
Quando a noite chega à Mata Atlântica, a paisagem não silencia — ela se reorganiza. A umidade se intensifica, os cheiros se tornam mais densos e, pouco a pouco, uma rede de sons toma forma. É nesse cenário que os anfíbios se revelam: sapos, rãs e pererecas que, além de compor a sonoridade da floresta, desempenham um papel essencial para o equilíbrio dos ecossistemas.
No dia 20 de março, data que marca o Dia Internacional dos Anfíbios, a Reserva Natural Sesc Bertioga realizou a vivência “Será Coaxo? Anfíbios da Mata Atlântica”, conduzida pelo Marcelo Bokermann, supervisor da Reserva Natural, e pela educadora ambiental Camila Pozzi. A atividade reuniu cerca de 20 participantes em uma experiência noturna que articulou conhecimento científico, percepção sensorial e aproximação com a biodiversidade local.
Ciência que se escuta
Antes da saída em campo, os participantes foram introduzidos ao universo dos anfíbios por meio de uma apresentação que abordou aspectos de sua biologia, comportamento e importância ecológica. Registros fotográficos e áudios de vocalizações ajudaram a preparar o grupo para reconhecer espécies ao longo do percurso — um exercício de escuta fundamental, já que muitos anfíbios são mais facilmente detectados pelo som do que pela visão.
Os anfíbios são considerados bioindicadores ambientais altamente eficientes. Sua pele fina e permeável — responsável por trocas gasosas e regulação hídrica — os torna extremamente sensíveis a alterações no ambiente, como poluição da água, mudanças de temperatura e variações na umidade. Por isso, mudanças em suas populações frequentemente sinalizam desequilíbrios ecológicos antes mesmo que esses impactos se tornem visíveis em outros grupos de animais.
Além disso, desempenham funções ecológicas fundamentais: atuam no controle de populações de insetos, incluindo mosquitos vetores de doenças; integram cadeias alimentares como presas e predadores; e contribuem para o equilíbrio trófico dos ecossistemas.
De acordo com a União Internacional para a Conservação da Natureza, mais de 40% das espécies de anfíbios do mundo estão ameaçadas de extinção — um dos mais severos declínios já registrados entre vertebrados. Esse cenário é resultado de múltiplos fatores, como perda de habitat, poluição, mudanças climáticas e doenças emergentes, como a quitridiomicose.
Na Mata Atlântica, esse quadro é ainda mais delicado. O bioma abriga mais de 625 espécies de anfíbios, com cerca de 340 espécies endêmicas. Essa diversidade está diretamente relacionada à complexidade ambiental — relevo, umidade, microclimas e variedade de formações vegetais criam condições ideais para a evolução e manutenção dessas espécies.
A experiência em campo
Após a introdução, o grupo seguiu para a trilha noturna, percorrendo mais de 900 metros pela Trilha do Sentir e pela Trilha do Tucum. Equipados com lanternas, os participantes puderam observar anfíbios em seu ambiente natural — onde cada som, cada movimento, se transforma em descoberta.
Ao longo do percurso, foram registradas seis espécies, revelando a riqueza mesmo em um recorte relativamente pequeno da floresta:
Como ressaltou Marcelo, “conseguimos observar algumas espécies durante o trajeto”, reforçando o valor da experiência direta na construção do conhecimento. A escuta atenta, o uso da luz e o deslocamento cuidadoso transformaram a trilha em um espaço de investigação e descoberta.
Desmistificar para conservar
Um dos aspectos mais marcantes da atividade foi a transformação de percepção dos participantes. Muitos carregavam receios ou ideias equivocadas sobre anfíbios — crenças comuns que associam esses animais a perigos inexistentes.
Marcelo destacou que esses animais ainda são cercados por mitos culturais, o que dificulta sua conservação. Ao proporcionar o contato direto, a atividade “favorece a desmistificação dessas informações e faz a pessoa ter contato” — um passo essencial para mudar a relação entre as pessoas e a fauna. Ao final da experiência, relatos dos participantes revelaram esse deslocamento: o medo deu lugar à curiosidade, ao respeito e, em alguns casos, ao encantamento.
Educação ambiental e conservação em prática
Atividades como essa demonstram o papel da educação ambiental como experiência viva. Mais do que transmitir informações, elas criam vínculos — e é desse vínculo que nasce o cuidado. Na Reserva Natural Sesc Bertioga, iniciativas como a vivência “Será Coaxo?” integram um trabalho contínuo de conservação, pesquisa e sensibilização. Ao promover o encontro entre ciência e público, essas ações ampliam a compreensão sobre a biodiversidade da Mata Atlântica e fortalecem a consciência sobre sua preservação.
É nesse território, onde floresta, restinga e água se encontram, que o Sesc desenvolve práticas que vão além da observação: convidam à escuta, ao aprendizado e à corresponsabilidade. Porque, no fim, conservar também começa assim — com um passo mais atento na trilha, uma lanterna acesa na noite e a disposição de ouvir o que a floresta ainda tem a dizer.
🔬 Referências

SOBRE A RESERVA NATURAL SESC BERTIOGA
A Reserva Natural Sesc Bertioga conserva cerca de 60 hectares de floresta alta de restinga, uma formação da Mata Atlântica, na área urbana do município.
O espaço protege a biodiversidade local e desenvolve ações de educação ambiental que aproximam pessoas de diferentes idades da floresta e dos cuidados necessários à sua conservação. Trilhas, visitas mediadas, observação de aves, oficinas e vivências permitem conhecer a vegetação, perceber a presença dos animais e compreender as relações entre o solo, a água e os seres que habitam esse ambiente.
Entre seus espaços estão a Trilha do Sentir, com passarela suspensa e recursos de acessibilidade, a Trilha do Tucum e o Jardim das Brincadeiras.
Com entrada gratuita, a Reserva recebe visitantes de terça a domingo, das 9h às 17h, e oferece atendimento a grupos mediante agendamento.
A programação e as orientações de visitação podem ser consultadas em sescsp.org.br/reservanatural.
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