Somar inteligências

01/06/2026

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Para o professor e pesquisador Diogo Cortiz, é preciso usar a inteligência artificial de maneira consciente e crítica em favor da capacidade humana de produzir conhecimento

Leia a edição de Junho/26 da Revista E na íntegra

POR MARIA JÚLIA LLEDÓ
FOTOS NILTON FUKUDA

Otimista, mas de olhos bem abertos. É assim que o cientista cognitivo Diogo Cortiz, uma das referências no debate sobre inteligência artificial (IA) no Brasil, coloca-se diante dos inúmeros desafios econômicos, ambientais, sociais e culturais desencadeados na última década. Doutor em Tecnologias da Inteligência e Design Digital pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), com período de estudos em Antropologia Digital pela Universidade de Paris-Sorbonne, Cortiz investiga como as tecnologias emergentes transformam a sociedade, a economia e o comportamento humano. Em aulas, palestras e em sua coluna Tilt, no portal UOL, além do podcast Deu Tilt, o especialista traduz para um público amplo os resultados de pesquisas científicas, dados do mercado, legislações e aplicações da IA, desfazendo preconceitos e mal-entendidos.

Hoje, cerca de um terço da população brasileira (32%) com acesso à internet faz uso de ferramentas de inteligência artificial, de acordo com o último levantamento feito pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade de Informação, divulgado no início do ano. Mas como as pessoas estão utilizando a IA e quais os efeitos desse uso sobre a nossa capacidade de raciocinar e criar? Como fica a autonomia na hora de escolher o que se deseja ver, ler ou ouvir? 

Segundo Cortiz, o dilema que temos pela frente é o de que, ao atribuir tarefas de raciocínio e criatividade para a IA, ganhamos tempo com uma resposta rápida, mas perdemos esforço cognitivo (atenção, raciocínio, memória), fundamental para a aprendizagem. “Hoje a gente começa a entender que a inteligência artificial está se colocando, assim como toda tecnologia, com uma mediadora entre nós e qualquer tipo de produção”, resume. 

Neste Encontros, Diogo Cortiz explica a anatomia da inteligência artificial e seus desafios no atual contexto.

Domínio da linguagem
A inteligência artificial é uma tecnologia diferente por conta de três principais características radicais, e a primeira delas é: dominar a linguagem. Isso muda tudo. A gente pode até discutir durante horas se a IA é inteligente ou não, criativa ou não, e chegar a conclusões diferentes. Mas há um consenso: ela domina a linguagem. Ela consegue responder o que eu pergunto e fazer as coisas que eu ordeno de maneira eficiente. Tudo isso por meio da linguagem, uma das funções cognitivas humanas mais importantes.

Camadas profundas
A segunda característica da IA é ser uma tecnologia de propósito geral. Uma tecnologia que cria uma camada de transformação, uma infraestrutura na sociedade, como a eletricidade e a internet. Com a IA, a gente está criando outra tecnologia de propósito geral. Porque ela entra e se espalha muito rapidamente por todos os setores da sociedade; ela tem a característica de melhoria contínua e constante, e às vezes rápida e acelerada; além de habilitar as próximas inovações.

Terceiro fator
A terceira característica radical é o fato de a IA criar o paradigma de uma “experiência agêntica” [ou IA Agêntica, que seria a terceira fase da IA], porque a gente está entrando em um mundo onde eu não estou só usando um chatbot. Eu estou criando uma inteligência artificial que começa a fazer coisas para mim, em meu nome. Com a inteligência artificial, a gente está rompendo muitos paradigmas que são econômicos, sociais, culturais, criativos e colocando outras coisas no lugar.  

Viés cultural
Essas ferramentas são treinadas, especialmente, com conteúdos dos Estados Unidos. Portanto, a representação cultural que prevalece dentro dessas inteligências artificiais são conteúdos desse outro país. A IA vai sempre forçar a mão em uma representação cultural ou estilo, em uma forma de escrita ou em um conceito produzido por escritores e outros pensadores dos Estados Unidos. A inteligência artificial conversa com a gente em português, mas ela é como aquele gringo que veio para o Brasil, fala português, mas pensa em inglês. E se vocês usarem essas ferramentas, vão ver que muitas vezes elas estão raciocinando em inglês para gerar respostas em português. 

Autonomia em risco
Acho que a IA pode mudar a sociedade em dois principais sentidos: no enfraquecimento cognitivo da percepção da experiência humana e na possibilidade de utilizá-la para um desenvolvimento. Hoje a gente começa a entender que a inteligência artificial está se colocando, assim como toda tecnologia, com uma mediadora entre nós e qualquer tipo de produção. Toda tecnologia muda a nossa percepção e comportamentos. Isso é fundamental para entender como a gente está criando a partir dessa relação. Qual caminho está seguindo e qual gostaria de seguir. Isso está ficando cada vez mais sensível e a sociedade não está conseguindo perceber que a autonomia humana está se degradando cada vez mais.  A gente começa a criar conteúdos com o uso de inteligência artificial que também pode levar à homogeneização de ideias, de estilos de escrita, estilo artístico, sonoro e audiovisual.

Colapso cognitivo
Daron Acemoglu [Nobel de Economia de 2024] é um pesquisador que fez o mapeamento de um colapso do conhecimento humano. Ele fala que existe o conhecimento individual e o conhecimento coletivo. Quando você precisa aprender algo, você desenvolve aquela competência e vai gerando e acumulando conhecimentos que são coletivos. Só que, quando se passa a ter uma inteligência artificial extremamente eficiente em dar respostas, a gente já não se envolve mais e não há mais um esforço cognitivo. Isso acaba não gerando conhecimento coletivo. Então, a própria IA, pelo fato de ser extremamente boa, pode limitar a continuidade de criação do conhecimento humano. Outra consequência é uma produção cada vez maior de conteúdos que são pasteurizados, alimentando outras inteligências artificiais. É como tirar uma fotocópia da fotocópia: você vai perdendo qualidade. Já existem alguns estudos que falam do colapso desse modelo também.

De olho no futuro, Diogo Cortiz ajuda a refletir sobre impacto da inteligência artificial na sociedade.

Mega infraestrutura
A inteligência artificial não roda na “nuvem”, ela roda num data center. Ela precisa de energia e utiliza um chip chamado GPU. Quando a gente fala desses clusters, desses data centers de IA, está falando de uma quantidade absurda de chips, sendo que uma GPU custa em torno de 30 a 40 mil dólares. Então, a gente está falando de uma infraestrutura gigantesca que demanda muitos recursos financeiros e físicos. Tem, ainda, toda uma questão sobre os data centers, onde precisam ser construídos, só que eles demandam uma quantidade de energia absurda e isso acaba se tornando um gargalo. Tudo isso acaba levando a um impacto ambiental e social para as comunidades onde se instalam os data centers. Consome-se muita água que, quando retorna à natureza, volta com uma série de substâncias que impactam a comunidade local. No Brasil, a gente está vivendo um momento de atração de data centers. Por uma questão de soberania, é importante ter o processamento de dados dentro do país, mas muitas vezes, as big techs instalam data centers no Brasil para prestar serviços para a Europa. Esse é um desafio que está começando a ganhar discussão política.

Legislação em debate 
O Marco Regulatório da Inteligência Artificial do Brasil ainda está em uma fase de incerteza e indefinições. Participei como especialista das audiências públicas do Projeto de Lei nº 2.338/2023, que foi aprovado no Senado, e que tramitou, no ano passado, na Câmara dos Deputados. O projeto tem algumas lacunas, muitas definições que não são razoáveis. Ela se inspira na Lei de Inteligência Artificial da União Europeia, mas não é uma cópia. É uma possível legislação em que, dependendo do tipo de aplicação, do caso de uso, vai considerar o tipo de risco. Por exemplo, para um sistema que dá um diagnóstico médico, os riscos são elevados. O ponto que está em maior debate é sobre direitos autorais. Enquanto as empresas de tecnologia não querem tratar desse tema, toda uma cadeia cultural e jornalística está forçando a necessidade de haver uma remuneração de conteúdos usados no treinamento de inteligência artificial. E esse é o principal ponto de conflito hoje.

Boas práticas
A gente tem um desafio enorme de restaurar a necessidade da importância do esforço cognitivo. A gente aprende quando passa por esse esforço que traz uma recompensa a longo prazo. A inteligência artificial, quando gera uma resposta, traz uma recompensa de curto prazo e efêmera. Ela resolve aquele problema, mas aquele problema não gerou o desenvolvimento de uma habilidade, uma competência, um conhecimento. Sou um defensor da IA, embora tenha todo esse olhar crítico da tecnologia, que é importante para melhorar o uso e discutir, obviamente, todo o impacto social e cultural que isso traz.  

O cientista cognitivo, professor da PUC-SP e colunista do portal UOL Diogo Cortiz esteve presente na reunião do Conselho Editorial da Revista E, no dia 30 de abril. A mediação do bate-papo foi de Adriano Alves Pinto, gerente adjunto na Gerência de Artes Visuais e Tecnologia do Sesc.

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