Vozes da Mata: juventude, território e educomunicação em Bertioga

31/07/2026

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Quando os jovens aprendem a escutar o território, a floresta deixa de ser apenas paisagem: ganha voz, memória e manchete. É desse encontro entre curiosidade, câmera e pertencimento que nasce, em 2026, uma nova edição de Vozes da Mata, telejornal produzido por jovens de diferentes bairros de Bertioga no projeto A Floresta é Nossa: Jovens Comunicadores, realizado pelo Sesc Bertioga no âmbito da Reserva Natural Sesc Bertioga.

Desde , o projeto A Floresta é Nossa reúne jovens de Bertioga em processos que aproximam educação ambiental e comunicação. Ao longo dessa trajetória, a iniciativa assumiu diferentes formatos, do curta-metragem ao telejornal, e deu continuidade a experiências anteriores do Sesc Bertioga com rádio e podcast. Nas duas edições mais recentes, em 2025 e 2026, o percurso formativo passou a contar com a parceria do Instituto Devir Educom, por meio de seu projeto ECO-SER, que articula educomunicação socioambiental, jornalismo cidadão, educação midiática e memória.

A iniciativa aproxima educação ambiental e produção de mídia para que os participantes investiguem os lugares onde vivem, formulem perguntas e contem suas próprias histórias. Em vez de apenas receber informações, eles assumem os papéis de repórteres, entrevistadores, roteiristas e produtores. É a educomunicação em prática: a comunicação não aparece somente como ferramenta de divulgação, mas como um processo educativo, participativo e democrático, capaz de ampliar a expressão, a escuta e a presença dos jovens na vida de suas comunidades.

Trabalhar temáticas socioambientais com as juventudes é especialmente importante porque a crise climática, as pressões do desenvolvimento, a preservação da natureza, os resíduos, as desigualdades e os modos de viver não são assuntos distantes. Eles aparecem na rua, na praia, na mata, nos rios, no consumo e nas relações que cada pessoa estabelece com o lugar onde mora. Quando os jovens leem esses sinais a partir do próprio cotidiano, o conhecimento deixa de ser abstrato. Ao produzir mídia, exercitam pensamento crítico, colaboração, responsabilidade com a informação e o direito de participar das narrativas sobre o presente e o futuro do território.

Segundo Xing, o projeto propõe “um processo formativo no campo da educomunicação direcionado a jovens de diversos bairros de Bertioga, articulando produção de conteúdos e reflexões sobre o indivíduo e seus contextos socioambiental e histórico-cultural. Nesta edição, formatamos os registros num telejornal, com as notícias como reflexo das interpretações que os jovens têm sobre o território”, explica.

Carlos Guimarães, educomunicador do Instituto Devir Educom, observa: “Na etapa de formação, anterior à produção da reportagem, os jovens se envolveram de forma muito receptiva e ativa, trazendo contribuições originadas de suas próprias perspectivas e realidades que vivenciam em Bertioga. Num processo de estudo e diálogo, ficou evidente a transformação no modo de olhar para a natureza e a humanidade como parte dela.”

Essas interpretações atravessam as reportagens anunciadas no teaser. O telejornal pergunta por que a humanidade ainda não se enxerga como parte da natureza; ouve povos originários sobre a reconexão com a terra e a ancestralidade; investiga como desenvolvimento e preservação podem coabitar em harmonia; percorre lugares de Bertioga que fortalecem o senso de pertencimento; encontra nas lendas o imaginário popular e a preservação da identidade cultural; e se aproxima dos modos de vida de comunidades tradicionais para lembrar que o futuro também pode ser ancestral.

Andressa Luzirão, educomunicadora do Instituto Devir Educom, destaca: “Esta 2ª edição do telejornal Vozes da Mata faz uma alusão ao jornalismo investigativo, ativo e narrativo, exibindo os bastidores da apuração da notícia e o protagonismo dos jovens em campo. Essa escolha coletiva da linguagem reflete o próprio processo formativo do projeto A Floresta é Nossa, que teve um bonito engajamento dos jovens. Provocados pela obra do líder indígena Ailton Krenak, estudada nos encontros, eles apresentam suas memórias afetivas, sua identidade cultural, suas inquietações, indignações, denúncias e anúncios como ato político para (re)existirmos.”

Mais do que um produto audiovisual, Vozes da Mata registra um processo. Ao longo dos encontros formativos, identidade, escola, família, memória e território entram na mesma roda. Os participantes refletem sobre a função social do jornalismo, os efeitos da desinformação e os desafios da crise climática; aprendem a diferenciar notícia, opinião, publicidade e outros conteúdos; e exercitam a entrevista como uma prática de escuta. A câmera, nesse percurso, não serve apenas para registrar. Ela convida a observar de novo.

No “brincar de ser jornalista”, cada jovem amplia seu repertório e percebe que comunicar também é assumir uma responsabilidade. A produção coletiva fortalece vínculos, autoestima, criatividade e senso de pertencimento, especialmente quando as experiências, referências culturais e bairros dos participantes são reconhecidos como fontes legítimas de conhecimento. A educomunicação faz, assim, uma mudança essencial: transforma o jovem de público em autor – alguém capaz de pesquisar, perguntar, selecionar informações e participar da construção do que será contado.

Luana Magalhães, educomunicadora do Instituto Devir Educom, reforça: “O resultado do produto midiático é inspirador, mas o mais legal é o processo de construção com os jovens ao longo do projeto. Eles realmente são os protagonistas desta jornada e brincam ‘sério’ de fazer jornalismo. Eles participaram de tudo e mergulharam na proposta. Reuniram as pautas para o telejornal, organizaram, entrevistaram, filmaram, fotografaram, montaram microfones temáticos com o tema desta edição e até pintaram aquarela para as cenas do jornal. Essa edição mostra, mais uma vez, como há potência na juventude e que devemos escutá-la e trabalhar junto para realmente transformar o mundo.”

Em uma cidade onde mata, manguezal, mar, áreas urbanas e comunidades tradicionais se encontram, narrar o território é também aprender a cuidar dele. Vozes da Mata não oferece uma única resposta para os desafios socioambientais. Faz algo talvez mais potente: abre espaço para que a juventude formule suas próprias perguntas, escute quem veio antes e imagine outros futuros. Porque, quando novas vozes entram no ar, a notícia não termina na tela – ela volta para a rua, para a comunidade e para a floresta que é de todos nós.

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