País na retina

01/06/2026

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Exposição Delírio tropical – Recanto, no Sesc Pinheiros, estimula reflexões sobre o imaginário brasileiro a partir da diversidade de produções visuais [obra Guardiões da floresta (2024), de Rafael Prado]

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POR RACHEL SCIRÉ

Pinturas, cartazes, retratos, capas de revistas e discos, postais, fotojornalismo, lambes, vídeos, performances, esculturas. Para além da sucessão infinita das imagens que rolam em nossas telas, somos povoados por múltiplas criações visuais, que formam um imenso mosaico de nossa nação. Essa diversidade é mobilizada na exposição Delírio tropical – Recanto, no Sesc Pinheiros. “Propus uma exposição que pensasse nesse imaginário constituído a partir de todas as imagens com as quais a gente convive, que nos atravessam e afetam a nossa forma de olhar para elas e para o Brasil”, conta o curador Orlando Maneschy.

A mostra reflete sobre como as produções visuais em vários formatos moldam as memórias do país. Ao mesmo tempo, pretende descortinar visões não hegemônicas a respeito da nossa realidade, capturando o olhar para o inesperado, o desviante, aquilo que ainda é pouco conhecido. A imersão em um fluxo de cerca de 280 obras, de mais de 130 artistas de todas as regiões do país, traz à tona temas como identidade, memória, mídia, território e pertencimento.

“O que eu e a Keyla Sobral [curadora adjunta] fizemos foi colocar em diálogo obras de diferentes artistas, a partir de espelhamentos no próprio espaço”, explica Maneschy. Além do aspecto especular da expografia, que favorece reflexões, as relações entre imagem e autoimagem, estereótipos e vivências também são tensionadas em obras que trazem espelhos de forma concreta, como Abebé (2021), de Keila Sankofa, Caboclo Meio-Dia (2015), de Arthur Scovino, Permissão para lembrar (2022), de Waléria Américo, e (Outros) Fundamentos #01, (2017-2019), de Aline Motta. 

A articulação de produções visuais desde a década de 1960 até perspectivas indígenas, negras, LGBTQIAPN+ e outras vozes da arte contemporânea amplia a visão do que se entende por nacional. “Ao percorrer diferentes espaços e contextos, a mostra prolonga uma experiência compartilhada de conhecimento, valorizando a diversidade como uma chave para compreender os entendimentos e as contradições que moldam a sociedade”, afirma Luiz Deoclecio Massaro Galina, Diretor Regional do Sesc São Paulo.

Nesse sentido, a curadoria evidencia a participação umbilical dos artistas que integram a mostra, já que diferentes corpos, identidades e histórias não estão ali como representações, mas como presenças. “Com inteligência, talento e muita perspicácia, as pessoas estão trazendo os seus olhares sobre os seus lugares”, diz Maneschy, que exemplifica com davi de jesus do nascimento, em corpo-embarcação (2019), um retrato em que ele aparece abraçado a uma carranca. Ele, que se define como “artista barranqueiro”, nasceu em Pirapora (MG) e cresceu às margens do rio São Francisco, em uma família de ribeirinhos. “A gente está falando de pertencimento, da força da vida dessas pessoas”, explica o curador.

O público tem o olhar convocado a elaborar sentidos sobre o cotidiano, os impasses da nossa modernidade, a cultura visual midiática, as comunidades tradicionais, as lutas políticas, os corpos invisibilizados, as disputas simbólicas, as marcas da nossa história, a emergência ambiental e a capacidade de reimaginar o futuro. “Nós deixamos as leituras abertas. Pode ser um olhar antropológico, histórico, estético, há muitas possibilidades de acesso às obras”, destaca o curador. De acordo com ele, o desejo é pensar como as imagens que estão ao nosso lado podem nos levar além. “É uma atualização do olhar: para lembrar, voltar a sentir, descobrir e romper com visões cristalizadas”, conclui Maneschy.

A exposição Delírio tropical foi originalmente apresentada entre 2024 e 2025 na Pinacoteca do Ceará, em Fortaleza, como uma das ações do Solar Fotofestival, evento internacional de fotografia voltado à difusão da imagem como linguagem artística e cultural. No Sesc Pinheiros, onde fica em cartaz até 13 de outubro, ganhou nova expografia, o subtítulo Recanto e uma obra inédita de Keyla Sobral. A programação integrada conta com mostra audiovisual de filmes, videoartes e performances orientadas para o vídeo, playlist, série de lambes ao ar livre, visitas mediadas, ações educativas e atividades formativas. 

PINHEIROS
Delírio Tropical – Recanto
Até 13/10. Terça a sábado, das 10h30 às 21h. Domingos e feriados, das 10h30 às 18h. GRÁTIS.
Mais informações em sescsp.org.br/delirio-tropical-recanto

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