
Será que “rir que é o melhor remédio”? Por gerações, a expressão popular justificou a importância do riso ao lidarmos com situações difíceis. Um caminho pelo qual a piada, a brincadeira e outras maneiras de provocar graça ajudariam na fuga rápida do sentimento de tristeza ou inadequação. O riso também poderia espantar monstros imaginários debaixo da cama ao colocar em perspectiva a maneira como encaramos o medo.
Para nos ajudar a responder à pergunta do início deste texto, há pesquisas que defendem o humor como um mecanismo de enfrentamento psicológico para a resolução de conflitos. Mas, e se além de “remediar” a dor ou o desconforto, o humor também fosse uma ferramenta para a promoção de cuidado e bem-estar?
No livro Rir é preciso (2021), o psiquiatra Daniel Martins de Barros enfatiza a relevância de nos conscientizarmos sobre o potencial do humor para a saúde física e mental. Professor colaborador do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), ele explica que o riso, esse fenômeno físico com origem neurológica e manifestação corporal, é capaz de aliviar o estresse e amenizar emoções negativas.
No campo das Ciências Humanas, o humor pode, ainda, ser um instrumento de autopreservação, de comunicação e de criação de vínculos. Uma ferramenta capaz de criar laços sociais, como defende o historiador Elias Thomé Saliba, professor no Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP.
Ao gerar engajamento, o humor pode ser peça fundamental para o letramento em saúde. É que, ao criar vínculos, ele pode tornar um conteúdo considerado difícil em algo de fácil compreensão. Uma tirinha ou ilustração bem-humorada sobre esquecer de beber água, por exemplo, pode ajudar uma pessoa a se reconhecer na situação, rir de si mesma e rever práticas. Ou seja, o humor faz gargalhar, mas também tem o potencial de chacoalhar comportamentos e inspirar novos hábitos de vida.
Tendo em vista esses benefícios, cartilhas ilustradas, personagens engraçados e campanhas lúdicas buscam maneiras de comunicar saúde e ciência pela linguagem do humor. Nas redes sociais, multiplicam-se memes, vídeos, quadrinhos e outras postagens bem-humoradas que tratam, com responsabilidade, assuntos sérios, como insônia, transtornos alimentares e esgotamento mental. Diferentemente de outros conteúdos que fazem uso do humor para oprimir ou confundir as pessoas.
Viralizadas no Instagram, as criações do desenhista Pedro Vinicio geram identificação imediata com grande parte do público. Ao carregarem nas cores, traços e mensagens sinceras, as publicações de Pedro sintetizam sentimentos e necessidades da sociedade contemporânea de maneira engraçada. Não à toa, sua descrição no perfil adverte: “Por trás de todos os desenhos ruins, existe uma pessoa que tentou fazer você sorrir”.
Na mesma rede social, a quadrinista Carol Ito publica tirinhas com situações tragicômicas na vida de mulheres. Do cansaço provocado pela precarização do trabalho à solidão e desafios nos relacionamentos amorosos, a saúde mental é analisada quadro a quadro.
Carlos Ruas também utiliza o Instagram e, principalmente, o canal do YouTube Os três elementos, para discutir questões no campo da saúde e da ciência. No YouTube, junto ao biólogo Emilio Garcia e ao especialista em paleontologia Pirulla, o programa Os três elementos usa a linguagem do humor para promover a divulgação científica, tornando acessíveis assuntos que, geralmente, são classificados como complexos. É o caso do vídeo em que discutem a relação entre enxaqueca e clima, nem sempre discutida com base em evidências científicas.
Talvez o mesmo conteúdo em uma postagem comum não alcançasse tanta gente ou repercutisse de maneira tão efetiva se não fosse pelo viés da comédia. Por essa razão, mesmo os canais oficiais do governo, nas redes sociais, como o do Ministério da Saúde e do ministro Alexandre Padilha, recorrem ao humor para difundir conteúdos informativos e diversificar seu alcance. Um exemplo disso é o vídeo de “gatinhos explicando” o Sistema Único de Saúde (SUS).
Com ou sem o jaleco de profissionais da saúde, comunicadores adotam o humor para divulgar informações que podem salvar vidas, além de desmentir conteúdos falsos. Vestida com um collant verde, dos pés à cabeça, a bióloga Mari Krüger interpreta a bactéria que causa a infecção urinária, sambando feliz no momento em que alguém segura o xixi por muito tempo. No vídeo, que já foi assistido por mais de 388 mil pessoas, ela chama a atenção para um comportamento que ainda pode causar, a longo prazo, incontinência.
Em suas publicações, ela também inclui referências de livros e páginas da internet para que a busca por informações confiáveis não pare por ali. Reconhecida por vídeos em que aponta, muitas vezes, para situações esdrúxulas do dia a dia que podem prejudicar a saúde, Mari criou um canal utilizado não só para fazer alertas, mas também para combater fake news. Em entrevistas, ela conta que recebe o apoio da comunidade científica, e que vê em iniciativas feitas com seriedade, a partir de dados e pesquisas, uma ferramenta poderosa na promoção do bem-estar da população.
No final das contas, seja pelo riso que alivia e conforta, ou pelo riso que informa, o humor possibilita a construção de novos repertórios, tornando-se um dos melhores remédios capazes de mudar a forma como vivemos e experimentamos o cuidado de si e dos outros. Uma maneira irreverente de se comunicar e interagir com o mundo: bem-informados e sem perder a graça.
GLOSSÁRIO
MEME: conceito criado originalmente pelo biólogo Richard Dawkins, na década de 1970, para definir uma unidade mínima cultural, foi recuperado e associado à internet no final dos anos 1990. Sem autoria explícita, essa informação feita de humor e linguagem acessível pode ser uma imagem, um vídeo ou uma frase que expresse opiniões e conteúdos diversos, gerando uma identificação coletiva. Compartilhados em grande velocidade, modificam-se e são adaptados por diferentes públicos. Na cultura digital, tornou-se uma importante ferramenta de comunicação.
VIRALIZAR: fenômeno que descreve a velocidade na disseminação de conteúdos digitais, como textos, imagens, vídeos ou memes. Quando algo se torna viral, significa que se espalhou rapidamente, curtido e compartilhado até se popularizar, alcançando muitas pessoas. Isso se deve ao tipo de conteúdo, uma vez que, para que haja grande repercussão, é necessário provocar reações emocionais (ex.: conteúdos engraçados). É importante lembrar que nem todo conteúdo viral é verdadeiro. Há também discursos de ódio e desinformação que podem se tornar virais.
INADEQUAÇÃO: qualidade ou sentimento de não fazer parte de um local ou de um grupo, que pode levar ao isolamento e resultar em adoecimento psíquico. Na fábula O patinho feio, escrita no século 19 pelo dinamarquês Hans Christian Andersen (1805-1875), o sentimento de inadequação persegue o personagem central, discriminado por ser diferente. Em resposta à inadequação está a busca por conexão e criação de laços: estratégias de pertencimento que repercutem em benefícios à saúde e ao bem-estar.

Ação em rede realizada pelo Sesc São Paulo convida o público a refletir sobre o que significa viver com saúde. Mais do que discutir a ausência de doenças, o Inspira propõe uma abordagem ampliada e integrada do cuidado, olhando a pessoa como um ser integral, que considera os múltiplos fatores que influenciam o bem-estar físico, mental, social e ambiental.
A edição 2026 aconteceu de 9 a 19 de Abril e apresentou 110 atividades, distribuídas em 30 unidades. Com o tema “Saber de si, saber de nós: letramento e comunicação em saúde”, a programação convidou o público a compreender que o letramento em saúde envolve acessar conteúdos, reconhecer fontes confiáveis, interpretar informações e aplicá-las no cotidiano, favorecendo decisões mais conscientes e fortalecendo o cuidado individual e coletivo.
Leia +:
Inspira 2026 – Saber de si, saber de nós: letramento e comunicação em saúde
Os desafios da comunicação em saúde, na abertura do projeto Inspira 2026
Revista E (Abril/26) – Vacina contra a desinformação
Manual para Identificar Fake News
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