
Editorial
Mais do que reunir apresentações artísticas, os festivais expressam escolhas curatoriais, aproximam diferentes trajetórias e propõem formas de convivência por meio da cultura. Cada programação define quais vozes compartilham o mesmo espaço, quais repertórios dialogam entre si e quais experiências são reconhecidas como parte da vida cultural de uma comunidade.
Observá-los, portanto, é observar também aquilo que uma época decide reunir.
É nessa perspectiva que, em Presidente Prudente (SP), a 16ª edição do festival Sesc Thermas do Rock propõe um olhar sobre as relações entre gerações, linguagens e modos de viver a música. Ao unir artistas com trajetórias distintas e públicos de diferentes idades, o festival evidencia como o rock permanece em diálogo com outros gêneros, com diversos momentos da produção musical brasileira e com múltiplas formas de experiência cultural. O encontro, assim, constitui um dos sentidos da programação.
Ao reunir Wanderléa, Os Tornados, Toni Garrido, Terno Rei, Tihuana e Krisiun, o Sesc Thermas do Rock coloca em relação diferentes momentos da música brasileira sem submetê-los a uma leitura cronológica. A programação aproxima trajetórias, repertórios e formas de criação que, embora constituídos em contextos distintos, permanecem em interlocução.
Essa escolha desloca o interesse da sucessão histórica para a convivência entre diferentes experiências musicais. Artistas que participaram da consolidação do rock brasileiro compartilham a programação com grupos que representam outras gerações e outros contextos de produção, indicando que a permanência do gênero não decorre da repetição de suas formas, mas da capacidade de produzir novos diálogos.
A presença de Tony Tornado ao lado de seu filho Lincoln sintetiza esse princípio ao reunir, em um mesmo palco, duas gerações vinculadas por uma trajetória que se renova sem romper com sua própria história.
Ao conhecer a proposta do festival, Wanderléa identifica nessa aproximação entre diferentes gerações um dos elementos que caracterizam a programação. “É maravilhoso fazer o passado e o presente juntos”, afirma. A cantora também destaca a importância de iniciativas que ampliam os espaços de circulação para novos artistas: “Tem muita gente maravilhosa precisando de espaço para se apresentar, e o Sesc está sempre aberto para isso.”
Se a curadoria revela esse princípio, ele também se manifesta entre o público. Diferentes gerações ocupam o mesmo espaço sem que uma precise justificar sua presença à outra.
Uma delas é a fisioterapeuta Sara Bernardo da Rocha, que chegou ao festival acompanhada do marido, da filha e de amigos. Ao comentar sua experiência no evento, associa-o à possibilidade de convivência entre diferentes pessoas e gerações. “O Sesc é isso, né? O Sesc traz essa coisa de comunidade, de você trazer todo mundo”, explica. A filha, segundo ela, cresceu ouvindo rock, mesmo quando as canções de ninar dividiam espaço com guitarras e refrões. A música, nesse caso, deixa de ser apenas um repertório e passa a integrar as relações familiares, criando memórias que continuam sendo compartilhadas.










































A geógrafa Julia Alves, 28 anos, também reconhece que sua relação com o rock começou muito antes de qualquer escolha consciente. As primeiras lembranças passam pelo toca-fitas no carro da mãe, pelos CDs espalhados pela casa dos tios, pelas capas dos discos e, mais tarde, pelos videoclipes da MTV.
“O rock sempre existiu para mim. Primeiro de tudo, falando de música, sempre foi rock. Os outros gêneros eu fui conhecer depois“, conta. Com o tempo, o toca-fitas deu lugar aos CDs, depois aos videoclipes e às plataformas digitais, mas o vínculo afetivo com a música permaneceu. O repertório muda de formato, atravessa gerações e tecnologias, mas continua sendo construído nas experiências cotidianas.
Essa convivência entre diferentes formas de viver a cultura também se manifestou nas atividades espalhadas pelo bosque da unidade. Enquanto os shows reuniam milhares de pessoas, oficinas, intervenções e vivências convidavam o público a experimentar outras maneiras de ocupar o festival.
Para o professor de dança Leonardo Ferreira, as intervenções corporais aproximam referências do rock, do hip hop, do jazz, do pop e das danças urbanas. Ao resumir a proposta da programação, ele recorre a uma palavra: “União”. Já o artista visual Noelodran descreve seu processo criativo diretamente relacionado à música. “Minha criação está 100% ligada à música, à sonoridade das coisas. Eu gosto de falar que eu desenho no silêncio da música, que vai me conduzindo para vários lugares”.
Essa configuração amplia a compreensão do que pode ser um festival de rock. Se durante muito tempo esses encontros foram associados sobretudo aos grandes shows, hoje também acolhem práticas artísticas, atividades formativas, experiências de acessibilidade e públicos que estabelecem diferentes formas de relação com a música. Crianças descobrem novos repertórios, jovens encontram artistas pela primeira vez e pessoas retornam a obras que acompanham suas trajetórias há décadas.
Todo festival registra o tempo em que acontece e a 16ª edição do Sesc Thermas do Rock ofereceu um retrato de uma sociedade marcada pela multiplicidade de referências culturais e pela velocidade com que elas circulam, mas que continua encontrando na escuta, na diversidade e na experiência compartilhada algumas de suas formas mais significativas de existir.
Texto: Livia Muchiutti
Edição de texto: Thiago Ferri
Fotos: Gasalucinação
Utilizamos cookies essenciais para personalizar e aprimorar sua experiência neste site. Ao continuar navegando você concorda com estas condições, detalhadas na nossa Política de Cookies de acordo com a nossa Política de Privacidade.