Aprender com a natureza

01/06/2026

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Espaços verdes dentro ou fora dos centros urbanos nos ensinam sobre equilíbrio, respeito, diversidade e convivência entre espécies

Leia a edição de Junho/26 da Revista E na íntegra

POR LUNA D’ALAMA

Os fósseis mais antigos de Homo sapiens foram descobertos no Marrocos, norte da África, e análises arqueológicas divulgadas em 2017 apontam que esses ancestrais do homem moderno viveram há cerca de 300 mil anos – 100 mil anos antes do que se pensava até então. Ao longo de 20 mil gerações, os indivíduos da espécie humana foram caçadores-coletores, sendo substituídos por agricultores nas 500 gerações seguintes. Há apenas nove gerações, porém, casas e escritórios passaram a ter luz elétrica; e, somente há duas, a internet começou a fazer parte do nosso dia a dia. Segundo o botânico italiano Stefano Mancuso, professor da Universidade de Florença e autor do livro Fitópolis (Ubu, 2026), em pouco tempo na escala evolutiva, o ser humano passou de alguém muito conectado à natureza e às plantas para um especialista em cidades, trânsito, telas e ambientes fechados.

Na visão do especialista em neurobiologia vegetal, que investiga o comportamento e as características das plantas (como inteligência, adaptação, memória e comunicação), nosso afastamento das florestas e áreas verdes é a principal causa dos problemas atuais. Isso porque existe uma relação de interdependência entre a vida animal e a vegetal. “Sem as plantas e algas, qualquer vida animal seria impossível. Elas são o elo entre o Sol e a Terra, transformando energia luminosa, água e dióxido de carbono – pela fotossíntese – em energia química (açúcares) que permite aos animais viver e se reproduzir”, explica Mancuso no livro Fitópolis. Até a constituição do corpo humano tem relação com nosso passado arborícola: os olhos voltados para a frente, a postura ereta, as mãos adaptadas para segurar galhos e colher frutos. Uma anatomia que ainda permite que muitos primatas vivam em árvores.

Foi a partir dos gregos, sobretudo de Aristóteles (384 a.C.-322 a.C.), que o ser humano começou a achar que está fora da natureza – ou pior, acima dela. O rompimento desse vínculo primordial desde a Antiguidade Clássica exige, na análise de Mancuso, uma retomada da interação fluida e orgânica com os espaços naturais, reconhecendo o ser humano como integrante de um ecossistema mais amplo. “Grande parte do que nos torna humanos provém das árvores. E as árvores são o modelo no qual as cidades deveriam se inspirar.” Para habitarmos centros urbanos mais verdes, vivos e saudáveis no futuro, os quais o botânico batiza de fitópolis, o ideal seria termos uma proporção de 86,7% de plantas para 0,3% de animais (incluindo humanos). Assim, compreenderíamos o que deveria ser a real função desses locais: vastos organismos vivendo em relação comunitária com os demais seres.

Banho de floresta
Segundo a pedagoga e arteterapeuta Luanda Bauly, o banho de floresta é um ótimo exemplo de conexão com a natureza. Criada nos anos 1980, essa prática terapêutica oriental (conhecida em japonês como Shinrin-yoku) envolve a imersão em áreas vegetadas, técnicas de relaxamento e o uso do nosso sistema sensorial, com foco na saúde mental, no bem-estar e na redução do estresse. “Essas vivências duram até duas horas, e seus benefícios são sentidos e relatados por quase um mês. É importante olhar para as nossas raízes, e as florestas são regeneradoras”, destaca.

Luanda é facilitadora de banhos de floresta em Sorocaba (SP), com o coletivo Floresta Cultural, e também trabalha em parceria com a ecoeducadora Camila Pedroso. “Nosso corpo tem memória, e ele responde quando está cercado pela natureza, pelos ciclos do Sol e da Lua, pelas estações do ano. Somos também natureza e precisamos nos harmonizar com esse todo”, ressalta. 

De acordo com a pedagoga, é possível levar o banho de floresta para ambientes indoor e até hospitais, com a utilização de óleos essenciais e estímulos sonoros, táteis, visuais e olfativos. Mas, em geral, a prática é realizada em parques, praças, áreas de proteção permanente ou bairros com árvores nativas. “Observamos as espécies, eu explico quais delas são originárias da Mata Atlântica, vemos os pássaros à nossa volta. Isso se chama ecoalfabetização, ou seja, ler e compreender a natureza. O banho de floresta é um convite a um estado de presença, cada vez mais raro hoje em dia, em que há muitos estímulos e atenção fragmentada”, pontua Luanda, que há sete anos pesquisa o comportamento social das árvores da Mata Atlântica e do Cerrado.

Jerá Guarani, da aldeia Kalipety, tem na convivência com a natureza um caminho para a sua saúde física, mental e espiritual (foto: Nilton Fukuda)

Olhar originário
A integração entre os seres humanos e os não humanos (também chamados de mais que humanos), como animais, plantas, fungos, microrganismos, rios, florestas e montanhas, é algo que faz parte da cosmologia dos povos originários. Como relata a agricultora, pedagoga, escritora e liderança indígena Jerá Poty Mirim, mais conhecida como Jerá Guarani, os Guarani Mbya acreditam que uma pessoa só pode ter saúde física, mental e espiritual se viver em um ecossistema equilibrado entre fauna e flora. “Nossa relação com o meio se estabelece dentro de uma crença de que tudo tem uma importância sagrada e uma interligação profunda. Utilizamos e usufruímos da natureza apenas o suficiente para nosso plantio, caça, pesca, coleta de frutos, remédio e moradia. Se alguém ultrapassa os ensinamentos e quebra essa regra, pode adoecer tanto física quanto espiritualmente”, defende.

Jerá vive na aldeia Kalipety, que pertence à terra indígena Tenondé Porã, localizada no extremo Sul da capital paulista. O local de quase 16 mil hectares abriga 17 aldeias, e na Kalipety vivem 87 indígenas divididos em 22 famílias. 

Na aldeia, além das plantações de diversas variedades de milho e batata-doce, há árvores frutíferas (de laranja, banana, mexerica), plantas nativas e medicinais. O modo de ser guarani (ou nhandereko) pressupõe essa relação harmoniosa entre humanos, animais, florestas e territórios. “Acreditamos que é possível viver em áreas sem derrubar e asfaltar tudo. Os juruás [não indígenas] passam seus dias trabalhando, indo atrás de salário, carro e casa, enquanto o mundo está sendo destruído e chegando ao fim”, analisa. Para Jerá, as comunidades indígenas têm muito a ensinar sobre vida em comunidade, uma existência que reconhece a importância de cada ser e a ligação entre todos. 

Do espaço à floresta
Por meio de mapas, dados e imagens de satélite, também é possível entender a importância das áreas verdes nas nossas vidas. O agrônomo, pesquisador titular e chefe da Divisão de Projetos Estratégicos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), Jean Ometto, estuda as relações entre ambientes naturais e aqueles transformados pelo ser humano. “As florestas brasileiras são ambientes naturais muito biodiversos, compostos por plantas, fungos, microrganismos e animais. Todos os nossos biomas têm florestas, não apenas a Amazônia e a Mata Atlântica. Há florestas no Cerrado, no Pantanal, na Caatinga, no Pampa. O que varia são, essencialmente, a diversidade biológica e a estrutura delas (como a altura e o diâmetro das plantas) em cada região”, explica.

Ometto acrescenta que as florestas – verdadeiros sustentáculos do solo, do clima e da vida no planeta – também têm uma relação com o ciclo da água, por meio de um processo chamado evapotranspiração, que transfere a umidade do solo e das folhas para a atmosfera, contribuindo para a formação de nuvens, chuva, correntes de vento, rios voadores (no caso da Amazônia) e o resfriamento do ambiente. “As plantas são a base da cadeia alimentar e, por uma questão de escala, há muito mais vegetais do que animais na Terra. As plantas servem de comida aos herbívoros, que nutrem os carnívoros. Os vegetais são o início da transferência de energia na cadeia alimentar, centrais para a vida. Sem eles, nós não existiríamos”, elucida.

Vista áerea da terra indígena Tenondé Porã, localizada no extremo Sul da capital paulista (foto: Nilton Fukuda)

Parques nacionais 
Outra forma de se conectar à natureza no Brasil é conhecendo os parques nacionais: são 76 localizados de Norte a Sul do país. Liderado pelo economista paulistano Dennis Hyde e pela psicóloga Letícia Alves, o projeto Entre Parques – criado em 2021 e oficializado como instituto em 2025 – mapeou essas grandes áreas verdes ao longo de três anos e meio, com o objetivo de reunir informações e divulgá-las a quem quiser visitar os espaços. “Os parques nacionais são unidades de conservação que ocupam 3% do nosso território continental, a maioria na Mata Atlântica – mas, em termos de extensão, os maiores estão na Amazônia”, explica Hyde. 

Há parques nacionais em todos os estados, exceto Alagoas, cercados de praias, cachoeiras e até cavernas com pinturas rupestres. O mais antigo é o do Itatiaia (RJ), criado em 1937, e o mais recente é o do Albardão (RS), oficializado em março de 2026. Todos são geridos pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).

Há atrações para todos os gostos e perfis, desde famílias com crianças até trilheiros profissionais. A maior infraestrutura, segundo o fundador do Entre Parques, está no Parque Nacional do Iguaçu, em meio às cataratas de Foz do Iguaçu (PR), e no Parque Nacional da Tijuca, no Rio de Janeiro (RJ). Ambos também recebem a maior visitação anual: 2 milhões e 5 milhões de pessoas, respectivamente. 

“Os parques nacionais são de proteção integral, ou seja, não se pode retirar nenhum tipo de recurso nem morar dentro deles. Em 2025, foi sancionada a Política Nacional de Incentivo à Visitação a Unidades de Conservação (Lei nº 15.180/2025), para estimular o turismo sustentável, ampliar o acesso e gerar renda no entorno”, detalha Hyde. A legislação é uma tentativa de equilibrar educação ambiental, conservação, turismo, lazer e valorização da cultura local. Além disso, a biodiversidade nas unidades de conservação do país tem se mantido estável na última década, contra uma perda de mais de 70% em todo o mundo nos últimos cinquenta anos – o que reforça a importância dos parques nacionais.

De acordo com Hyde, o ser humano se esquece de que também é natureza. “Com a filosofia grega, acreditou-se que os animais e o meio ambiente foram criados para servir ao homem. Aristóteles acreditava que os cavalos só existiam para ser força motriz, puxar carga. E assim ‘evoluímos’ no Ocidente, achando que a espécie humana é uma coisa e a natureza é outra. A partir de Darwin, a gente se coloca de novo como natureza. Nas grandes cidades, porém, nos afastamos dela, não observamos mais a Lua, as estrelas, as marés”, avalia. 

Ambientes privilegiados
Nos territórios e na rotina das metrópoles, áreas verdes como parques, praças, jardins, quintais e hortas acabam sendo espaços privilegiados para usufruto do direito ao lazer e de relacionamento com a natureza, segundo Rosangela Martins, pesquisadora de parques urbanos e conselheira gestora do Parque Piqueri, no Tatuapé, na zona Leste de São Paulo.  “Um parque urbano é um lugar onde o corpo em movimento, o ambiente natural e a sociabilidade nos permitem observar os ciclos naturais, reconhecer limites espaciais e compreender que a vida, nas suas mais diversas formas, se sustenta por relações de cooperação. A mesma interdependência que existe entre fauna e flora deveria ocorrer entre natureza e sociedade”, compara.

“Aproximar-se continuamente de espaços naturais, para a pesquisadora, amplia saberes ligados ao afeto, ao vínculo, à corresponsabilidade, ao lazer e ao bem-estar. “O meio ambiente está indissociavelmente ligado ao cuidado com nós mesmos, com o outro e com a cidade”, reforça Rosangela. “Os parques urbanos devem ser valorizados como patrimônio ambiental, cultural e social. Eles ajudam a desenvolver sujeitos críticos e implicados com a vida coletiva, pois não há conservação sem vivência, nem cuidado sem pertencimento”, finaliza.  

Do quintal à floresta
De 2 a 7 de junho, Sesc São Paulo promove Festival Florestar, ação que destaca a importância das áreas naturais como patrimônio e espaços de aprendizagem, saúde e bem-estar (Reserva Natural Sesc Bertioga – foto: Nilton Fukuda)

Para aprofundar o debate sobre as áreas verdes e reforçar a importância desses locais como patrimônio, espaços de aprendizagem, convivência, promoção de saúde e bem-estar, o Sesc São Paulo realiza, de 2 a 7 de junho, o Festival Florestar. A ação em rede terá 29 unidades participantes, na capital, interior e litoral, com 130 ações previstas ao longo desses seis dias.

Com o tema Do quintal à floresta, a programação inclui palestras, debates, vivências, feiras, seminários e visitas mediadas, além de documentários e séries no SescTV e Sesc Digital. A programação do Florestar vai ocupar as unidades participantes e também territórios próximos, como ruas, praças, jardins, parques e unidades de conservação, possibilitando a fruição e o contato com a natureza e com outras pessoas.

Segundo Felipe Campagna De Gaspari, engenheiro agrônomo e técnico em sustentabilidade da Gerência de Educação para Sustentabilidade e Cidadania do Sesc São Paulo, ambientes como parques, bosques, quintais, hortas e trilhas estimulam o convívio, a reflexão e o contato com a natureza. “A interação com esses espaços é educadora por si só, pois incentiva trocas mais equilibradas entre o natural e o urbano, favorecendo relações sociais mais saudáveis e conscientes, que se ligam aos mais diversos aspectos da nossa vida cotidiana”, ressalta.

A primeira edição do festival aconteceu em junho de 2023. A abertura deste ano será no Sesc São José dos Campos, no dia 2 de junho, às 18h. Na ocasião e também no dia 3 de junho, no Sesc Pompeia, a partir das 18h30, o público poderá conferir uma palestra com o neurobiólogo Stefano Mancuso, autor de cinco livros publicados no Brasil pela Editora Ubu, sendo o mais recente Fitópolis (2026),  e fundador do Laboratório Internacional de Neurobiologia Vegetal, em Florença. Mancuso falará sobre como as plantas têm inteligência própria e podem inspirar modelos mais sustentáveis, resilientes e cooperativos de sociedade.

Acesse a programação em sescsp.org.br/florestar

Confira destaques:

INTERLAGOS
Vivência Mutirão de Sistema Agroflorestal
Com Somos Socioambiental, na Casa Ecoativa, na Ilha do Bororé, zona Sul. Dias 4 e 5/6, das 10h às 17h. Saída da unidade. Inscrições via portal. Grátis.

PINHEIROS
Feira Florestar SP
Mostra de práticas socioambientais. Dias 6 e 7/6, das 11h às 17h. Na Praça. Grátis.

REGISTRO
Seminário Conhecimentos Tradicionais e Científicos no Manejo da Paisagem
Com agricultores, coletores de sementes florestais, viveiristas e técnicos envolvidos em ações de restauração ecológica. Dia 6/6, das 10h30 às 13h30. Na Área de Convivência. Grátis.

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