
A partir de 27 de fevereiro, o Sesc Sorocaba recebe a 4ª edição de Frestas – Trienal de Artes. Intitulada do caminho um rezo, a mostra expõe o ato de caminhar como gesto político, espiritual e de construção de conhecimento, aproximando práticas artísticas, educativas e comunitárias.
Com a curadoria de Luciara Ribeiro, Naine Terena e Khadyg Fares, a Trienal propõe uma escuta atenta ao território sorocabano, atravessando suas camadas históricas, visuais e sociais.

O título do caminho um rezo une o conceito de “caminho como rezo”, difundido pelo professor e artista Tadeu Kaingang, à noção andina de “Thaki”, descrita pela socióloga Silvia Rivera Cusicanqui, e à ideia de “confluências afropindorâmicas”, do pensador quilombola Antônio Bispo dos Santos (Nêgo Bispo), orientando uma reconexão com experiências culturais, educacionais e de memória que articulam corpo, território e vida social.
São, ao todo, 188 obras (das quais 26 foram comissionadas) desenvolvidas a partir de experiências negras, indígenas, periféricas e dissidentes, que ocupam tanto a unidade, quanto espaços da cidade, como a Capela João de Camargo, o Clube 28 de Setembro, o Monumento Pelourinho e o Monumento à Mãe Preta.
Assim como nas edições anteriores, Frestas se afirma como uma iniciativa que descentraliza o circuito de arte contemporânea, reconhecendo Sorocaba e o interior paulista como território de confluência entre relações artísticas e comunitárias.
Mirando o estreitamento da relação com o território, para esta edição, a equipe curadora propôs a criação de dois conselhos consultivos: o Territorial e o Conexões.
O Conselho Territorial contribuiu para o enraizamento da mostra em Sorocaba, dialogando com iniciativas locais e ampliando a leitura das dinâmicas sociais, simbólicas e comunitárias da região. Já o Conselho Conexões, por sua vez, voltou-se à ampliação dos horizontes conceituais da Trienal, articulando perspectivas diversas sobre arte, coletividade e modos de habitar o mundo.
Entre as participações internacionais, está a artista palestina Emily Jacir, que apresenta o filme Letter to a Friend (2019), trabalho que articula memória pessoal, deslocamento e conflito geopolítico em Belém (Palestina), enquanto o artista Waanyi Gordon Hookey exibe Murriland! 2 (2021), reconta a história do Estado australiano de Queensland sob perspectiva indígena.
A Trienal traz também a obra inaugural de Richard Long, referência da land art britânica, A linha feita pelo caminhar [Line made by walking] (1967), construída a partir do gesto de percorrer repetidas vezes o mesmo trajeto sobre o gramado. No cruzamento entre corpo e território, a Plataforma Demonstra afirma a presença de artistas def – pessoas com deficiência – nas artes visuais, e trabalhos como Ah, se eu fosse Marilyn! (2010), do artista baiano Edu O., questiona os padrões que definem quais corpos podem ocupar o espaço público, afirmando a corporeidade como presença crítica que expõe e desestabiliza normas de beleza, autonomia e pertencimento.
Saberes tradicionais e práticas agroecológicas também têm presença central na mostra. O coletivo CAIANAS – Coletivo Ambientalista Indígena de Ação para Natureza Agroecologia e Sustentabilidade articula preservação de sementes, nascentes e sistemas agrícolas como gesto artístico e político, enquanto o Projeto Carpinteiros da Amazônia ativa conhecimentos da carpintaria ribeirinha e quilombola por meio de demonstrações e conversas públicas, afirmando o trançado, o gesto construtivo e a oralidade como formas de uma arquitetura ancestral.
Entre os trabalhos que dialogam com a relação fé-cidade-ancestralidade, Deus tá vendo (2025), de No Martins, instala uma cruz com a frase “Deus tá vendo” na ponte estaiada do Sesc Sorocaba, convidando à reflexão sobre imaginários religiosos e controle social, enquanto Sete cantos para pai João de Camargo (2026), de Moisés Patrício, articula experiência estética e espiritual em parceria com a Capela Senhor do Bonfim João de Camargo, espaço da religiosidade negra sorocabana.

O Rio Sorocaba também é incorporado pela curadoria entre os “artistas” da edição, aparecendo como corpo vivo de memória, território e disputa. Essa dimensão se manifesta na obra coletiva Memórias do Rio: ecos de resistência (2026), que relaciona violências históricas da cidade à ameaça de destruição da margem direita do rio, e em trabalhos como O rio que rasga a minha cidade, de Julio Veredas, e Dança um rio onde eu nasci (2026), de Douglas Emilio, que acionam memórias afetivas, escuta sensível e crítica ambiental a partir do curso d’água.
O projeto de Acessibilidade e Inclusão integra a concepção da Trienal desde a expografia, entendendo a acessibilidade como experiência compartilhada que envolve diferentes corpos, percepções e formas de presença.
Entre os recursos disponíveis estão mapa sensorial e narrativa visual do trajeto expositivo, que contribuem para organizar o espaço de maneira clara e previsível, além de videoguias em Libras acessado por QR Codes junto às obras e em modo offline.
A mostra conta ainda com audiodescrição acionada por tecnologia de proximidade (NFC), comunicação alternativa e iconográfica, maquetes de orientação espacial e sinalizações acessíveis. O projeto prevê experiências táteis em obras selecionadas, visitas guiadas em Libras, formação continuada das equipes de acolhimento e educativo e ações em diálogo com o território, aproximando pessoas com deficiência e seus coletivos da programação da mostra.
Frestas – Trienal de Artes: do caminho um rezo acontece de 28 de fevereiro a 16 de agosto, em diversos espaços do Sesc Sorocaba e em locais da cidade. Acesse a programação completa e informações sobre agendamento em sescsp.org.br/frestas
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