Acessibilidade: múltiplas maneiras de experimentar a programação do MIRADA
Festival amplia a oferta de recursos acessíveis e promove debate sobre Cultura DEF, criação e artes cênicas
Em 2026, a acessibilidade está presente em diferentes dimensões do MIRADA – Festival Ibero-Americano de Artes Cênicas. Além de garantir condições de circulação e permanência nos espaços, o festival amplia a oferta de recursos para a fruição dos espetáculos e promove ações de formação e debate sobre acessibilidade, deficiência e criação artística.
Todos os espaços do festival contam com rotas acessíveis por meio de rampas e/ou elevadores, além de espaços reservados para pessoas em cadeira de rodas, com visibilidade garantida, e assentos com dimensões ampliadas para acomodação segura e confortável de pessoas obesas.
Recursos para diferentes formas de fruição
Parte dos espetáculos apresentados no Teatro e Ginásio do Sesc Santos e no Teatro Guarany contará com recursos como interpretação em Libras, audiodescrição e vivência tátil.
Disponibilizada por meio de radioreceptores, a audiodescrição é destinada a pessoas cegas, com baixa visão e outros públicos que possam se beneficiar do recurso. Durante a apresentação, uma descrição poética dos elementos visuais do espetáculo contribui para a construção de imagens e sentidos a partir da experiência sonora. A vivência tátil complementa esse recurso e oferece um contato prévio com elementos do cenário, figurinos e objetos de cena disponibilizados pelas companhias.
Para pessoas surdas e pessoas com deficiência auditiva usuárias da Língua Brasileira de Sinais (Libras), alguns espetáculos contarão com intérpretes para realizar a tradução e interpretação em Libras.
Também estarão disponíveis abafadores de ruído para pessoas que necessitem de maior conforto acústico durante os espetáculos.
ROBOT: quando a acessibilidade também faz parte da criação
Um dos destaques da programação é ROBOT: Ecos neurodivergentes, do Tercer Abstracto, programa binacional de investigação e criação teatral entre Chile e Brasil. Dirigido por David Atencio, o espetáculo articula teatro, dança e ciências cognitivas e reúne em cena artistas neurodivergentes e com deficiência.
Claudia Vicuña, bailarina e coreógrafa neurodivergente; Héctor Medina, bailarino e performer com deficiência motora; e Sergio Mejía, ator com síndrome de Down, interpretam personagens que, durante uma mudança de casa, reorganizam o espaço cênico como um laboratório vivo. No espetáculo, a neurodiversidade não aparece apenas como tema, mas como um dos princípios estruturantes da criação. O teatro é entendido como espaço de investigação compartilhada entre diferentes modos de existir, perceber e agir no mundo.
A montagem é uma peça distendida, desenvolvida desde sua origem para acolher públicos neurodivergentes. A experiência inclui guia antecipatório, que apresenta previamente os estímulos do local e pode contribuir para reduzir a ansiedade; controle de estímulos sonoros e luminosos; e um espaço de regulação com recursos de apoio sensorial durante a performance.
Deficiência como experiência, criação e conhecimento
A presença de artistas com deficiência e neurodivergentes em ROBOT também se aproxima de um conceito que ganha espaço na programação do festival: a Cultura DEF.
Criada pelas próprias pessoas com deficiência, a expressão reconhece e valoriza experiências, saberes, linguagens, estéticas e formas de produção cultural que emergem dessas vivências. Mais do que um conceito, a Cultura DEF se apresenta como um movimento de afirmação da diversidade humana e do protagonismo das pessoas com deficiência nos espaços de criação, produção, conhecimento e fruição artística.
O tema estará presente no encontro Cultura DEF e artes cênicas: um intercâmbio de experiências e linguagens, que reúne Catharine Moreira, multiartista, tradutora e consultora surda; David Atencio, diretor de ROBOT e pesquisador teatral chileno; e Renato Di Renzo, arte-educador, diretor e fundador do Projeto TAMTAM, organização sediada em Santos que promove integração inclusiva e diversa por meio da arte e da convivência.
A proposta é ampliar a discussão sobre acessibilidade para além da adaptação de espaços e recursos, pensando-a como parte da experiência cultural em sua dimensão mais ampla: como direito, autonomia, participação, criação, produção de conhecimento e transformação social.
Espetáculos com recursos acessíveis
Parte dos espetáculos apresentados no Teatro do Sesc Santos, no Ginásio e no Teatro Guarany contará com interpretação em Libras, audiodescrição e vivência tátil. Também estarão disponíveis abafadores de ruído.
ME.DE.AS
A leitura contemporânea da tragédia grega de Eurípides trata de questões ligadas à maternidade e explora o caráter disruptivo de Medeia frente ao patriarcado.
ROBOT: Ecos neurodivergentes
Artistas neurodivergentes e com deficiência interpretam personagens que, durante uma mudança de casa, reorganizam o espaço cênico como um laboratório vivo.
Vovó Surrealista
Baseado no livro de Carlos Canhameiro, o espetáculo acompanha uma avó analfabeta, que enquanto finge ler livros aos netos, inventa histórias e personagens.
Sacha Wasi, una casa en la selva
Na peça que mescla títeres corporais e dança, uma menina e sua avó percorrem paisagens distantes, em histórias da comunidade indígena Kichwa, no Equador.
Mi Madre y El Dinero
Partindo da história de sua mãe e de sua relação com o trabalho e o dinheiro, o dramaturgo Anacarsis Ramos articula sua história familiar ao contexto histórico e econômico do México.
(Um) Ensaio sobre a cegueira
O grupo encena o romance de José Saramago sobre uma epidemia de cegueira que assola uma cidade, colocando à prova a ética diante do colapso social.
Centroamérica
Durante uma viagem à América Central, artistas conhecem uma mulher que lhes faz um pedido inesperado, dando novo rumo ao projeto do espetáculo.
Papakuna – Agroteatro cómico musical
Num ambiente rural, histórias sobre a diversidade da cultura em torno do cultivo de batatas nativas do Equador recuperam tradições milenares andinas.
Luisa de America
Com música, teatro e circo, o espetáculo explora o universo da luta livre latino-americana, reunindo cholitas voadoras bolivianas, lutadores mexicanos e capoeiristas.
{Fé}sta
Com acrobacias e dança, artistas fazem do picadeiro um altar de força e permanência, que celebra o ciclo da vida e a ancestralidade da população negra.
Ações Formativas
Os bate-papos e palestras no Sesc Santos contarão com interpretação em Libras.
Cultura DEF e artes cênicas: um intercâmbio de experiências e linguagens
Bate-papo com David Atencio, codiretor do Programa Tercer Abstrato (Chile), realizador do espetáculo “Robot: Ecos Neurodivergentes”, Renato Di Renzo, fundador e coordenador do Projeto TAMTAM (Brasil) e Catharine Moreira, multiartista, tradutora e consultora surda na área artística (Brasil). Mediação: Ligia Zamaro
Políticas ibero-americanas de fomento às artes cênicas
Palestra com Zaida Rico, secretária técnica do Programa IBERESCENA (Espanha), e Aline Vila Real Mattos, diretora do Centro de Teatro da Fundação Nacional de Artes (Funarte).
Cantar e contar Teuda Bara
Bate-papo com Eduardo Moreira, Lydia Del Picchia, Luiz Rocha, Antonio Edson e Fernanda Vianna (Grupo Galpão), João Santos, escritor e jornalista, autor da biografia “Teuda Bara: comunista demais para ser chacrete” (Editora Javali), e Admar Fernandes, ator e filho da atriz Teuda Bara. Mediação: Rodrigo Eloi
Ficções geográficas da América Latina
Bate-papo com Lia Rodrigues (Brasil), Johana Sánchez Armas (Equador) e Luisa Pardo e Lázaro G. Rodríguez (México). Mediação: Rani Bacil Fuzetto
Encontro: LAB Crítica: práticas de crítica teatral
Encontro com a orientação de Gabriela Mellão (SP), Bruno Fracchia (SP), Guilherme Diniz (MG) e Pollyanna Diniz (SP). Mediação: Juliana Santos
Encontro de festivais
Com Nixon García Sabando (Festival Internacional de Teatro de Manta, Equador), Louisa Mari (Festival Internacional de Artes Cênicas – FDAE, Uruguai), Laura Santamaría Villegas (Festival Iberoamérica Teatral Costa Rica) e Wanderson Lana (Festival Velha Joana – Brasil). Mediação: Tommy Pietra
Biografias teatrais: vidas sobre o palco
Bate-papo com Claudio Leal, autor de “O devorador: vida e arte de Zé Celso”, Thiago Sogayar Bechara, autor de “Amir Haddad: a utopia representada”, Jamil Pereira Dias, autor de “Sérgio Cardoso: ser e não ser” (Edições Sesc), e Patrick Pessoa, organizador de “Teatro aberto: escritos de um diretor” (Editora Cobogó). Mediação: Rose Silveira.
A arte da atuação teatral no contexto brasileiro
Bate-papo com Antônio Araújo, diretor teatral e professor da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo; Chris Belluomini, artista do corpo e coordenadora do Núcleo de Dança, projeto do Programa Fábricas de Cultura; e Lígia Cortez, atriz, diretora teatral e arte-educador. Mediação: Emerson Danesi
A direção teatral de mulheres latino-americanas: arte, política e pedagogia da cena
Bate-papo com Silvia Gomez, jornalista, roteirista e dramaturga (Brasil); Tatiana Sobrado, atriz, pesquisadora e professora (Costa Rica); e Vanessa Bruno, atriz e diretora teatral (Brasil). Mediação: Barbara Esmenia