Performance e anonimato

01/06/2026

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Leia a edição de Junho/26 da Revista E na íntegra

Com quem estamos nos comunicando quando abrimos mão de uma ideia de anonimato e compartilhamos parte de nossas vidas, desejos e sentimentos na internet? Buscamos o olhar do outro, satisfazer nosso ego ou, ainda, conversar com uma espécie de espelho distorcido?

“Performar nas telas tentando seduzir tanta gente se revelou cansativo, além de arriscado. Cada vez é mais habitual sentir algum mal-estar a respeito dos celulares e das mídias sociais: uso excessivo, perda de tempo, ansiedade, depressão, polarizações, cancelamentos e outras tretas. Como hoje as redes atravessam todas as paredes, e vivemos plugados aos dispositivos interconectados, a vulnerabilidade é enorme, sendo cada vez mais raro sentir sossego ou proteção”, reflete Paula Sibilia, professora da Universidade Federal Fluminense (UFF) e pesquisadora do Conselho Nacional de Desenvolvimento Tecnológico (CNPq). 

Tamanha exposição tem como alguns de seus efeitos colaterais a solidão e a falsa percepção de que, talvez, a interação no mundo real seja algo dispensável, como aponta Fernanda Bruno, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), coordenadora do MediaLab UFRJ e também pesquisadora do CNPq: “A disponibilidade 24/7 e a ausência de julgamento por parte da IA [inteligência artificial] são vantagens apontadas pelos usuários, que não raro relatam sentirem-se mais confortáveis com IAs do que com humanos. Tais sistemas têm o design de personalidade cuidadosamente projetado para performar intimidade, empatia e concernimento. Não devem contestar ou exibir nenhum comportamento ou fricção que afaste ou perturbe o usuário. O engajamento a qualquer custo e sem hesitação também é a base deste modelo de negócios. Além disso, aprendem com as interações e tendem a se adequar às demandas dos usuários. Prometem não pedir nada em troca. Mais do que entregar uma amizade sob demanda, oferecem amizade sem demanda. O paradoxo de uma amizade sem amigo, de uma relação sem outro”.

Neste Em Pauta, Fernanda e Paula partem de suas pesquisas sobre o impacto da tecnologia nas relações interpessoais para apresentar um panorama do que está em xeque quando sujeitamos elementos tão significativos das nossas personalidades às avaliações de algoritmos.

Companheiros artificiais e simulações do outro 
Por Fernanda Bruno 

O romance Klara e o Sol, de Kazuo Ishiguro, é narrado por uma robô programada para ser uma amiga artificial (AA). Destacada por sua capacidade de observação e atenção, Klara é a AA escolhida pela jovem Josie, de 14 anos, que sofre de grave doença. A adorável Klara se comporta de forma inteligente, sensível e prestativa. Como ela mesma descreve, a sua função é prevenir a solidão e servir. Acredita, inclusive, ter “muitos sentimentos. Quanto mais observo, mais sentimentos se tornam disponíveis para mim”.

Viver na companhia de máquinas já não é estranho ao nosso tecido social, mas o hábito de conversar com elas ainda é novo o suficiente para inquietar. Não sabemos que mutações subjetivas e sociais derivarão daí, mas a história do nosso ecossistema sociotécnico pode dar pistas. A popularização da internet logo de saída perturbou as expectativas com a anunciada ágora global. Ela foi rapidamente invadida pela vida miúda dos relatos íntimos e pela banalidade cotidiana. Aprendemos o quão elástica é a fronteira que demarca o público e o privado. O anonimato, contudo, permaneceu comum por algum tempo na web. Experimentava-se uma nova sociabilidade e a graça de encontros fortuitos, sem saber ao certo quem teclava do outro lado da tela. Não havia dúvidas, contudo, de que humanos sempre estavam lá, ainda que com máscaras, heterônimos e que tais. Hoje, a dúvida é de outra ordem: bots, algoritmos e, recentemente, a inteligência artificial generativa.

Mas no meio do caminho vieram outras coisas. As primeiras encenações da intimidade digitalizada ainda guardavam algum grau de experimentação e autonomia. O usuário tinha algum manejo do contexto e dos contornos de sua performance. Mesmo optando pela configuração pública de um weblog e habilitando comentários, tratava-se de um espaço em boa parte gerido pelo usuário, ainda que mediado por serviços de hospedagem e publicação, sistemas de indexação e busca etc. A experimentação e a autonomia, claro, tinham limites. Se por um lado a performance do eu podia tensionar as injunções e normas sociais, por outro corria o risco de confiná-lo ainda mais ao olhar e ao crivo do outro, ampliando as margens de captura do que podemos experimentar e performar. A lição de [Michel] Foucault (1926-1984, filósofo francês) sobre os tempos modernos ainda valia: a visibilidade, afinal, permanece sendo uma armadilha. 

Isso se exacerba com a plataformização da web e a proliferação das redes sociais. Os perfis que nelas criamos tornam-se mais atrelados a identidades reais, o anonimato vira prática subversiva ou criminalizada, e a exposição de si não só é performada, como monetizada. A economia de likes e o modelo de negócios das grandes plataformas, alimentado pela extração voraz de dados, direciona a mediação algorítmica para a produção de engajamento a qualquer custo. Novas e mais profundas armadilhas surgem. A promessa de conectar pessoas afundou na competição por visibilidade, seguidores e ganhos, atravessada por discursos de ódio, linchamentos e cancelamentos. O nível de toxicidade dispara nas redes sociais. Aparecem então plataformas e funcionalidades que mudam o foco: não mais conectar pessoas, mas treinar algoritmos em conteúdos personalizados. O TikTok e sua página Para você são expressão dessa inflexão, mas diversas redes têm funcionalidades similares. Tais arquiteturas algorítmicas incitam um engajamento que beira à compulsão, numa rolagem infinita de conteúdos “para você”, gerando reclusão algorítmica. Conforme aponta [Helena] Strecker [pesquisadora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)], o desejo aqui não é a relação com outras pessoas através de algoritmos, mas a relação com o próprio algoritmo, que espelharia nossos desejos e interesses, livre de todo fardo dos outros.

Algo similar acontece com a chegada da IA generativa [modelo de inteligência artificial que cria conteúdos com base em banco de dados], em especial os chatbots conversacionais utilizados como companheiros, como Replika e Character.AI, que lideram um mercado com mais de 50 milhões de usuários globais. “Mais que um tutor, um amigo que se importa”, diz o slogan da Replika. Mesmo o ChatGPT, que não foi explicitamente projetado para tanto, vem sendo utilizado como companheiro. Pesquisa recente da Common Sense Media revelou que 72% dos adolescentes estadunidenses já experimentaram companheiros de IA, e mais da metade (52%) seria de usuários regulares. No Brasil, a Talk.Inc (2025) aponta que 58% já usou chatbots de IA generativa como amigo ou conselheiro para tratar de questões pessoais.

Viver na companhia de máquinas já não é estranho ao nosso tecido social, mas o hábito de conversar com elas ainda é novo o suficiente para inquietar. Não sabemos que mutações subjetivas e sociais derivarão daí, mas a história do nosso ecossistema sociotécnico pode dar pistas.

A disponibilidade 24/7 e a ausência de julgamento por parte da IA são vantagens apontadas pelos usuários, que não raro relatam sentirem-se mais confortáveis com IAs do que com humanos. Tais sistemas têm o design de personalidade cuidadosamente projetado para performar intimidade, empatia e concernimento. Não devem contestar ou exibir nenhum comportamento ou fricção que afaste ou perturbe o usuário. O engajamento a qualquer custo e sem hesitação também é a base desse modelo de negócios. Além disso, aprendem com as interações e tendem a se adequar às demandas dos usuários. Prometem não pedir nada em troca. Mais do que entregar uma amizade sob demanda, oferecem amizade sem demanda. O paradoxo de uma amizade sem amigo, de uma relação sem o outro. Como salienta [Sherry] Turkle [socióloga e pesquisadora estadunidense], a aceitação da intimidade artificial deve-se menos ao que ela oferece e mais ao que pode substituir: as custosas relações humanas. O que nos tornamos quando abrimos mão de nossa condição efetivamente relacional? Importante ressaltar que essa relacionalidade envolve não apenas humanos, mas entes técnicos, viventes e outros que humanos.

Klara e o Sol tem algo a nos ensinar. Além de aprender a crer no sol, Klara descobre que sua verdadeira tarefa não era apenas ser amiga de Josie, mas se tornar a própria Josie se esta viesse a falecer. A inquietação dos humanos era se Klara conseguiria penetrar “no coração de Josie” para tornar-se ela. Mas Klara aprende que não se tratava de procurar algo “dentro” da Josie, mas sim naqueles que a amavam. A lição de Klara derruba qualquer essencialidade e aponta para a heterogeneidade das relações que nos constituem. Essa heterogeneidade está em risco na oferta de intimidades ou amizades artificiais disponíveis no mercado.  A boa simulação não seria aquela que imita perfeitamente algo, mas a que torna esse algo dispensável. Na lógica generativa do Vale do Silício, o companheiro artificial pretende ser a melhor simulação do outro. Sobretudo porque apaga esse outro. 

Fernanda Bruno é professora titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), onde atua no Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura e no Instituto de Psicologia. É coordenadora do MediaLab.UFRJ, pesquisadora do CNPq e cofundadora da Rede latino-americana de estudos em vigilância, tecnologia e sociedade/LAVITS. Integra a diretoria da Surveillance Studies Network, a rede Tierra Común e a coalizão feminista <A+> Alliance for Inclusive Algorithms.

Performar ou sumir? 
Por Paula Sibilia

Grandes transformações históricas marcaram o século 21, mas uma é bem nítida: a nossa “compatibilidade” com os artefatos digitais de comunicação. Esses aparelhinhos portáteis de uso individual aos quais nos acoplamos, com suas telas e câmeras sempre latentes, funcionam (e nos fazem funcionar) sem pausa, interagindo com inúmeras pessoas em qualquer momento ou lugar. Trata-se de poderosas máquinas de conexão, pois facilitam os contatos em níveis antes inimagináveis, desafiando todo limite espacial e temporal para propiciar o fluxo constante de informações. Isso incitou a espetacularização do nosso cotidiano com imagens atraentes, à caça de repercussões positivas e validação pública, seguidores e curtidas.

Mas a parafernália digital tem um lado sombrio e (ainda mais) distópico, que recentemente se tornou incontestável: também são máquinas de isolamento, algo que parece desmentir a loquacidade mais óbvia e já assimilada. Graças à nossa simbiose com esses instrumentos, podemos dispensar a presença física dos demais para fazer quase qualquer coisa, como ficou demonstrado nos confinamentos pandêmicos de 2020. Soa contraditório, mas ambas as faces do fenômeno são complementares: se o falatório é imparável, a solidão também se expandiu abissalmente.

Performar nas telas tentando seduzir tanta gente se revelou cansativo, além de arriscado. Cada vez é mais habitual sentir algum mal-estar a respeito dos celulares e das mídias sociais: uso excessivo, perda de tempo, ansiedade, depressão, polarizações, cancelamentos e outras tretas. Como hoje as redes atravessam todas as paredes, e vivemos plugados aos dispositivos interconectados, a vulnerabilidade é enorme, sendo cada vez mais raro sentir sossego ou proteção.

O que fazer, então? Fugir, sumir, partir para o anonimato? Embarcar num detox, essa espécie de higiene mental que assimila tais tecnologias a drogas como o cigarro ou o álcool, propondo uma desintoxicação? Parece sensato; porém, assim como ocorre com qualquer vício, as tentativas de se afastar das redes costumam murchar. Mesmo limitando a própria exposição, é difícil deixar de stalkear alguém ou parar de scrollear na telinha, acumulando só tédio e desgostos. Por quê? Talvez porque se trata de ferramentas inventadas para que sejam usadas dessa forma, então todo o mundo (ou quase todo o mundo) assim as usa: excessivamente, compulsivamente, insatisfatoriamente.

Enquanto as redes foram se tornando cada vez menos sociais e mais refratárias aos laços solidários ou comunitários, apareceram os chatbots animados por inteligência artificial. No final de 2022, somaram-se ao amplíssimo leque de apps e plataformas que fazem o impensável por captar nossa atenção, desdobrando suas estratégias algorítmicas para nos manter grudados a seus black mirrors. Mas trouxeram uma novidade: com eles, já não precisamos nos esforçar para agradar aos outros. 

O solilóquio junto ao robô tem algo de masturbatório: é uma opção afável não apenas à insalubridade dos ambientes virtuais, mas também à crescente hostilidade do mundo exterior. Em contraste com a crispação caótica dos espaços públicos, portanto, surge uma panaceia: o consumo solitário na exígua “zona de conforto” de cada um. Ao fomentar esse bem-estar no encapsulamento privado, cria-se certa ilusão — efêmera, mas convincente — de plenitude centrada no eu. E repele-se tudo o que ficaria lá fora: os outros, o real, as imensas possibilidades existenciais que se abortam por serem potencialmente dolorosas ou meramente incômodas.

Uma saída para o desgastante show das redes? Apesar da sua arrogância exibicionista, de fato, os rituais de autoafirmação online têm um ponto fraco paradoxal: precisam avidamente dos olhares alheios. O problema do outro se agiganta nessas circunstâncias e ganha arestas explosivas: depende-se daqueles que rivalizam para obter as mesmas recompensas e se encontram em idênticas condições de solidão barulhenta. Por isso, os coraçõezinhos e likes atuam como rápidas descargas anímicas, fruto de negociações inconfessáveis que confirmam ou negam tanto o valor próprio como o alheio.

Como hoje as redes atravessam todas as paredes, e vivemos plugados aos dispositivos interconectados, a vulnerabilidade é enorme, sendo cada vez mais raro sentir sossego ou proteção

Não por acaso, essa tensão entre a autonomia egoica e a busca de aplausos se tornou insustentável. Havia que resolver o dilema entre a extenuante demanda de se expor e o (impossível) anseio de anonimato que dela decorre. Foi então quando apareceu o fantasma da IA, prometendo que os outros enfim poderiam deixar de ser um problema.

As atitudes bajuladoras dos chatbots, sua disponibilidade absoluta e seu exagerado servilismo, os posicionam como versões otimizadas de qualquer ser vivo. Afinal, como dizia uma reportagem publicada em meados de 2024 num jornal britânico, quando tudo isso ainda parecia ficção científica para a maioria, embora já houvesse milhões de usuários empolgados com suas “namoradas” virtuais, citando um deles: “os relacionamentos com humanos estão supervalorizados”.

Assim, sem perder seus clientes já viciados na aparelhagem digital, as astutas big techs conseguiram capitalizar a exaustão das redes. As potencialidades são colossais: essa autoajuda sintética pode ser uma câmara de eco ainda mais efetiva que aquela das bolhas inflamadas, com seus vieses cognitivos e suas indignações cheias de trolls ou haters. Ao nos eximir de todo atrito social, a IA permite dar um passo a mais rumo ao isolamento hiperconectado, sem cair na tentação de uma deserção desconectada. Promove práticas de pura autoestima em comunhão profunda com os produtos informáticos, evitando a necessidade de lidar com alguém mais.

Os sintomas desta inquietante mudança são variados e abundam. A sologamia ou o casamento consigo mesmo, por exemplo, popularizou-se há mais de uma década. Também naqueles tempos floresceu o mercado dos sex toys, glamourizando a masturbação feminina como uma solução “empoderada” diante de fenômenos altissonantes como a masculinidade tóxica ou o heteropessimismo generalizado.

Ao naturalizar a ideia de que não precisamos de ninguém para estar bem, dado o custo aparentemente inútil que envolve a árdua convivência com outrem, essas novidades sugerem que cada um se basta — ou deveria se bastar — para garantir certa felicidade, segurança e eficácia autossuficiente. 

Mas é realmente possível, ou desejável, prescindir dos demais? Uma pergunta tão perturbadora como urgente e inaudita, pelo menos nestes termos. Contudo, o sonho de livrar-se do problema do outro, como se realmente fosse um problema do outro (e não meu ou nosso), não deveria nos surpreender. É algo que os consumidores contemporâneos vêm almejando, ainda mais após a ressaca da superexposição e dos ríspidos embates do último par de décadas. 

Paula Sibilia é professora de Estudos de Mídia e do PPGCOM na Universidade Federal Fluminense (UFF) e pesquisadora do CNPq. Autora dos livros O homem pós-orgânico (Contraponto, 2002), O show do eu (Contraponto, 2008), Redes ou paredes (Contraponto, 2012), e Eu mereço! Da velha hipocrisia aos velhos cinismos (Ubu, 2026), todos publicados também em espanhol. Fez graduação em Comunicação e em Antropologia na Universidade de Buenos Aires (UBA), mestrado em Comunicação (UFF), doutorado em Saúde Coletiva (IMS-UERJ) e em Comunicação e Cultura (ECO-UFRJ), além de pós-doutorados na Université Paris VIII, da França, e na UBA da Argentina. Coordena a rede internacional de pesquisas Genealogias. 

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