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Festival Ibero- Americano de Artes Cênicas

O Mirada – Festival Ibero-Americano de Artes Cênicas chega à sua oitava edição. A mostra bienal realizada pelo Sesc São Paulo acontece de 3 a 13 de setembro de 2026, ocupando o Sesc Santos e diversos espaços da cidade, além de municípios da Baixa Santista. A programação reúne 41 espetáculos, além de atividades formativas, shows e o Mirada Pro – encontro de programadores e diretores de festivais de artes cênicas nacionais e estrangeiros.

O festival apresenta a produção contemporânea de países da América Latina, da Espanha e de Portugal, trazendo à cena uma diversidade de linguagens e temáticas. Os trabalhos abordam temas como os deslocamentos territoriais, a festa como rito e ato político, questões ambientais e as relações entre trabalho, ócio e tempo.

O país homenageado é o Equador. Marcado pela presença dos Andes, da Amazônia e do litoral, o país traz ao festival uma cena que evoca ritos comunitários e tensiona feridas coloniais. Há, ainda, produções da Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Costa Rica, Cuba, Espanha, México, Peru, Portugal, Uruguai e Venezuela, além de estreias nacionais.

Em conexão com as obras apresentadas durante o Mirada, as atividades formativas buscam fomentar o pensamento crítico por meio de uma série de ações voltadas à troca de conhecimento e à reflexão. São residências, vivências, oficinas, bate-papos e sessões de autógrafos de livros que privilegiam a escuta e a troca entre criadores e público.

As atividades têm o intuito de transbordar a experiência das artes cênicas para outros públicos e territórios da cidade, expandir a fruição e incentivar a participação de grupos sociais diversos, sempre em convivência com artistas, pensadores e fazedores de múltiplas linguagens.

Já o Ponto de Encontro é um espaço de convivência e celebração do festival, que reúne artistas e público em um ambiente de troca, encontros e confraternização, ao som das apresentações musicais.

Um bom Mirada a todas e todos!

A ação cultural como afirmação de soberania

Ao longo de seus 80 anos de atuação como instituição privada, sem fins lucrativos e de interesse público, o Serviço Social do Comércio – Sesc reafirma seu compromisso com um projeto de nação soberana – idealizado por meio de um pacto social que envolveu os setores produtivos, as classes trabalhadoras e os poderes públicos, com o objetivo de promover bem-estar, desenvolvimento humano e qualidade de vida para a população, em especial para os trabalhadores do comércio de bens, serviços e turismo e seus familiares.

Esse propósito foi sendo efetivado em várias frentes de ação, pautado pela excelência na gestão e na oferta de serviços, pela incorporação de práticas sustentáveis, pela transparência institucional, pelo fortalecimento de parcerias estratégicas e pela adoção contínua de processos de inovação para o cumprimento de sua missão. Soma-se a isso a capacidade de impulsionar cadeias produtivas de diversos setores econômicos e de gerar valor social por meio do acolhimento e da qualificação das experiências dos públicos atendidos.

Nesse contexto, o Mirada – Festival Ibero-Americano de Artes Cênicas, em sua oitava edição, consolida-se como uma plataforma estratégica de intercâmbio, cooperação e desenvolvimento no campo artístico-cultural. O festival promove a conexão entre pessoas artistas, produtoras e instituições do Brasil e de outros países ibero-americanos, ampliando oportunidades de formação, circulação de obras, compartilhamento de conhecimentos e fortalecimento de redes profissionais.

Além de seu impacto cultural, o evento contribui para a dinamização da economia local e regional, mobilizando fornecedores, profissionais de diferentes segmentos e serviços associados à sua realização. A cada edição, são aprimorados os processos de gestão, sustentabilidade e eficiência operacional, potencializando resultados e ampliando o alcance dos investimentos realizados – isso tudo se efetiva com a afluência dos públicos, principal motivo de nosso empenho.

Destaca-se, nesse sentido, a parceria com a Prefeitura Municipal de Santos, além da extensão das apresentações para as cidades vizinhas – Cubatão, Guarujá, Praia Grande e São Vicente – bem como a cooperação de instituições nacionais e internacionais que contribuem para a ampliação dos diálogos e para a viabilização desta iniciativa. O Mirada expressa, assim, o compromisso do Sesc com seus mantenedores, representados pelo empresariado do setor terciário, e com a sociedade, beneficiária dos impactos culturais, sociais e econômicos gerados por suas ações.

Ivo Dall´Acqua
Presidente do Conselho Regional do Sesc São Paulo

As artes cênicas como assombro e perturbação

A Cordilheira dos Andes testemunhou o florescimento de diversas civilizações ao longo da história, moldadas por distintas configurações geopolíticas, econômicas e religiosas. Ao longo de milênios, as relações entre diferentes comunidades indígenas deram origem a cosmologias complexas, nas quais celebrações rituais e oferendas sagradas constituíam formas de reverenciar e apaziguar as forças da natureza representadas por suas divindades. À época da invasão ibérica, vastos territórios na região e seus povos originários integravam o chamado Império do Sol, sob o domínio dos Incas.

Para Mónica Ojeda, autora equatoriana, “escrever é perturbar os sentidos”. A perturbação buscada pela arte faz especial sentido em realidades onde predomina uma ancestralidade plena de ambivalências. Ela permite problematizar vínculos e afetos atravessados por séculos de opressão, violência e discriminação em sociedades estruturadas pela hegemonia patriarcal e colonial, como um exercício de inquietação e enfrentamento. Nesse contexto, o direito à insurgência e a busca por outros modos de existir, criar e conviver afirmam-se como caminhos legítimos e profundamente necessários.

Realizado pelo Sesc há 16 anos, o MIRADA – Festival Ibero-Americano de Artes Cênicas chega à sua oitava edição homenageando o Equador e propondo aos públicos uma curadoria estruturada a partir de alguns vetores: a festa como rito e ato político; as determinantes geográficas; as lógicas interdependentes de trabalho e ócio; as concepções plurais de tempo; os deslocamentos territoriais e a desconstrução do colonialismo. A proposta articula temporalidades, experimentações e contextos socioculturais diversos, promovendo intercâmbios artísticos e ampliando a circulação de linguagens, práticas e saberes entre artistas, grupos e públicos dos países participantes.

Além do Brasil, esta jornada reúne artistas e coletivos da Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Costa Rica, Cuba, Espanha, Guatemala, México, Peru, Portugal e Uruguai, com destaque para a cultura equatoriana. Esta escolha busca salientar uma produção artística de grande relevância, representada por distintas gerações de criadores e por múltiplas perspectivas estéticas. O Equador é um território profundamente marcado pela circunstância andina, onde, há milênios, a preservação da memória social encontrava expressão em práticas cerimoniais e performativas de forte significado coletivo.

Sediado em Santos, o festival se estende às cidades de Cubatão, Guarujá, Praia Grande e São Vicente, com uma programação abrangente de espetáculos nacionais (reunidos na Mostra 80 anos de Sesc) e internacionais (com a ampliação de presenças caribenhas), ações formativas e encontro de pessoas programadoras, entre outras atividades voltadas a públicos de diferentes faixas etárias. Ao ocupar teatros, ruas, praças e espaços alternativos, alguns deles com forte vocação histórica, o MIRADA apresenta um panorama da produção cênica contemporânea na Iberoamérica, evidenciando distintas abordagens dramatúrgicas e modos de encenar a experiência humana.

Esta edição integra, ainda, o ciclo de celebrações pelos 80 anos do Sesc, reafirmando a relevância de sua atuação sociocultural e educativa em nível regional, nacional e internacional. Para reforçar tal marco, a curadoria, resultado de um empenho coletivo, foi organizada com pessoas representantes de Departamentos Regionais do Sesc de diversas regiões brasileiras: Amapá, Ceará, Mato Grosso do Sul, Pará, Paraná, Pernambuco, Rio de Janeiro e São Paulo, incluindo gestores do Departamento Nacional da entidade. Baseada nos valores da diversidade, sustentabilidade, acessibilidade e cooperação transnacional, a instituição fortalece, com iniciativas desse tipo, espaços de criação, encontro e compartilhamento, buscando converter assombro e perturbação estética em experiências de reflexão, reconhecimento da alteridade e exercício da cidadania.

Luiz Deoclecio Massaro Galina
Diretor do Sesc São Paulo

Comover montanhas

Realizar um festival é, de algum modo, inventar um território. Constituir um espaço de encontro entre geografias, idiomas, histórias e modos distintos de imaginar o mundo. O Mirada, Festival Ibero-Americano de Artes Cênicas, propõe esse território provisório como um lugar no qual fronteiras deixam de funcionar como limites para se tornarem zonas de ligações. E é estimulante pensar que, talvez, este “país festival” seja a organização que mais se aproxime de uma genuína multinacionalidade, em que as trocas, além das mercadológicas, são de diversas ordens: econômicas, culturais, afetivas e políticas. Modos de fazer e perspectivas sobre o mundo circulam livremente entre mais de mil profissionais e o público.

O influxo de saberes, modos de vida e estéticas entre o Brasil e os demais países latino-americanos, relativamente diminuto quando comparado à intensidade dos vínculos históricos e culturais que o país mantém com a Península Ibérica – herança direta do processo de colonização –, torna-se ainda mais restrito em relação aos países que não fazem fronteira com o Brasil. A percepção de que a cultura desses locais interessa apenas a seus próprios contextos nacionais pode ser compreendida como um dos efeitos persistentes da história colonial, que ainda condiciona as formas como estabelecemos hierarquias e proximidades. Homenagear o Equador, na oitava edição do Mirada, é uma oportunidade para aprofundar a pesquisa que o Sesc São Paulo desenvolve sobre as artes cênicas produzidas nos países ao norte da América do Sul e na América Central e em suas relações com os países ibéricos. A homenagem ao Peru, em 2024, abriu um caminho. O Mirada 2026 decide segui-lo e faz dessa oportunidade um mote para a composição de toda a programação, nacional e internacional.

O Equador tomou seu nome emprestado da linha imaginária que divide o planeta em duas partes supostamente iguais, e nos oferece, por isso, uma imagem-síntese de uma das mais importantes contradições de nosso tempo: a promessa abstrata da igualdade convive com desigualdades históricas, econômicas, sociais e ambientais que se aprofundam em uma era de máxima tensão entre Norte e Sul globais. As montanhas equatorianas, que definem a geografia, mas também a espiritualidade de culturas andinas diversas que estão arraigadas como batatas – o ouro andino – no solo, além da floresta amazônica e do litoral, conformam uma diversidade geográfica que encontra correspondência na vitalidade de seus festivais de artes cênicas – de Manta, Loja, Quito, Cuenca – e na força das celebrações populares, em que o ritual, a comédia, a música, a dança e a convivência permanecem inseparáveis da vida cotidiana, traços que também ecoam na experiência brasileira.

Por tudo isso, essa curadoria propõe repensar linhas, borrá-las, apagá-las, redesenhá-las, a fim de que se tornem fios de conexão e costura e favoreçam o afeto e a comoção. As inspirações equatorianas influenciam desde a escolha das obras e ações a serem realizadas até a proposta de ocupação, presença e acesso ao festival.

Também a ideia de festa atravessa toda esta edição, compreendida menos como entretenimento do que como prática coletiva de elaboração da memória, do luto, da alegria e da resistência. Além dos aspectos singulares, como a ocupação de lugares históricos, das ruas, das praças, aldeias e cidades próximas, que reinventam o espaço do “país festival”, o tempo assume outra espessura. Em muitas cosmologias andinas, ele não se organiza pela aceleração permanente, mas pela relação com a terra, pelas estações, pelos ciclos e pela comunidade. Essa percepção inspira uma programação que convida à experiência da permanência, do encontro e da travessia coletiva.

A imagem da montanha oferece, se não uma dramaturgia natural, uma pauta, ao modo da música, em que estão dispostas as ações do festival. Da base ao páramo e do páramo ao pico, sucedem-se diferentes condições de vida, de risco, de silêncio e de contemplação. Assim também se organiza o percurso do Mirada: na base, criações comunitárias e obras que acolhem grandes públicos. No páramo, região de abundância de água e terras raras, experiências limítrofes e peças em que conflitos sociais, raciais, ambientais e existenciais são mais explicitamente encenados. No pico, experiências ritualísticas e multissensoriais, além das obras que se apresentam como faróis simbólicos da curadoria.

A programação, organizada a partir de quatro conjuntos de ações – Mostra Equatoriana, Mostra Internacional, Mostra Nacional e Ações Formativas –, apresenta 41 obras e em torno de duas dezenas de ações formativas.

A Mostra Internacional expande sua mirada para um conjunto de 14 países cujas produções têm ocupado um lugar decisivo na renovação das artes da cena ibero-americanas. São obras que investigam a memória colonial, os deslocamentos, as migrações, os direitos dos povos originários, as violências de gênero, as relações entre corpo e território, entre natureza e cidade, entre festa e resistência. Além disso, o festival se encerra no dia em que o Sesc celebra 80 anos de existência. A coincidência torna possível reunir uma Mostra Nacional dedicada à extraordinária diversidade e potência das artes cênicas brasileiras, reafirmando a vocação do Sesc como espaço de circulação, criação e encontro.

As ações formativas, delineadas em concomitância com a curadoria dos espetáculos, propõem-se como uma praça aberta de discussões, experimentações e aprendizados, dinamizando o corpo, a crítica e movimentando os saberes. Residências, oficinas, debates, encontros entre artistas, pesquisadores, festivais e comunidades ocupam um lugar de grande importância na programação: deveriam mesmo sediá-la. Aprender, compartilhar processos, produzir pensamento e criar redes são formas fundacionais de fazer teatro.

Comover-se para mover-se, juntas e juntos. Emocionar-se, no Teatro, é ter a pessoa chamada à ação. O principal trabalho desta curadoria, que envolveu, diretamente, mais de 30 pessoas, foi permanecer emocionando-se, e assim desejamos que seja para o público, em movimento contínuo. Contamos com vocês para comover montanhas. Bom Mirada a todas e todos.

Fernanda Dorazio
Natalia Martins
Rodrigo Eloi
Rose Silveira
Tommy Pietra
Equipe de curadoria Sesc São Paulo

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