: Liss Santos
Produção: Corpo Rastreado
Khasar Masoumi é nascida em Teerã (Irã), de uma família da resistência cultural. Aos 20 anos, começou a carreira no cinema como protagonista de um longa que, vetado pela censura do regime ditatorial, estreou apenas 6 anos depois. Até 2008, atuou como protagonista em dois filmes e uma minissérie no Irã. Após se dedicar aos estudos de Direito e respectivos Mestrado e Doutorado na França, retornou à carreira de atriz em 2020. Desde então, atuou em peças produzidas no Irã e na Suíça. Mora no Brasil desde 2017. Como consequência das suas manifestações políticas durante os protestos Mulher – Vida – Liberdade em 2022, está impedida de voltar para o Irã.
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