Se for para cair, que seja no abraço de alguém 

01/06/2026

Compartilhe:

Diego Felix Miguel*

Possivelmente, um dos maiores medos que sentimos ao pensar na própria velhice está relacionado à perda da autonomia para fazer escolhas e da independência para realizar as atividades do dia a dia sozinho. Há também o receio da solidão e da ausência de vínculos afetivos para compartilhar o cotidiano ou contar com apoio em momentos delicados. 

Sabemos que, ao longo da vida, nossos hábitos, a exposição a situações de risco e o agravamento de doenças crônicas são preditores de uma velhice com limitações. Por esse motivo, programas voltados à promoção da saúde e à prevenção são fundamentais para minimizar riscos e favorecer um envelhecimento ativo e saudável. 

O dia 24 de junho, data em que se realiza mundialmente a Campanha de Prevenção de Quedas em Pessoas Idosas, é uma oportunidade para refletirmos que este tema vai muito além dos aspectos biomédicos. Ele perpassa questões sociais e culturais, bem como as oportunidades e iniquidades que acumulamos ao longo da vida, e que se acentuam de forma mais grave na velhice. 

Ao falar sobre prevenção, muito além de orientar sobre adaptações ambientais — como o cuidado com tapetes, calçados, barras de proteção, pisos apropriados e um espaço urbano que garanta a mobilidade segura para todas as pessoas, aspectos que reforço que são fundamentais —, precisamos falar sobre a importância de fatores sociais e culturais que frequentemente ficam em segundo plano nessa pauta. 

Garantir um acesso seguro para que as pessoas idosas mantenham suas rotinas fora de casa, tanto para o cuidado e acompanhamento de saúde, quanto para as atividades de lazer, é fundamental. Porém, além da logística, precisamos discutir políticas públicas e acesso à informação. Pensar em promoção de saúde é ir além do binômio saúde/doença; é considerar o bem-estar físico, mental e social — uma intersecção indispensável para a prevenção de quedas. 

De acordo com o Estatuto da Pessoa Idosa, é direito o acesso a serviços voltados à prática de esportes, lazer, arte e cultura, bem como a espaços que promovam a socialização e o reforço dos vínculos afetivos.  

Os centros de convivência, esportivos e culturais são estratégias valiosas para isso. Por meio de atividades educacionais não-formais (oficinas, cursos e workshops), eles garantem oportunidades de autoconhecimento — psíquico, social e do corpo em movimento —, autocuidado, trocas significativas e a descoberta de novos projetos pessoais. 

Mas o que tudo isso tem a ver com prevenção de quedas? 

A consciência corporal que alcançamos com práticas expressivas, como a dança e o teatro, além das atividades esportivas, traz a possibilidade de reconhecer o corpo que envelhece.  

Permite entender quais movimentos são possíveis e como adaptá-los a essa nova realidade, trabalhando postura, equilíbrio e a percepção do corpo no espaço.  

A minuciosidade do olhar e a atenção qualificada, provocadas pelo fazer artístico, são transpostas para a vida cotidiana, tornando-se grandes aliadas contra acidentes. 

Além disso, o sentimento de pertencer a um grupo contribui diretamente para acolher e mitigar o medo daquelas pessoas idosas que já sofreram uma queda e se sentem inseguras para retomar suas rotinas, devido aos traumas emocionais gerados pelo evento ou pela recuperação. 

Quando falamos de prevenção de quedas, precisamos ultrapassar os muros dos serviços de saúde e compreender que essa é uma responsabilidade coletiva. Afinal, somos todos agentes promotores de uma longevidade digna, acessível e segura para todas as pessoas, e, sem dúvidas, queremos envelhecer usufruindo do nosso direito à autonomia e independência. 

*Diego Félix Miguel é doutorando em Saúde Pública (USP), Mestre em Filosofia (USP), Especialista em Gerontologia (SBGG), Presidente do Depto. de Gerontologia da SBGG-SP (2024-2026) e Gerente do Convita – Patronato Assistencial Imigrantes Italianos.

Utilizamos cookies essenciais para personalizar e aprimorar sua experiência neste site. Ao continuar navegando você concorda com estas condições, detalhadas na nossa Política de Cookies de acordo com a nossa Política de Privacidade.