

Inaugurado em 1992, o Sesc Itaquera é uma unidade parque do Sesc São Paulo e está inserida na APA (Área de Proteção Ambiental) Parque e Fazenda do Carmo, na zona leste da cidade de São Paulo. Devido à presença dentro de uma área protegida, o programa de Educação para Sustentabilidade do Sesc Itaquera atua fortemente no debate das questões socioambientais contemporâneas a partir de ações programáticas em educação ambiental. O programa se utiliza do mapeamento do território periférico e seus atores sociais como metodologia para identificar e valorizar potencialidades, no que dizem respeito a novas formas de participação socioambiental com envolvimento da comunidade, incluindo a implementação de projetos que têm a sustentabilidade como conceito, capazes de transformar a realidade local.
E é por meio dessas articulações e parcerias que o projeto “Trilhas da APA do Carmo” resulta no lançamento do guia “Mosaico de Trilhas da APA do Carmo”: uma publicação do Sesc São Paulo em parceria com a Fundação Florestal do Estado de São Paulo e a Secretaria do Verde e do Meio Ambiente da Prefeitura, que apresenta o mapeamento de 12 (doze) trilhas em áreas verdes protegidas da região, seus usos, formas de acesso e informações aos visitantes; além da inauguração da Trilha dos Guaianás, um trajeto de 12km que atravessará todos os equipamentos públicos e privados existentes na APA, à saber: O Parque Natural Municipal Fazenda do Carmo, o Sesc Itaquera, o Planetário do Carmo Professor Acácio Riberi e o Parque do Carmo Olavo Egydio Setúbal.
Tão importante quanto apresentar os produtos desse projeto, é também conhecer o processo de construção coletiva que permitiu que um projeto dessa natureza fosse gestado a partir da participação e organização popular de grupos, instituições, movimentos sociais, coletivos e demais atores locais no sentido de intervir no território a partir de suas próprias dinâmicas sociais. Esse formato de participação cidadã não é novidade na região, ao contrário, ele é motivo pelo qual o histórico de lutas socioambientais se constitui como um forte legado da sociedade civil, que garantiu ao longo das décadas diversas conquistas para os moradores do entorno.
Zona Leste de SP como berço de movimentos socioambientais históricos
A zona leste de São Paulo foi palco de muitas experiências reivindicatórias e de mobilização popular desde a década de 70, sobretudo referentes à luta por moradia, regularização fundiária, acesso à infraestrutura do Estado a comunidade. A busca pelo direito à moradia das famílias de baixa renda, encontra solução na ocupação de áreas mais distantes do centro, pouco urbanizadas e com infraestrutura mais precária, de forma que a Zona Leste teve seu boom de crescimento populacional entre as décadas de 50 e 80.
O caso mais emblemático foi a pressão popular para o encerramento das atividades do antigo Aterro Sanitário São Matheus que operava no terreno da APA em meados da década de 80, ambientalistas montaram acampamento por mais de uma semana organizado pelo movimento SOS Mata do Carmo em 1986, impedindo a passagem de caminhões de lixo e pressionando o poder público para a criação de uma área de preservação ambiental no local. A APA Parque e Fazenda do Carmo só foi regulamentada em 1993 por meio do Decreto n° 37.678/93 – tendo como plano de fundo a luta incessante de gestores públicos, lideranças comunitárias, pesquisadores e acadêmicos, além da sociedade civil organizada em grupos e coletivos da região.
A SOS Mata do Carmo, se funde na década seguinte, com outros movimentos ambientalistas locais, tais como o Movimento de Defesa do Vale do Aricanduva (MDVA), o Movimento Unitário de 1° de Maio de Guaianazes e a Fundação S.O.S Mata Atlântica e se cria a SAL (Sociedade Ambientalista da Leste) – que no fim da década de 90 se reúne com mais de 170 entidades da região e fundam o Fórum para o Desenvolvimento da Zona Leste (FDZL) com o propósito de construir ações em benefício do desenvolvimento local, que gerem emprego e renda, além de melhorar as condições de moradia, sanitárias, de saúde e educação na região. O Fórum tem membros ativos até hoje, inclusive, presentes como conselheiros nas Instâncias de Participação Social Locais.
Tem-se, portanto, a formação de uma rede com diversos atores locais que vem sendo construída por décadas, a partir de pautas e interesses em comum enraizados na defesa do território periférico da zona leste. Apesar do evidente descompasso entre os compromissos contidos na agenda pública socioambiental contemporânea e a realidade observada nesses territórios periféricos, não faltam exemplos em que a atuação de instituições, empresas, movimentos sociais e lideranças locais foram (e continuam sendo) importantes no movimento de transformação endógena de certas localidades.
E surgem os Conselhos Gestores Locais
Outro legado de extrema importância da luta dos movimentos ambientalistas foi a criação de Instâncias de Participação Social (IPS) – que nesse caso são os Conselhos Gestores Locais. Os conselhos têm como propósito reunir, acolher e debater demandas de interesse coletivo de suas localidades, de arbitrar conflitos, controlar e fiscalizar a atuação da administração pública, além de propor, endossar ou rejeitar ideias, projetos e empreendimentos, tudo isso com base nos princípios de participação popular e gestão democrática.
O conselho Estadual da APA do Carmo é o primeiro Conselho de Área de Proteção Ambiental do Brasil, criado em dezembro de 1996 – já com 30 anos de existência. O conselho surge como fruto do mesmo movimento ambientalista da região que reivindicou o fechamento do aterro sanitário.
“O pessoal poderia ter parado [de se mobilizar] quando conseguiram o fechamento do aterro sanitário, mas não. Depois dessa conquista eles voltaram os olhos para a área verde onde hoje é terreno do Parque Natural e falaram: o que nós podemos fazer com esse espaço aqui? Esse movimento já atuava antes mesmo de ter conselho formal, estamos falando de pessoas como Fernando Deli, Padre Ticão, Vandineide Santos e Ângelo Iervolino, para você ter uma ideia” Gustavo Alexandre Feliciano – Gestor da APA Parque Fazenda do Carmo em entrevista.
A persistência gerou pressão política o suficiente para que uma Unidade de Conservação fosse criada na área da APA; em 12 de junho de 2003 foi criado o Parque Natural Municipal Fazenda do Carmo (PNMFC)7, uma unidade de Conservação de Proteção Integral com mais de 4.497.000m2 de vegetação de Mata Atlântica nativa.
Apesar da criação do Parque Natural em 2003, seu conselho só foi criado treze anos depois, em 2016, nesse tempo quem respondia pelo Conselho do Parque Natural era o Conselho Estadual da APA do Carmo – nesse sentido um era o espelho do outro, de forma que o Conselho Municipal do Parque herdou não apenas boa parte das cadeiras do conselho Estadual da APA como também, seu histórico de lutas.
Uma das conquistas mais recentes foi a construção da sede do Parque Natural em 2019, feita com recursos da compensação ambiental das obras do metrô; os Conselhos da APA e do Parque na época, foram fundamentais na definição de estratégias que garantissem o pagamento do recurso e seu uso para a construção da sede e do centro de visitantes.
Outras ações insularam na forma de política pública, um exemplo disso é o Programa Abelhas Nativas da Fundação Florestal, que teve seu piloto executado na APA do Carmo – o gestor da APA compartilhou o tema com os conselheiros que compraram a ideia, e investiram em parceria no oferecimento de cursos, oficinas e atividades com esse tema. Hoje o Programa Abelhas Nativas é executado em 24 Unidades de Conservação Estaduais de São Paulo.
Entre entidades públicas da administração direta e indireta, instituições de ensino e pesquisa, empresas privadas, organizações sem fins lucrativos, associações de moradores e movimentos sociais organizados – os conselhos gestores representam uma pluralidade de interesses e de conhecimentos que interagem com o território da APA no sentido de gerar responsabilidades compartilhadas na gestão de bens de uso comum a partir da construção de governança, além de gestar em parceria projetos de interesse coletivo debruçados em ações de conservação das áreas naturais protegidas. O projeto Trilhas da APA do Carmo nasce a partir desse contexto.
As Trilhas
O projeto Trilhas da APA do Carmo nasce em uma das diversas reuniões dos Conselhos Gestores que, entre as pautas, tratou de discutir o uso público e acesso às áreas naturais pela população para a prática de atividades de educação ambiental monitoradas e atividades físicas e de lazer em contato com a natureza.
As demandas sociais que originaram esse debate vieram através de lideranças locais cobrando a abertura de vias de acesso de um bairro a outro através das trilhas da APA; de coletivos organizados demandando o uso das trilhas para a prática de esportes como trekking e mountain bike; de educadores com o interesse de explorar as áreas para promover atividades de educação ambiental e da sociedade civil ali representada demandando maior segurança e fiscalização das áreas de mata.
Nesse sentido, mapear, sinalizar e abrir trilhas para o uso público da população é uma estratégia que dá conta dessa demanda. Nesse momento, a APA do Carmo, o Parque Natural, o Sesc Itaquera, o Parque do Carmo e o Planetário decidem unir esforços na criação do Projeto Trilhas da APA do Carmo.
O projeto se inicia em 2025, a partir de uma mudança de rota do programa Trilhas Urbanas do Sesc Itaquera – que atuou durante sete anos (2017-2024) levando o público para explorar trilhas em parques e unidades de conservação na região metropolitana de São Paulo e as anuais Caminhadas Ecológicas em comemoração ao aniversário da APA, realizadas todo o mês de abril com a organização da Fundação Florestal.
Em consonância com as discussões dos conselhos, o Sesc Itaquera atuou em parceria com os demais equipamentos para oferecer diversas ações programáticas com o tema de Trilhas, incluindo um curso de implementação de trilhas realizado em março de 2025 com o especialista convidado da Secretaria do Verde e do Meio Ambiente Marcelo Freire Mendoça, aberto ao público e oferecido também aos membros do conselho.
Durante o curso os conselheiros se inspiraram na implementação da Trilha Interparques na Zona Sul da Capital para propor a instalação de uma trilha que interligasse todos os equipamentos da APA do Carmo. Entre junho e agosto daquele ano, visitas técnicas foram realizadas pelos conselheiros para mapear esse percurso, que resultou no traçado da trilha “InterAPA” – como ficou inicialmente conhecida – ao todo com 12km de distância, passando por áreas abertas, fechadas, logradouros e áreas de vegetação densa.
Além dessa, os membros do conselho mapearam trilhas já existentes e abertas ao público, como as trilhas da Preguiça e da Jataí no parque Natural e a da Samambaiaçu no Sesc Itaquera. Outras como a do Urubu, do Lagarto e da Transmissão já estavam abertas, mas com uso público restrito; outras que necessitavam de implementação de estruturas e ações de manejo para serem utilizadas como a do Escadão e a trilha Sesc-Tabor foram incluídas; além de trilhas inéditas como a Trilha do Sistema Solar do Planetário e a própria InterAPA. As trilhas foram mapeadas em oficinas e visitas técnicas em campo.
Outro processo importante foi a definição da identidade visual da trilha InterAPA de acordo com o manual de sinalização da Rede Brasileira de Trilhas, que é o desenho da pegada. Ela foi desenhada representando o animal símbolo da APA, o bicho preguiça; seguido da representação dos prédios da cidade de São Paulo, já que a APA do Carmo é uma unidade de conservação inserida no meio urbano, seguido pelo desenho dos meandros do Rio Aricanduva – elementos que caracterizam o território.
Ainda em 2025 o Sesc Itaquera promoveu duas oficinas de construção comunitária de sinalização de trilhas, contando com a participação de conselheiros e do público espontâneo. Foram produzidas mais de 120 placas a mão, com materiais fornecidos pelo parque natural e pelo Sesc Itaquera, de forma artesanal.
O produto dessas ações tinha como objetivo: o lançamento do guia “Mosaico de Trilhas da APA do Carmo” com as informações do projeto, dos equipamentos e o mapa das trilhas para uso do público. E a inauguração da Trilha InterAPA – que contou previamente com a abertura de uma votação popular na internet para escolha do nome oficial da trilha.
As sugestões de nomes partiram de uma reunião do conselho do Parque, entre as opções o grupo escolheu nomes que fizessem referência à história da região, como Trilha da Fazenda Velha e Trilha Caaguaçu. Contudo, o nome que recebeu mais de 80% dos votos foi “Trilha dos Guaianás” – fazendo referência a etnia indígena Guaianá que ocupou a região nos primeiros aldeamentos no século XVI, entre os quais, o de São Miguel, forçados a se fixarem nessas comunidades por conta do processo de colonização. A presença indígena Guaianá foi apagada devido aos conflitos, escravidão e a política de aldeamentos, então esse nome é uma homenagem e um resgate da presença desses povos na região.
Para a surpresa dos membros dos Conselhos, a votação alcançou descendentes dos povos indígenas Guaianás que ainda resistem com suas práticas e costumes em áreas próximas da região da APA do Carmo. A mobilização desse grupo fez com que a votação atingisse mais de 11.500 votos, inclusive de votantes fora do Estado e do país. Quando o resultado foi divulgado, os membros do Conselho se aproximaram da liderança Guaianás local e eles foram convidados a participar da inauguração da trilha.
Os preparativos finais ficaram a cargo dos membros do conselho e incluíram a instalação da sinalização da trilha em seus 12km – com 120 placas colocadas, e a abertura das inscrições para a inauguração. A Trilha dos Guaianás é uma trilha autoguiada em trechos, e só pode ser feita em toda sua extensão a partir de agendamento de grupos, já que parte desse trajeto envolve a adentrar por áreas da APA de acesso restrito.
E, por fim o guia “Mosaico de Trilhas da APA do Carmo”, para além de orientar o público visitante na realização das trilhas, funciona também como uma espécie de passaporte de trilhas locais, onde o visitante, ao realizar uma trilha autoguiada ou agendada, pode solicitar o carimbo dessa trilha no respectivo equipamento onde ela se inicia.
A inauguração da trilha dos Guaianás bem como o lançamento do Mosaico são produtos de um esforço de articulação interinstitucional que se capilariza no território valorizando as trilhas como forma de se produzir educação ambiental no território e oferecer lazer e prática de atividade física ao aproximar a comunidade do espaço natural.
As experiências de gestão compartilhada e participação social na APA do Carmo, bem como o histórico de lutas sociais, já demonstraram que quando a sociedade civil se identifica com o lugar e desenvolve senso de pertencimento, a comunidade entende a importância da preservação e atua de forma a exercer controle social sobre a gestão do patrimônio natural, vigiando os espaços, denunciando infrações e crimes, além de fiscalizar a ação do poder público e a atuação dos conselheiros.
Inauguração da Trilha e Lançamento do Mosaico
Novos caminhos
Para os membros dos Conselhos o projeto continua, prevê-se a produção de sinalização e sua instalação nas demais trilhas, cada uma com identidade visual própria. Além disso, o Sesc promoverá, em parceria com as instituições do Conselho um ciclo de encontros técnicos para praticantes de trilha, trekking e montanhismo.
Os encontros ocorrerão mensalmente a partir de março de 2026, e vão abordar diversos temas do universo das trilhas, o objetivo é qualificar os participantes para a prática segura e responsável de atividades em meio a natureza e esporte de aventura. Os encontros acontecerão ao longo do ano divididos por blocos temáticos que incluem temas como: gestão de riscos e segurança em trilhas, bem-estar físico e benefícios à saúde, ativismo ambiental e preservação de áreas naturais, além de turismo ecológico e geração de renda.
O Encontro Técnico de Praticantes de Trilhas, Trekking e Montanhismo visa reunir pessoas e grupos interessados em aprimorar conhecimentos, técnicas e repertório na prática de trilhas. A programação está voltada para a participação de monitores e educadores ambientais e esportivos; além de exploradores de trilhas, dos iniciantes aos experientes. Ao final dos encontros, espera-se que os participantes tenham ferramentas e conhecimentos para planejar, organizar, executar e avaliar a prática de trilhas como forma de lazer, esporte, turismo, contato com a natureza e desafio pessoal.
Os encontros contarão com a participação de técnicos, especialistas e praticantes, formando um espaço de troca de experiências e conhecimentos capaz de engajar para a prática responsável e segura dessas atividades em áreas verdes.
Os próximos encontros estão previstos para ocorrer nas datas: 07/03, 11/04 e 16/05 no Sesc Itaquera. Para participar é necessário se inscrever, as vagas são limitadas. Acompanhe a programação pelo portal do Sesc SP para mais informações.
Esse projeto não seria possível sem o envolvimento de diversos grupos e pessoas.
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