Não posso, tenho ensaio

30/01/2026

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Histórias de pessoas que se desdobram para ensinar, aprender e se aprimorar a fim de participar de blocos e escolas de samba durante o Carnaval

Leia a edição de Fevereiro/26 da Revista E na íntegra.

POR ADRIANA TERRA
FOTOS NILTON FUKUDA

É um domingo à tarde diferente. O ensaio da escola de samba Vai-Vai é no Estádio do Pacaembu, em São Paulo, um evento especial na véspera de Natal em um dia ensolarado e quente. A pedagoga e professora de educação infantil Martina Damasio chega acompanhada da mãe, a assistente social e trancista Rosana Aparecida Damasio. Ali, a filha é ritmista e a mãe integra a ala das baianas. O envolvimento maior com a agremiação do coração ocorreu em 2006, quando o tio de Martina, Pingo, passou a ser o primeiro mestre-sala da escola do Bixiga. Ao assistir a um ensaio técnico no Anhembi, Martina, então com onze anos de idade, percebeu que seria difícil não estar perto de tudo aquilo. “Eu fiquei encantada”, conta.

Rosana se tornou baiana. Martina, que queria ser passista e desfilou na ala das crianças, acabou se apaixonando também pelo ritmo: aprendeu um pouco de tamborim, chocalho e agogô, instrumento com o qual desfila desde 2016 na Bateria Pegada de Macaco da Vai-Vai (antes, saiu em 2015 tocando o instrumento na Estrela do Terceiro Milênio, escola do Grajaú, zona Sul paulistana). Neste ano, ela também desfilará na ala de chocalho da Pérola Negra. Ao longo dos últimos anos, a fim de evoluir, fez diversas escolinhas – oficinas para quem quer aprender ritmo dentro das agremiações. “Eu gosto quando tem uma apresentação mostrando o instrumento e falando sobre o que ele significa na bateria. É muito importante o ritmista saber o que está tocando e por que ele está tocando”, acredita.

Para cumprir a intensa agenda nos meses que antecedem a folia, Martina costuma ser bastante organizada com horários. “Busco fazer as minhas coisas de trabalho na segunda, na terça e na quarta. Se eu tenho relatório, plano de aula, por exemplo, eu faço nesses dias, porque na quinta já é dia de ensaio”, explica. Equilibrar as tarefas para estar preparado para o Carnaval e dar conta da rotina de trabalho também é um desafio que Raphael Amaral conhece bem. No mês de janeiro, ele tem ensaio quase todos os dias da semana, com apenas um dia livre. Professor de geografia no ensino fundamental, Amaral é ritmista nas escolas de samba Vai-Vai e Torcida Jovem, comanda a Bateria Bela Brisa, que acompanha os blocos Cordão do Jamelão e Baianidades, e toca no bloco Calor da Rua, todos na capital paulista. 

A rotina mais puxada na folia é de uma década para cá, mas a vivência no Carnaval é antiga e vem de família, na cidade de Santos (SP). Seu tio era da ala de compositores da X-9 Pioneira e seu pai o levava para um bloco quando pequeno. “O pessoal colocava o som e a galera ia seguindo a carreta. Chamava Banda da Marechal”, lembra. Depois, a família passou a desfilar na Última Hora, outra escola de samba da cidade. Ele ficava de olho na bateria, mas a relação com os instrumentos se deu via fanfarra escolar, na qual tocou bumbo e lira por anos. Na faculdade, com as baterias universitárias, aproximou-se da caixa e aprendeu também o agogô. Ao se mudar para a capital paulista, procurou se manter perto dessa paixão. 

Para compensar os dias em que não consegue participar de ensaios, Amaral tem alguns métodos, como treinar em casa durante alguns minutos diariamente, solfejar o samba (fazer uma leitura cantada do ritmo), emular os “desenhos” da bateria na mão e assistir a vídeos. Ouvir o samba-enredo sem parar no fone de ouvido nesse período, claro, é regra. 

Pedagoga e professora de educação infantil Martina Damasio com a mãe, Rosana, em ensaio da escola de samba Vai-Vai em São Paulo (foto: Nilton Fukuda)

Familiar e intergeracional
Não é raro que a relação com o Carnaval se dê por influência familiar. Em especial, quando se trata de escolas de samba, o convívio entre gerações é fundamental, garantindo a manutenção dessa cultura a partir de um aprendizado contínuo. “São espaços onde as pessoas têm trocas com diferentes faixas etárias, tem a ala das crianças, a parte dos jovens e adultos, a velha guarda. Você tem a diversidade etária e outros tipos de diversidade, então é um espaço onde se aprende vivenciando. O samba não foi ensinado em escola de música, ele nasce da comunidade e é transmitido de uma geração a outra: as crianças aprendendo não apenas o instrumento, o passo de dança, mas os fundamentos, os rituais, o que significa beijar o pavilhão, por que você reverencia os mais velhos… Tanto que eu nem gosto de falar ‘o samba’, eu falo ‘a cultura do samba’”, diz Juliana Barbosa, professora da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e jurada do prêmio Estandarte de Ouro, que celebra os destaques do Carnaval das agremiações do Rio de Janeiro. 

Além de pesquisar samba e Carnaval há duas décadas, Juliana vive esse universo desde criança. E, no caso dela, a referência familiar também foi importante. “Meus pais eram de blocos carnavalescos no Rio de Janeiro, mudaram-se para o Paraná e aqui buscaram encontrar um pouco do Carnaval”, conta. O pai de Juliana, no caso, era do Bafo da Onça, e a mãe, do Cacique de Ramos. “Só a maior rivalidade do Carnaval carioca”, diverte-se. Ao se mudarem para Londrina (PR), foram desfilar em uma escola de samba e sua mãe, convidada a ser baiana. No entanto, a roupa que chegou na véspera era pequena. A matriarca não titubeou: pegou o vestido de noiva, passou a tesoura e fez a saia de baiana servir lindamente. 

“Se tem paixão maior que essa, você pegar um vestido que está guardado há mais de trinta anos, que tem toda uma simbologia, para fazer a fantasia caber para desfilar um dia, eu não sei o que é paixão. Então é uma coisa que eu vi dentro de casa, uma casa em que a gente sempre atravessou madrugadas assistindo aos desfiles na TV, e que também virava ateliê, que ao terminar o Carnaval tinha purpurina e lantejoula para todo lado”.

É justamente a paixão que ela percebe ser um ingrediente determinante na dedicação para a festa, que vai muito além dos quatro dias institucionais de folia. Quando se trata de agremiações, ela destaca os encontros (feijoadas, reuniões) que ocorrem durante todo o ano, e mesmo os ensaios que começam muitos meses antes de fevereiro, apesar de se intensificarem no verão. Já no caso dos blocos, universo do qual participa também como foliã, ela percebe como o pré-Carnaval tem se tornado mais longo com o crescimento da folia de rua em diversas cidades pelo país. Além disso, o surgimento de novos grupos e o interesse por eles têm estimulado aulas de percussão e outros saberes ao longo de todo o ano. 

Ela cita como exemplo Curitiba (PR), onde mora, uma cidade que não tem tanta tradição carnavalesca quanto outras capitais, mas onde ocorrem hoje quase oitenta saídas de blocos no pré-Carnaval. Além de oficinas de instrumento, Juliana diz que o grupo mais notório da cidade, o bloco Garibaldis e Sacis, promove oficinas diversas, incluindo de maquiagem, que será dada neste ano pelo artista Nello Romanov, autor de penachos que ela sempre compra antes de ir ao Rio para a Sapucaí. “Então é uma movimentação criativa, cultural, econômica e de formação mesmo, porque a gente acaba aprendendo um monte de coisa”, destaca a pesquisadora. 

Bloco na rua
Nem a chuva do fim de tarde de uma terça-feira de dezembro desanima a turma que se encontra em uma área aberta do Centro Cultural São Paulo (CCSP), na capital. Ali, pessoas de diferentes profissões e idades participam de oficinas gratuitas da Bateria Bem Bolada. Quem ensina o grupo são músicos com uma longa trajetória no Carnaval. No caso de Diógenes dos Santos, ou Dida Batucada, sua avó era baiana da escola de samba santista União Imperial, na qual os primos e primas tocavam na bateria. “A minha prima Ana Paula, que é a mais velha, foi quem ensinou todos a tocarem: caixa, cuíca, repinique, agogô, e o forte dela era a frigideira. O surdo de terceira eu também aprendi com ela. Então minha relação com o samba vem através da minha família, do candomblé e da minha relação com o bairro do Bixiga também”, revela ele, que começou sua trajetória musical aos 13 anos na escola de samba Vai-Vai, na qual tocou surdo por décadas, e ao longo de sua carreira como percussionista já participou de gravações de diversos artistas, incluindo Mateus Aleluia. 

No Centro Cultural São Paulo (CCSP), pessoas de diferentes profissões participam de oficinas gratuitas da Bateria Bem Bolada (foto: Nilton Fukuda)

A bateria é um dos projetos do qual Dida faz parte no campo da educação musical. Para ele, a questão da inclusão, especialmente de gênero, é um ponto fundamental nesse tipo de oficina. “É o que vai fazer a cultura se perpetuar por mais anos e também trazer uma nova linguagem, para que seja um ambiente mais flexível para todos os gêneros”, acredita. O músico recorda que seu primeiro instrumento foi a cuíca, e que o repinique ele busca se aprimorar hoje com seu amigo Pupa, com quem divide o comando das oficinas da Bem Bolada. Pupa também tem uma caminhada extensa no Carnaval e no samba. “Eu sou do candomblé e a gente sempre teve música em casa, meus pais, meus tios. A minha tia, que é a minha mãe de santo, vem do Lavapés, a primeira escola de samba de São Paulo. Eu desfilei lá, depois eu fui para o Vai-Vai, já tive grupo de pagode… Aprendi vendo, ouvindo, e as coisas que eu aprendi tocando como ogã, cambondo [cargo nas religiões de matriz africana em que se fica responsável por tocar o atabaque], eu levei para os instrumentos”, conta ele, exemplificando o que foi falado pela pesquisadora Juliana Barbosa sobre os ensinamentos do samba.

Pupa começou tocando atabaque, repique de mão e repinique, instrumento com o qual tem mais afinidade hoje. “O ‘ensinar’ é muito de um dom, porque não são todos que tocam que têm uma didática boa para compartilhar, mas para mim é bom, importante e prazeroso, porque ensinando a gente está aprendendo também”, diz ele. Nas oficinas da Bem Bolada, os grupos são divididos de acordo com os instrumentos e a experiência das pessoas com o ritmo – se são mais iniciantes ou já sabem tocar um pouco, por exemplo. Ao fim, todos ensaiam juntos. 

Completa o trio de professores–mestres da Bem Bolada André Andrade, “mais conhecido como André do Tamborim”, conta. Viciado em samba-enredo desde a infância – época em que, ao lado dos irmãos, aguardava ansioso o Natal para ouvir o CD das escolas —, ele teve a oportunidade de desfilar aos 14 anos em uma ala da Vai-Vai. No entanto, ao ver a bateria, quis estar lá. Aprendeu tamborim, instrumento que há três décadas o acompanha. “Para mim, é legal fazer esse lance das escolinhas porque eu não tive essa oportunidade, tive que aprender na marra, então é gostoso deixar esse legado”, conta.

Foi justamente nas escolinhas e outras formações que Mariana Harumi Cruz Tsukamoto, que se define como gateira, corintiana, aprendiz de batuqueira e professora, aprendeu e vem se aprimorando nos instrumentos que toca hoje em diversos blocos carnavalescos. Foliã desde criança, quando vivia no interior paulista e ia a bloquinhos e salões com a família e amigos, ela se animou com a efervescência do Carnaval de rua em São Paulo, que já frequentava enquanto público. Desde 2015, a festa vem registrando um crescimento exponencial e, em 2025, a Prefeitura calculou 601 blocos (número oficial). Em outras capitais, como Belo Horizonte e Rio de Janeiro, o cenário é parecido. Mas para Mariana o estímulo não foi só esse: em 2019, ela fazia 40 anos, estava recalculando rotas e pensando nas coisas que gostaria de fazer, e ainda vivia o luto por seu pai. O momento reflexivo a levou a se envolver com algo que a encantava: o ritmo. 

De lá para cá, foram muitas aulas. Começou aprendendo agogô, instrumento que tocou por um ano no bloco Pagu, em 2020. Veio a pandemia de covid-19: seguiu online em oficinas, desenvolvendo interesse pelo pandeiro. “Fui procurar professores do instrumento e fiquei muito nele, nesse período de aulas virtuais”, conta. Participou também de uma oficina de confecção de xequerê, o que a empurrou a aprender a tocá-lo. “Esse processo de construir o instrumento te leva para uma outra conexão”, diz. Depois, foi aprender alfaia na escolinha do bloco Batuntã, ainda virtualmente. 

Hoje, Mariana organiza a rotina de professora universitária na Universidade de São Paulo (USP) com os muitos ensaios dos blocos em que toca. No Abacaxi de Irará e no Cordão de Micaela, toca xequerê (ou agbê), instrumento com o qual acredita ter mais autonomia, herança de formações como as que teve com a mestra Gio Paglia, do movimento Agbelas e diretora do instrumento na Portela, escola de samba do Rio. No Batuntã, toca alfaia. Já na Fanfarra Camaleoa transita entre o xequerê e o tambor de mão, que toca no Saia de Chita. Apesar de adorar tocar, ela não abre mão de fazer uma programação de Carnaval para ver outros blocos e curtir. Gosta, genuinamente, de estar na rua: “Sou foliã, acima de tudo”, define-se. 

para ver no Sesc

Programação diversificada atrai foliões com diferentes perfis em unidades do Sesc São Paulo. Na zona Leste, dia 16/2, às 15h, o Sesc Itaquera recebe o Arrastão do Frevo, cortejo do Núcleo Fervo (foto: Nilton Fukuda)

Para cair na folia
Em fevereiro, unidades do Sesc São Paulo reúnem programações para públicos com diferentes gostos e idades brincarem o Carnaval

A programação carnavalesca agita as unidades do Sesc São Paulo neste mês, em atividades de múltiplas linguagens e para todas as idades. São shows, apresentações artísticas, oficinas de artes visuais e filmes para pessoas com diferentes preferências, a maioria gratuitos, com opções presencial e online.

Na região central da capital paulista, o Sesc 24 de Maio recebe o Afoxé Omodé Obá, que apresenta um cortejo ao som do ijexá e celebra memórias ancestrais negras e as tradições dos afoxés nas ruas da cidade. A atividade será no dia 7/2, às 17h. Na zona Norte, o Bloco Ritaleena apresenta no Sesc Casa Verde o show Fruto Proibido, que mistura samba-reggae, ijexá e frevo em versões carnavalescas dos clássicos de Rita Lee. Dia 14/2, às 16h. 

Na zona Leste, dia 16/2, às 15h, o Sesc Itaquera recebe o Arrastão do Frevo, cortejo do Núcleo Fervo, orquestra de sopros e percussão, dançarinos, cabeções e bonecos gigantes que celebram o carnaval de rua pernambucano, do interior de São Paulo e de outras manifestações populares brasileiras.

Confira outros destaques da programação.
SescTV 
Meu Mundo é Hoje: Homenagem a Wilson Baptista
Show em celebração ao cantor e compositor carioca, gravado no Sesc Vila Mariana, com Claudia Ventura, Elza Soares (1930-2022), Trio Samba de Fato, dentre outros nomes. Dia 4/2. Quarta, 22h.

Santo Amaro 
Fanfarra Careta
Cortejo musical resgata marchinhas e brincadeiras populares em uma grande festa coletiva. Dias 14 e 16/2. Sábado e segunda, 14h. GRÁTIS.

Pinheiros 
Orquestra Modesta
Show Carnaval para pequenos foliões, inspirado nos tradicionais bailinhos para famílias. Dias 15 e 17/2. Domingo e terça, 13h30. GRÁTIS.

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