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“Para os povos indígenas, porém, o significado de tecnologia é muito mais amplo.“
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– Por Almir Narayamoga Suruí
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Quando falamos em tecnologia, muitas pessoas pensam imediatamente em computadores, satélites, celulares ou inteligência artificial. Para os povos indígenas, porém, o significado de tecnologia é muito mais amplo.
Tecnologia também é o conjunto de conhecimentos, práticas e soluções desenvolvidas ao longo de gerações para viver em equilíbrio com a natureza, proteger o território, produzir alimentos, cuidar da saúde e transmitir saberes.
Muito antes da chegada das tecnologias digitais, nossos ancestrais já haviam criado sofisticados sistemas de conhecimento para compreender a floresta, identificar plantas medicinais, manejar recursos naturais, construir moradias adaptadas ao ambiente, prever mudanças climáticas e orientar a vida coletiva. Essas tecnologias ancestrais continuam vivas e são fundamentais para a sobrevivência física, cultural e espiritual dos povos indígenas.
No povo Paiter Suruí, acreditamos que tradição e inovação podem caminhar juntas. Nunca vimos a tecnologia moderna como uma ameaça à nossa cultura. Pelo contrário, entendemos que ela pode ser uma importante aliada quando utilizada com responsabilidade, ética e respeito à natureza.
Foi com essa visão que, a partir de 2007, iniciamos uma experiência pioneira de utilização de novas tecnologias para fortalecer a proteção da Terra Indígena Sete de Setembro, localizada entre os estados de Rondônia e Mato Grosso. Começamos a utilizar GPS, computadores, celulares, imagens de satélite e plataformas digitais para monitorar nosso território e enfrentar ameaças como invasões, desmatamento ilegal e exploração predatória dos recursos naturais.
Ao longo dessa trajetória, estabelecemos importantes parcerias com instituições nacionais e internacionais, incluindo o Google, que contribuíram para ampliar nossa capacidade de utilizar ferramentas tecnológicas em benefício da gestão territorial indígena. Essas experiências permitiram que jovens indígenas fossem capacitados para produzir mapas, registrar informações ambientais e acompanhar transformações ocorridas dentro do território.
A combinação entre o conhecimento tradicional e as tecnologias digitais fortaleceu nossa capacidade de tomar decisões, planejar ações de conservação e proteger áreas importantes para a biodiversidade.
Ao mesmo tempo, mostrou ao mundo que os povos indígenas não são apenas guardiões da floresta, mas também protagonistas de soluções inovadoras para os desafios ambientais contemporâneos.
O mais importante nessa experiência é compreender que a tecnologia, por si só, não resolve os problemas. O que faz a diferença é a forma como ela é utilizada. Para nós, as ferramentas digitais não substituem os conhecimentos ancestrais transmitidos pelos anciãos. Elas funcionam como instrumentos complementares que ampliam nossa capacidade de proteger aquilo que sempre foi essencial: a floresta, a cultura e a vida.
Quando utilizamos um GPS para registrar uma área ameaçada, estamos fortalecendo a mesma missão que nossos antepassados desempenharam ao proteger o território com seu conhecimento da floresta. Quando utilizamos imagens de satélite para monitorar desmatamentos, estamos dando continuidade ao compromisso ancestral de cuidar da terra para as futuras gerações.
As mudanças climáticas, a perda de biodiversidade e a crescente pressão sobre os territórios indígenas demonstram que o mundo precisa aprender a construir novas formas de relacionamento com a natureza. Nesse contexto, os conhecimentos indígenas oferecem contribuições fundamentais. Eles representam tecnologias desenvolvidas ao longo de milhares de anos de observação, convivência e respeito pelos ciclos naturais.
O futuro da Amazônia depende da capacidade de unir diferentes formas de conhecimento.
A ciência, a tecnologia e os saberes tradicionais não precisam competir entre si. Pelo contrário, podem se complementar e criar soluções mais eficazes para enfrentar os desafios do nosso tempo.
A experiência do povo Paiter Suruí demonstra que as tecnologias indígenas do século XXI nascem justamente desse encontro entre memória e inovação. São tecnologias que valorizam a floresta em pé, fortalecem a autonomia dos povos indígenas e ajudam a construir caminhos mais sustentáveis para toda a sociedade.
Proteger a floresta é proteger a biodiversidade, os conhecimentos ancestrais, a cultura e o futuro das próximas gerações. É por isso que continuamos acreditando que a união entre sabedoria tradicional e inovação tecnológica pode contribuir não apenas para os povos indígenas, mas para toda a humanidade.
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Almir Narayamoga Suruí é um líder indígena do povo Paiter Suruí, nascido em Rondônia em 1974. Ficou conhecido internacionalmente por seu trabalho em defesa da Amazônia e dos direitos indígenas, combinando tradição e tecnologia. Ele liderou projetos inovadores de preservação ambiental, como o uso de ferramentas digitais (Google Earth e GPS) para monitorar o desmatamento em seu território. Também participou da criação de iniciativas de crédito de carbono que geram renda sustentável para sua comunidade. Almir ganhou diversos prêmios e reconhecimento global por sua atuação como defensor do meio ambiente e por promover o uso da tecnologia na proteção da floresta e da cultura indígena.

Por meio de apresentações, bate-papos, exibições e oficinas, a programação destaca as tecnologias desenvolvidas e utilizadas pelos povos indígenas no Brasil para fortalecer suas culturas e conservar seus territórios. Saiba mais sobre o Agosto Indígena clicando aqui.
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