
Por Daniella Pires Nunes
As quedas são consideradas um importante problema de saúde para as pessoas idosas. Definidas como um deslocamento involuntário do indivíduo ao chão ou a um nível inferior (WHO, 2007), podem trazer consequências como restrição de atividades da vida diária, medo de cair novamente, fraturas e hospitalizações, levando ao aumento do risco para incapacidades e mortalidade (Salari et al., 2022; Xiong et al., 2024). No Brasil, os números chamam a atenção – 25,1% das pessoas idosas, ou seja, uma em cada quatro, relatam ter sofrido ao menos uma queda no último ano (Pimentel et al., 2018).
As quedas ocorrem por uma combinação de fatores que envolvem aspectos biológicos, ambientais, comportamentais e socioeconômicos (WHO, 2007). Entre os principais fatores citam-se alterações no equilíbrio e na força muscular, doenças crônicas, uso de múltiplos medicamentos, consumo de álcool, iluminação inadequadas ou pisos escorregadios (Colón-Emeric et al., 2024; Li et al., 2023; Xiong et al., 2024; Xu; Ou; Li, 2022).
Estudiosos têm apontado a influência de fatores sociais sobre o risco de quedas em pessoas idosas. Baixa escolaridade, morar sozinho e baixa conexão social são exemplos de condições que podem aumentar a vulnerabilidade dessa população (Bu et al., 2020; Hajek; König, 2017; Xu; Ou; Li, 2022). Entre esses fatores, a solidão e o isolamento social ganham destaque crescente na literatura científica, por sua alta prevalência e por seu impacto abrangente sobre a saúde e a funcionalidade no envelhecimento (Gao; Steptoe; Fancourt, 2025).
A solidão é uma experiência subjetiva indesejada que surge quando a conexão social que uma pessoa almeja não corresponde ao que vivencia (WHO, 2025). Já o isolamento social é a ausência real de papéis, relacionamentos ou interações regulares com outras pessoas, caracterizada por uma rede social reduzida, participação infrequente em grupos e escassez de contatos sociais (WHO, 2025).
Embora diferentes, essas duas condições frequentemente se relacionam e podem afetar diretamente a saúde física e mental. Um estudo brasileiro com pessoas idosas revelou que 46,3% relatam sentir solidão e 19,4% vivenciam isolamento social (Sandy Jr. et al., 2025). Esses números destacam que quase metade das pessoas idosas se sente só, e uma em cada cinco está objetivamente. Neste cenário, o isolamento social pode aumentar o risco de quedas por diferentes caminhos.
Do ponto de vista biológico, a experiência persistente de isolamento ativa o sistema de resposta ao estresse do organismo, elevando os níveis de cortisol e de substâncias inflamatórias no sangue. Com o tempo, esse estado inflamatório crônico favorece a perda de massa muscular, fadiga e piora do equilíbrio, que se associam diretamente ao risco de quedas (Xiong et al., 2024).
No aspecto psicológico, pessoas idosas socialmente isoladas tendem a sair menos de casa, praticar menos atividades físicas e apresentar maior risco de depressão, ansiedade e piora da mobilidade, fatores que aumentam o risco de quedas (Bu et al., 2020; Salari et al., 2022). O isolamento também pode afetar a cognição, especialmente funções relacionadas à atenção, planejamento e capacidade de reação diante de obstáculos ou situações de risco. Isso compromete a percepção do ambiente e aumenta a possibilidade de quedas (Salari et al., 2022).
Do ponto de vista social, manter vínculos sociais e contato frequente com familiares, amigos e comunidades exerce um importante efeito protetor. A convivência favorece a identificação de riscos dentro de casa, estimula a adesão aos tratamentos de saúde, incentiva a prática de atividades físicas e amplia a participação social.
Diante desse cenário, estratégias de prevenção de quedas precisam ser integradas, contemplando as dimensões biológica, ambiental e social da pessoa idosa (Petersen; König; Hajek, 2020). As adaptações físicas do ambiente doméstico e o cuidado contínuo das condições de saúde continuam sendo essenciais: instalação de barras de apoio, uso de tapetes antiderrapantes, fortalecimento muscular por meio de exercícios físicos, uso adequado dos medicamentos.
Somadas a essas estratégias, recomenda-se o fortalecimento dos vínculos sociais (Gao; Steptoe; Fancourt, 2025). Grupos de convivência, atividades físicas, ações intergeracionais e suporte comunitário ajudam a reduzir a solidão, fortalecer vínculos sociais e preservar mobilidade, funcionalidade e saúde mental (Paquet et al., 2023) e, consequentemente, preveni as quedas.
Nesse sentido, Programas como o Trabalho Social com Pessoas Idosas do SESC promovem atividades físicas, culturais, educativas e de convivência que fortalecem vínculos sociais, estimulam a participação comunitária e favorecem o envelhecimento ativo.
Assim, promover convivência e participação social é uma importante estratégia de cuidado com a saúde das pessoas idosas. Além de favorecer o bem-estar emocional, o fortalecimento dos vínculos sociais contribui para a manutenção da autonomia, da independência, da mobilidade e da prevenção de quedas, reforçando a importância de ações comunitárias e intergeracionais para um envelhecimento mais saudável e ativo.
BU, Feifei et al. A longitudinal analysis of loneliness, social isolation and falls amongst older people in England. Sci Rep, v.10, n.20064, 2020. Doi: https://doi.org/10.1038/s41598-020-77104-z
COLÓN-EMERIC, Cathleen S. et al. Risk assessment and prevention of falls in older community-dwelling adults: a review. Jama, v.331, n.16, p. 1397-1406, 2024. Doi: 10.1001/jama.2024.1416
GAO, Qian; STEPTOE, Andrew; FANCOURT, Daisy. Chronic loneliness and isolation phenotypes, incident functional impairment and mortality in England between 2004 and 2018. Nat. Mental Health, v.3, p.667–674, 2025. https://doi.org/10.1038/s44220-025-00436-0
HAJEK, André; KÖNIG, Hans-Helmut. The association of falls with loneliness and social exclusion: evidence from the DEAS German Ageing Survey. BMC Geriatr., v.17, n.1, p.204, 2017. Doi: 10.1186/s12877-017-0602-5.
JACCOUD, Luciana. Idosos em situação de isolamento social: uma abordagem macrossetorial. Brasília, DF: Ipea, 2024. DOI: http://dx.doi.org/10.38116/td3020-port
LI, Ying et al. Risk factors for falls among community-dwelling older adults: A systematic review and meta-analysis. Frontiers in medicine, v.9, p.1019094, 2023. Doi: https://doi.org/10.3389/fmed.2022.1019094
PAQUET, C. et al. Social prescription interventions addressing social isolation and loneliness in older adults: meta-review integrating on-the-ground resources. Journal of Medical Internet Research, v. 25, p. 1-34, 2023.
PETERSEN, Nicola; KÖNIG; Hans-Helmut; HAJEK, André. The link between falls, social isolation and loneliness: A systematic review. Archives of Gerontology and Geriatrics, v.88, p. 104020, 2020. Doi: https://doi.org/10.1016/j.archger.2020.104020
PIMENTEL, Wendel Rodrigo Teixeira et al. Falls among Brazilian older adults living in urban areas: ELSI-Brazil. Rev Saúde Pública, v.52, n.12s, 2018. Doi: https://doi.org/10.11606/S1518-8787.2018052000635
SALARI, Nader et al. Global prevalence of falls in the older adults: a comprehensive systematic review and meta-analysis. J Orthop Surg Res, v.17, n.334, 2022. Doi: https://doi.org/10.1186/s13018-022-03222-1
SANDY Jr., Paulo Afonso et al. Combined experiences of loneliness and social isolation and their associations with sociodemographic, health, and psychosocial variables: ELSI-Brazil. Aging & Mental Health, v.29, n.7, p.1179–1188, 2025. Doi: https://doi.org/10.1080/13607863.2025.2452940
XIONG, Wanhong et al.The global prevalence of and risk factors for fear of falling among older adults: a systematic review and meta-analysis. BMC Geriatr, v.24, n.321, 2024. Doi: https://doi.org/10.1186/s12877-024-04882-w
XU, Qingmei; OU, Xuemei; LI, Jinfeng. The risk of falls among the aging population: A systematic review and meta-analysis. Front. Public Health v.10, p.902599, 2022. doi: 10.3389/fpubh.2022.902599
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WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). WHO global report on falls prevention in older age: World Health Organization, 2007.
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