As tecnologias e ciências indígenas das mulheres indígenas do Rio Negro

22/07/2026

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Nós, mulheres, somos as guardiãs de uma ciência milenar, materializada na rica diversidade cultural que permanece viva em cada povo.

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Por Braulina Baniwa

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Sou de um território demarcado no Alto Rio Negro, lar de 23 povos indígenas que detêm técnicas e ciências vivas. Esses saberes fazem-se presentes pelas mãos das mulheres indígenas, em perfeito diálogo com o nosso sistema alimentar ao longo das margens do rio e de seus afluentes. Ali, a diversidade se manifesta no modo como elas mantêm e transmitem seus conhecimentos entre as gerações, salvaguardando a ciência milenar no processo de cuidado.

Essa potência que nasce na terra se reflete na construção social e política das mulheres indígenas nos espaços de tomada de decisão.

Fortalecidas em nossos territórios, trazemos o marco da Primeira Marcha das Mulheres Indígenas, realizada em 2019, como o despertar definitivo do orgulho de ser quem nós somos.

No entanto, as nossas ciências e técnicas ainda são pouco visibilizadas. Para provocar esse diálogo, trago o exemplo das mulheres do Rio Negro, referências e pioneiras no processo de organização política no Brasil. Foram elas que criaram a primeira associação indígena coordenada exclusivamente por mulheres e que, ainda hoje, sediada em Manaus, segue trabalhando firmemente na formação e no ensino das crianças e, assim, mantém vivas as nossas tecnologias.

São as mulheres indígenas do Rio Negro as verdadeiras mestras e cientistas no manejo das mandiocas, como bem constataram os pesquisadores que trabalharam no registro do Sistema Agrícola Tradicional do Rio Negro. A mandioca é a nossa base alimentar e cultural – cultivamos de 100 a 200 variedades, classificadas botânica e socialmente em dois grandes grupos: a mandioca-mansa, sem veneno, e a mandioca-brava, que exige processos complexos e tecnológicos para a retirada do ácido cianídrico.

Nós, mulheres, somos as guardiãs de uma ciência milenar, materializada na rica diversidade cultural que permanece viva em cada povo.

Por isso, ao receber o convite para escrever sobre ciência e biodiversidade, questionei-me sobre como honrar meus parentes espalhados pelo Brasil. Afinal, não posso falar apenas de um único território ou de uma única ciência, é preciso também mostrar que somos plurais e contemporâneos. Estamos presentes tanto nos nossos territórios quanto nas universidades, desafiando-nos a construir narrativas a partir das nossas vivências para um mundo que ainda nos desconhece. Ao mesmo tempo, cumpre afirmar que os nossos primeiros cientistas são os mais velhos e as mais velhas de nossas comunidades.

Nossa continuidade enquanto povos indígenas e a preservação da nossa existência são frutos de séculos de um trabalho silencioso. Esse caminho foi pavimentado pelos ensinamentos dos nossos avós, cujas rezas, cantos e enraizamento identitário permanecem vivos, a despeito de todas as violações. Embora a herança indígena seja o fundamento da identidade nacional brasileira, ela permanece sem o devido reconhecimento. Durante anos, as páginas de literatura e os livros escolares alimentaram o desconhecimento da sociedade, que frequentemente ignorava a nossa existência contemporânea tratando-nos, na narrativa histórica oficial, apenas como figuras do passado, “antigos” ou em vias de extinção.

Contrariando esse apagamento, evoco a memória e a oralidade dos meus antepassados para reafirmar a presença dos povos indígenas na sociedade brasileira. Nossa marca está nas línguas, na medicina, no cultivo da mandioca, na culinária que alimenta diariamente as famílias pelo país. Além disso, mais recentemente, com o surgimento de expressões como “economia verde” e “economia da floresta” nos debates sobre desenvolvimento sustentável, técnicas indígenas de plantio, manejo e cuidado passaram a ser reconhecidas como eficazes não só no combate ao desmatamento, mas também na proteção de ecossistemas e na salvaguarda de uma biodiversidade cujo valor é inestimável. Se para os não indígenas esses conhecimentos “servem” aos seus interesses mercadológicos, para nós, no entanto, sempre foram ciência, vida e território.

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Braulina Baniwa é Cientista indígena, Antropóloga do povo Baniwa, originária do Rio Içana, na Terra Indígena Alto Rio Negro (Amazonas). Doutoranda em Antropologia Social pela Universidade de Brasília (UnB), é organizadora e autora da publicação Bioeconomia Feminina Indígena: Vozes da Geração. Ativista pelos direitos ambientais, territoriais e indígenas, atua como pesquisadora de sociobioeconomia, Ciência e Tecnologias na Amazônia. É cofundadora da Articulação Brasileira de Indígenas Antropóloges (ABIA) e articuladora política no projeto Justiça de Transição para Povos Indígenas (APIB/IPR/OBIND-UnB). 


Por meio de apresentações, bate-papos, exibições e oficinas, a programação destaca as tecnologias desenvolvidas e utilizadas pelos povos indígenas no Brasil para fortalecer suas culturas e conservar seus territórios. Saiba mais sobre o Agosto Indígena clicando aqui.

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