Ao chegar a uma prestigiada academia de balé na Alemanha, a jovem Suzy Bannion percebe que algo está profundamente errado naquele ambiente. Estranhos acontecimentos, regras obscuras e uma sucessão de mortes transformam sua formação artística em uma experiência cada vez mais inquietante, na qual beleza e horror parecem inseparáveis.
Mais sobre Suspiria:
Dirigido por Dario Argento e coescrito com Daria Nicolodi, Suspiria acompanha Suzy Bannion, uma estudante norte-americana de balé que se muda para Freiburg, na Alemanha Ocidental, para estudar em uma renomada academia de dança. Pouco após sua chegada, acontecimentos violentos começam a se multiplicar e a escola revela sinais de que esconde algo muito mais sinistro do que aparenta.
Lançado em 1977, Suspiria representa um ponto de inflexão na carreira de Dario Argento. Após consolidar-se como um dos principais nomes do giallo italiano, o diretor deslocou-se para o horror sobrenatural e criou uma das obras visualmente mais influentes da história do cinema. Inspirado parcialmente em Suspiria de Profundis, de Thomas De Quincey, o filme articula elementos de conto de fadas, pesadelo, bruxaria e horror sobrenatural.
Suspiria é um filme de terror construído por som e cor, hoje reconhecido como um dos marcos fundamentais do horror moderno. Grande parte desse reconhecimento está associada à direção visual de Luciano Tovoli, ao uso de cores extremamente saturadas e à trilha sonora composta por Dario Argento em colaboração com a banda Goblin. A combinação de iluminação expressionista, arquitetura labiríntica e desenho sonoro agressivo produziu uma experiência sensorial que redefiniu os limites estéticos do gênero.
O histórico de premiações da obra é relativamente modesto quando comparado à sua influência posterior. Suspiria recebeu indicação ao Saturn Award de Melhor Atriz Coadjuvante para Joan Bennett em 1978 e, posteriormente, indicações relacionadas a suas edições de preservação e relançamento. Entretanto, seu reconhecimento mais significativo ocorreu ao longo das décadas seguintes, quando passou a ser amplamente considerado um clássico cult e uma das obras mais influentes do cinema de terror.
O diferencial de Suspiria para a história do cinema não está apenas em sua narrativa, mas em sua concepção formal. Diferentemente de muitos filmes de horror que utilizam a linguagem cinematográfica para representar acontecimentos assustadores, Argento transforma a própria forma do filme em uma experiência de instabilidade. Cor, som, arquitetura, movimento de câmera e montagem assumem uma função tão importante quanto a trama. O resultado é uma obra frequentemente associada ao conceito de “horror expressionista”, em que o terror emerge da estética tanto quanto dos eventos narrativos. Sua influência pode ser observada em realizadores tão diversos quanto Guillermo del Toro, Nicolas Winding Refn, Jennifer Kent e Luca Guadagnino, cuja releitura do filme foi lançada em 2018.
Título original: Suspiria
Ano: 1977
País: Itália
Direção: Dario Argento
Roteiro: Dario Argento e Daria Nicolodi
Produção: Claudio Argento
Fotografia: Luciano Tovoli
Montagem: Franco Fraticelli
Trilha sonora: Goblin e Dario Argento
Elenco principal: Jessica Harper (Suzy Bannion), Stefania Casini (Sara), Flavio Bucci (Daniel), Miguel Bosé (Mark), Alida Valli (Miss Tanner), Joan Bennett (Madame Blanc).
Essa exibição integra a MONSTRA de cinema, uma mostra dedicada ao cinema de terror que propõe um percurso histórico e crítico sobre a representação das mulheres no gênero. A curadoria atravessa diferentes épocas e arquétipos femininos, acompanhando a transformação dessas personagens ao longo do tempo, até chegar à emergência de diretoras que passam a comandar as câmeras, as narrativas e os imaginários do terror.
Quem são as bruxas? O que fazem? O que comem? Onde habitam? Suspiria abre as portas de um conservatório habitado por dançarinas e com trancas venenosas nos prende em um universo de sangue, horror, grito e feitiçaria. Quem imaginaria que a magia de um espetáculo de arte vem de sacrifícios?! O filme integra a MONSTRA não apenas por ser um filme protagonizado por várias personagens mulheres, mas também por distribuir entre essas personagens títulos de vilãs, vítimas e bruxas sem apoiar-se em moralismos ou estereótipos.
A trama é, ao mesmo tempo, extremamente sanguinolenta e segue um padrão histórico nos filmes de terror de violência gráfica explícita e dilacerante de corpos femininos. Por outro lado, Suspiria também integra a mostra MONSTRA por abordar como as personagens mulheres tipicamente foram tratadas nos filmes de terror: vítimas de monstros ocultos, rainhas do grito, com sangue aparente e corpos estilhaçados. Apesar de figurar essa representação das personagens, o interesse da câmera está menos na erotização dos corpos do que na sua inserção em ambientes arquitetônicos opressivos. As bailarinas são observadas, mas também aprisionadas por espaços que regulam seus movimentos, seus deslocamentos e sua percepção do mundo.
Diferentemente de obras clássicas do horror em que a ameaça masculina estrutura o conflito narrativo, aqui a escola de dança funciona como um espaço de socialização, disciplina, aprendizagem e poder predominantemente feminino. Expõe uma tensão recorrente na cultura ocidental: a associação entre autonomia feminina e monstruosidade. As perseguições às bruxas durante a transição para o capitalismo moderno estiveram profundamente ligadas ao controle dos corpos femininos, da reprodução e dos saberes não institucionalizados. A narrativa de Suspiria traz a bruxaria como uma estrutura de poder baseada em conhecimentos ocultos que escapam às instituições convencionais.
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