Existe um imperativo silencioso que atravessa as relações humanas: o de narrar a história do outro, organizar sua experiência, dar forma e sentido ao que, talvez, é fragmentário, móvel e inconcluso. Esse impulso de narrar, quando não interrogado, tende a capturar a vida em versões estáveis, apagando seus desvios, contradições e zonas de indeterminação. A história alheia, quando tomada como algo passível de ser plenamente contado por outro, corre o risco de se tornar uma prisão simbólica, onde a singularidade é substituída por coerência, e o mistério do vivido é domesticado em nome da compreensão.
A partir desse tensionamento, emergem perguntas que convocam a arte, a loucura e as psicologias humanistas como campos de resistência e cuidado: como sustentar a existência dos inumeráveis estados do ser sem reduzi-los a uma narrativa única? Como criar rotas de fuga frente às histórias que nos capturam e nos definem? De que modo a arte pode operar como espaço onde a loucura não seja corrigida, mas escutada como força criativa e vital? E como devolver ao sujeito o direito de habitar o inacabamento, o desvio e a multiplicidade como modos legítimos de existir?
Esta vivência de colagem e escrita propõe, por meio de práticas artísticas, refletir sobre os limites entre normalidade e loucura, questionando narrativas historicamente construídas sobre sofrimento psíquico e modos de existir.
Objetivos da oficina:
– Disseminar informação de qualidade a respeito da luta antimanicomial e da reforma psiquiátrica brasileira.
– Promover o pensamento crítico a respeito da patologização da vida. Investigar como as narrativas moldam, capturam ou silenciam a experiência subjetiva.
– Criar espaços de expressão que acolham a multiplicidade, a contradição e o inacabamento.
– Experimentar a colagem e a escrita como rotas de fuga frente às histórias prontas sobre si e sobre o outro.
– Reconhecer a arte como território legítimo de elaboração da loucura cotidiana, sem patologização.
Minibio:
Desde 2020, a Casa Amarela atua como um espaço de cuidado em saúde mental, integrando psicologia, arteterapia e cultura como práticas vivas de escuta, criação e transformação. Com uma metodologia própria, desenvolve processos terapêuticos que reconhecem a singularidade das pessoas e compreendem a arte e a cultura como dimensões fundamentais para a promoção da saúde mental comunitária. O trabalho sustenta o cuidado como experiência ética, sensível e situada, com a intenção de transformar a cultura do cuidado e ampliar as formas de compreender, acessar e viver a saúde mental no cotidiano.
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