O Mundo Através da IA

02/08/2026

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A partir de 6/8, quinta feira, exposição internacional no Sesc 24 de Maio revela a infraestrutura invisível da IA e seus impactos no mundo 

O Mundo Através da IA (Le Monde selon l’IA) abre em agosto, simultaneamente em São Paulo e Frankfurt, com sete cápsulas do tempo produzidas em caráter exclusivo para a versão paulistana, traçando uma leitura crítica da história brasileira da inteligência artificial; 

Em 1955, o matemático John McCarthy cunhou o termo “inteligência artificial”. Desde então, e especialmente a partir do final dos anos 2000, esses sistemas passaram a permear a economia, a cultura, a política, os meios de produção e as operações militares em escala global. A exposição O Mundo Através da IA, que abre no Sesc 24 de Maio em 6 de agosto deste ano, propõe uma leitura histórica e crítica desse processo. A pergunta que a organiza é o que a inteligência artificial carrega e o que ela prefere ocultar.

Com curadoria do pesquisador Antonio Somaini, professor da Sorbonne e de Harvard, a mostra reúne cerca de 70 obras de 29 artistas de 15 países, organizadas em oito seções temáticas. Concebida e organizada pelo centro de arte Jeu de Paume, de Paris, a exposição abre simultaneamente no Sesc 24 de Maio e em Frankfurt – e cada uma das duas versões inclui um conjunto de cápsulas do tempo produzidas a partir de realidades locais. As sete cápsulas paulistanas são exclusivas desta edição. A versão no Sesc 24 de Maio fica em cartaz até 29 de novembro, com entrada gratuita.

Vídeos na exposição mostram o uso da IA em táticas de guerra. Foto: Natt Fejfar
Vídeos na exposição mostram o uso da IA em táticas de guerra. Foto: Natt Fejfar

Entre os 29 artistas, há nomes do Brasil, da Alemanha, da Argentina, da Arábia Saudita, do Senegal, do Reino Unido, da França e de outros países. Os artistas brasileiros ocupam lugar central na mostra, com obras que ampliam e aprofundam os eixos curatoriais a partir de perspectivas específicas da produção e do pensamento local.

A exposição aborda as infraestruturas físicas e humanas que sustentam os sistemas de inteligência artificial, o impacto ambiental de uma tecnologia frequentemente percebida como imaterial e as heranças coloniais que os algoritmos de reconhecimento visual carregam. Ao conectar passado e presente, a mostra evidencia como essas tecnologias emergem de dinâmicas históricas de poder que a velocidade do debate público sobre IA frequentemente ignora.

A peça de maior escala da exposição é Calculando Impérios: uma Genealogia da Tecnologia e do Poder desde 1500, de Kate Crawford e Vladan Joler. A instalação ocupa 12 metros e mapeia as conexões entre tecnologia e formas históricas de dominação e extração de recursos, evidenciando como essa lógica se atualiza na era digital.

“Calculando Impérios: uma Genealogia da Tecnologia e do Poder desde 1500”, de Kate Crawford e Vladan Joler.  
Foto: Natt Fejfar
“Calculando Impérios: uma Genealogia da Tecnologia e do Poder desde 1500”, de Kate Crawford e Vladan Joler. Foto: Natt Fejfar

Um dos eixos mais potentes da exposição é o mundo do trabalho. Por trás da promessa de automação, há formas de trabalho invisibilizadas – como a de quem passa horas rotulando imagens para que algoritmos aprendam a enxergar, ou a de quem modera conteúdo para plataformas que não reconhecem esses trabalhadores como parte de seu organograma. O filme imersivo Acapulco (2022-2024), de Bruno Moreschi e Pedro Gallego, investiga justamente esses bastidores. O trabalho dialoga com a história do Amazon Mechanical Turk, nome que remete a um autômato do século XVIII que fingia jogar xadrez de forma autônoma, mas tinha um humano escondido por baixo. A plataforma da Amazon batizou com esse nome os trabalhadores que executam, por remunerações irrisórias, as tarefas repetitivas que ensinam as máquinas a enxergar.

Giselle Beiguelman está presente com duas obras. Beleza Corrosiva (2025) traduz em imagens o impacto ambiental das tecnologias digitais: rios tomados por equipamentos obsoletos, paisagens em que natureza e descarte se confundem, num futuro possível que a aceleração tecnológica já começa a desenhar. Botannica Tirannica (2022) examina os sistemas de classificação da botânica clássica e como práticas científicas historicamente legitimadas carregam marcas de dominação que se replicam na lógica dos algoritmos atuais.

Mayara Ferrão traz Álbum de Desesquecimentos (2024, em curso), obra que parte da ausência de registros visuais sobre as experiências íntimas de mulheres negras e originárias no período colonial para propor uma reconstrução simbólica mediada por inteligência artificial. Cesar & Lois apresentam Culturas Degenerativas: Impacto Ambiental da Inteligência Artificial, instalação em que microorganismos se alimentam de livros sobre o desejo humano de controlar a natureza, enquanto seus comportamentos são incorporados a sistemas de IA em processo contínuo de transformação e corrosão.

Sete cápsulas do tempo exclusivas para São Paulo

A versão paulistana da exposição inclui sete cápsulas do tempo, vitrines espalhadas pelo percurso que se articulam com os núcleos temáticos das obras. Produzidas exclusivamente para esta edição por uma equipe curatorial brasileira convidada em diálogo com Somaini, elas traçam uma leitura da história da inteligência artificial no Brasil que recusa qualquer linearidade celebratória.

Uma das cápsulas, coordenada pela própria Giselle Beiguelman, reúne estudos eugenistas do século XIX e início do XX: materiais sobre fisiognomia e antropologia criminal do médico Raimundo Nina Rodrigues, fotografias dos cangaceiros decapitados expostos em praça pública no sertão de Alagoas e o Boletim de Eugenia de 1929. O fio que conecta esses documentos às obras da exposição é a pergunta sobre como sistemas históricos de classificação de corpos se replicam nos algoritmos contemporâneos de reconhecimento visual.

Outras cápsulas percorrem a história pioneira da arte computacional no Brasil, com obras de Waldemar Cordeiro, referências ao movimento Poema/Processo e à produção experimental dos anos 1980. O filósofo tcheco-brasileiro Vilém Flusser, que viveu décadas no país e foi interlocutor direto de artistas e pensadores locais, aparece representado por documentos de seu arquivo. Há ainda espaço para a taxonomia botânica colonial, para o pixo paulistano como sistema de código visual e para Hercule Florence, inventor franco-brasileiro que nomeou e descreveu o processo fotográfico – antes mesmo que a técnica ganhasse esse nome na Europa, em 1839 – a partir de experimentos realizados no interior do estado de São Paulo.

A exposição passou por Campinas entre novembro de 2025 e abril de 2026 em configuração semelhante a desta edição paulistana.

Artistas presentes na exposição 

Agnieszka Kurant (Polônia), Andrea Khôra (França), Bruno Moreschi (Brasil), Cesar & Lois (Brasil/Canadá), Emmanuel Van der Auwera (Bélgica), Érik Bullot (França), Estampa (Argentina), Giselle Beiguelman (Brasil), Grégory Chatonsky (França), Gwenola Wagon (França), Hito Steyerl (Alemanha), Holly Herndon & Mat Dryhurst (EUA/Reino Unido), Inès Sieulle (França), Joan Fontcuberta (Espanha), Julian Charrière (Suíça/Alemanha), Julien Prévieux (França), Kate Crawford (Austrália), Linda Dounia Rebeiz (Senegal), Marcela Magno (Argentina), Mayara Ferrão (Brasil), Meta Office – Lauritz Bohne, Lea Scherer, Edward Zammit (Malta/Alemanha), Nora Al-Badri (Iraque/Alemanha), Nouf Aljowaysir (Arábia Saudita), Pedro Gallego (Brasil), Sasha Stiles (EUA), Trevor Paglen (EUA), Vladan Joler (Sérvia). 

Serviço 

Exposição: O Mundo Através da IA (Le Monde selon l’IA) 

Curadoria: Antonio Somaini 

Organização: Jeu de Paume, Paris 

Período: 6 de agosto a 29 de novembro de 2026 

Horário: Terça a sábado, das 9h às 21h; domingos e feriados, das 9h às 18h 

Local: Sesc 24 de Maio – Rua 24 de Maio, 109, República, São Paulo (SP) 

Classificação: Livre | Entrada gratuita 

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