
Trilogia parte das divisões do corpo para criar outras relações com o movimento, a percepção e as formas de organizar o mundo
De 10 a 27 de setembro, o Espaço Cênico da Unidade recebe Bestiário Pink, trilogia da coreógrafa e performer brasileira Josefa Pereira. Pela primeira vez no Brasil, as três obras que compõem o trabalho serão apresentadas em sua configuração completa. Hidebehind, Glimpse e Calor ocupam o Espaço Cênico em sessões duplas, com diferentes combinações ao longo da temporada.
A programação coloca em cena uma pesquisa que parte de uma questão cotidiana: como dividimos o corpo para compreendê lo? Frente e trás, direita e esquerda, cima e baixo são referências usadas pela anatomia para organizar suas partes e localizar seus movimentos. Na trilogia, essas divisões deixam de ser apenas referências espaciais e passam a produzir novas possibilidades para o corpo.
O resultado é uma sequência de três obras que podem ser vistas de forma independente, mas que ganham novas relações quando apresentadas em conjunto. Cada trabalho escolhe um eixo corporal e cria, a partir dele, uma investigação própria sobre movimento, percepção, matéria e existência.
Em Hidebehind, frente e trás são o ponto de partida. O título remete a uma criatura do folclore norte americano que se esconde atrás de pessoas e objetos e nunca pode ser vista diretamente. A peça explora a relação entre aquilo que está diante dos olhos e aquilo que permanece fora do campo de visão.
Glimpse parte da divisão entre direita e esquerda. A simetria dos dois lados do corpo abre espaço para deslocamentos e diferenças. O corpo aparece por partes, em mudanças de direção que alteram a forma como ele pode ser percebido.
Em Calor, a relação entre cima e baixo organiza a pesquisa. O eixo vertical encontra a temperatura e o contato entre corpos e matérias. O calor surge como uma força que aproxima, transforma e modifica as fronteiras entre corpo e ambiente.
As três peças fazem parte de uma investigação que Josefa Pereira desenvolve há mais de seis anos. A artista vive entre Lisboa e São Paulo e concluiu, em 2021, o mestrado DAS Choreography, da Amsterdam University of the Arts. Sua pesquisa aproxima dança, performance, matéria e fabulação e investiga as formas pelas quais os corpos são percebidos, classificados e organizados.
O título Bestiário Pink também participa dessa investigação. “Bestiário” remete a coleções que classificam animais e criaturas a partir de determinadas características. “Pink” acrescenta ao conjunto uma referência à cor e às associações sociais construídas em torno dela. A combinação cria um campo entre classificação e imaginação, no qual os corpos não precisam permanecer dentro de categorias fixas.


A temporada permite acompanhar diferentes combinações entre as peças. As sessões duplas aproximam obras com eixos distintos e criam percursos variados pela trilogia. Quem assistir a mais de uma sessão poderá perceber como as relações entre frente e trás, direita e esquerda, cima e baixo mudam de sentido conforme cada trabalho entra em contato com o outro.
A proposta também parte de uma experiência acessível a qualquer pessoa: todos carregam um corpo que pode ser orientado por esses eixos. A dança de Josefa desloca essa referência básica e convida o público a perceber o corpo por outros caminhos.
Mais do que explicar como um corpo se organiza, Bestiário Pink coloca essa organização em questão. Na cena, os eixos deixam de ser limites e se tornam matéria para o movimento. O que parece separado pode se aproximar. O que parece ter uma direção única pode mudar de sentido.
Para o público, a temporada oferece a oportunidade de conhecer as três obras em uma mesma programação e acompanhar uma pesquisa que cruza dança, performance e imaginação. A apresentação completa da trilogia no Brasil amplia esse percurso e permite observar como uma mesma pergunta pode produzir três experiências distintas.
A programação começa em 10 de setembro, com Calor + Glimpse, e segue com diferentes combinações até 27 de setembro. Ao longo da temporada, Hidebehind + Glimpse, Hidebehind + Calor e Calor + Glimpse se alternam entre quintas, sextas, sábados e domingos.
Para quem quiser conhecer as três obras, é possível combinar duas sessões diferentes. Já quem pretende assistir a uma dupla específica pode escolher a data em que as duas peças aparecem juntas.

10/9, quinta, às 19h30
Calor + Glimpse
11/9, sexta, às 19h30
Hidebehind + Glimpse
12/9, sábado, às 19h30
Hidebehind + Calor
13/9, domingo, às 17h30
Calor + Glimpse
17/9, quinta, às 19h30
Hidebehind + Calor
18/9, sexta, às 19h30
Calor + Glimpse
19/9, sábado, às 19h30
Hidebehind + Glimpse
20/9, domingo, às 17h30
Hidebehind + Calor
24/9, quinta, às 19h30
Hidebehind + Glimpse
25/9, sexta, às 19h30
Hidebehind + Calor
26/9, sábado, às 19h30
Calor + Glimpse
27/9, domingo, às 17h30
Hidebehind + Glimpse
Concepção e coreografia Josefa Pereira
Performances de Iara Izidoro, Josefa Pereira, Natália Mendonça
Adaptação do desenho de luz e operação Ska Batista
Assistência de direção Daniel Lühmann
Trilha Sonora Ágatha Cigarra
Operação trilha Sonora Ágatha Cigarra e Larie
Fotos Baha Göken Yalim, Micaela Wernicke, Patrícia Black, La Casa Encendida/Estudio Perplejo
Gestão (PT) Pitoreskousadia – Kora Criativa / Hannya Melo
Produção executiva (BR) Iolanda Sinatra (MEIO produções)
Assistência de produção (BR) Ale Fernandes
De 10 a 29/9
R$50 a inteira – R$25 a meia – R$15 Credencial Plena
Ingressos à venda online a partir do dia 1/9, às 17h e nas bilheterias a partir do dia 2/9, às 17h
16 anos
Espaço Cênico – Sesc Pompeia
“[…]
Quando enfim
fechássemos o mapa
o mundo se dobraria sobre si mesmo
e o meio-dia
recostado sobre a meia-noite
iluminaria os lugares
mais secretos”
Ana Martins Marques, O livro das semelhanças
Uma folha dobrada em simetria mostra seu verso, mas dobrada em desconformidade mostra suas duas faces simultaneamente, compondo ainda uma terceira forma. Já não é mais esquerda ou direita, sul ou norte, frente ou verso. O que há daquele lado? Os ouvidos encontram a zona posterior do joelho, o cotovelo a resvalar na escápula, o umbigo a tocar o ânus. Não há ponto que não possa ser de contato quando o mundo se dobra e se deforma. Uma tríade forma um caos, não é isto ou aquilo. Uma tríade preenche um acorde, não é uma nota ou outra. Uma tríade não é x ou y, mas a dúvida e a hipótese sobreposta entre e/ou. Abrindo mão do sim e do não, realidades que correm paralelas e coexistem ainda em suas contrariedades – são todas as coisas em concomitância, são as suas combinatórias e infiltrações. Quiçá seja melhor ficar com a imagem da multiplicidade, incoerência e as abundantes vias da entropia e da desordem.
Bestiário PINK, uma obra em construção desacelerada ao longo de mais de seis anos, e nem por isso menos intensa e constante, é menos o envio ou o recebimento, e mais a própria mensagem em trânsito contínuo. A mensagem é aquela que percorre dois mundos distintos, não pertence a nenhum deles e parece que é assim o comportamento desse conjunto tripartite que vem sendo esboçado desde 2015 pela artista, coreógrafa e performer Josefa Pereira.
Como falar de uma mensagem, de uma obra, de um conjunto de obras, compondo 3 atos, a partir de uma estrutura linguística ainda binária como esta que se apresenta? Como implodir a relação do sujeito-objeto impregnada desde a gramática ao nosso entendimento de se estar no mundo e de nos separarmos entre aquilo que é o mundo? O mundo não seria mesmo todos nós? Todo mundo?
Assumir o erro, o paradoxo, o oxímoro e a coexistência das coisas. Isso não é um diálogo, é uma cacofonia, uma multidão de vozes, de imagens e de repertórios envolvidos na lâmina da síntese.
Ainda sobre essa plurivocalidade, cabe perceber que a constituição de Hidebehind, Glimpse e Calor é um processo de muita troca entre todos aqueles que percorreram e interlocucionaram com Pereira – sua obra não se faz sem suas parcerias afetivas que também são suas alianças estéticas e políticas. Ainda que concebido originalmente e performado como solo, está muito distintamente de o ser – Bestiário PINK vem acompanhado por sua rede de parentesco mundana, infra-mundana e supra-mundana, seres que estão nomeados na ficha técnica, os que não, e aqueles que sequer são nomináveis.
A artista parte de 3 eixos do corpo para criar procedimentos e experimentar as materialidades daquilo que é, veste, gesticula, ilumina, colore e atravessa. Cada uma das peças considera uma das secções de corte: sagital, frontal e transversal. Esses três modos de cesura são a condensação para se desvelar um volume. Mas em seguida, cada corte se trai: se de uma incisão se espera duas partes, é nos caminhos de Hidebehind, Glimpse e Calor que vemos sempre uma trinca surgir, um terceiro elemento que já não pode ser nenhum dos anteriores.
A investigação de Josefa Pereira é suscitada pela provocação da polissemia do rosa, seja choque e/ou pink, e o quanto as suas apropriações e reapropriações em diferentes culturas podem nos empurrar para distintas perguntas. Questionar-se sobre a história do rosa é questionar sobre estruturas de poder e de estigma. É também perguntar-se o porquê a dimensão do gênero se faz presente tantas vezes, como se deu a apropriação pela indústria de massa, como foi utilizada para designar, e exterminar, grupos, e como, em movimento contrário, foi índice de poder e virilidade. Perguntar-se sobre a vida do rosa é dar-se conta dos processos de construção das identidades e dos corpos, é perguntar-se sobre a construção da figura do outro, e o porquê da necessidade do aniquilamento do outro e de seus modos de vida. Deglutir essas histórias e restituir ao mundo essa massa fermentada é dar a ver a monstruosidade das matérias e a monstruosidade construída historicamente para determinados grupos.
Os seres que habitam a trilogia atuam como mensageiros, atuam nos caminhos, criam conexões entre aquilo que entendemos como seres terrestres e aqueles cuja presença não é óbvia aos olhos e percepções humanas: figuras divinas, fabulares, extra terrenas.
Um mensageiro não apenas se desloca e transporta, ele necessariamente carrega. Mas o que ainda é um por vir, pode ser um segredo, pode ser a notícia do fim desses tempos, pode ser a história das origens e das criações ou a possibilidade de um futuro radicalmente distinto do que aguardamos.
As figuras construídas ao longo da trilogia são de caráter fugidio, fora do tempo e espaço humano, fazendo-se ambivalentes. Não necessitamos pronunciar seu nome para compreender que é quem guarda o lado de fora, protege os caminhos e se faz presente nas encruzilhadas.
É nesse caráter mensageiro e extraordinário que se preserva uma lógica da monstruosidade, transpassando os três momentos da trilogia. Derivado dos termos monestrum e monstrum, a raiz da palavra monstro conserva seu parentesco com o verbo mostrar. Sendo assim, são seres que arquivam um presságio – previnem, indicam e advertem. Criam uma rede de intimidade entre o mostrar, o demonstrar, a premonição e o monumento. São seres de estranheza que apelam para o seu caráter de excepcionalidade, espanto e exibição. Longe de serem figuras puras e estáveis, são muitas vezes criaturas híbridas. As três, que percorrem os diferentes atos, são impuras, são nebulosas, são opacas, são mestiças, são de difícil classificação e apreensão. A primeira (Hidebehind) quebra a normatividade da projeção linear e progressiva, a segunda (Glimpse) elipsa o tempo e deforma a percepção sobre o estático e o movimento através da intercadência dos lampejos, enquanto a terceira (Calor) desgoverna-se pelo espaço sem eleger rota palpável e inverte a lógica do corpo ereto: jogam com a (in)visibilidade dos corpos no espaço cênico, modelado por alterações cromáticas e luminosas e suas consequências sobre as superfícies e materialidades das carnes.
A trilogia segue a estrutura de uma bolsa carregada, uma coleção de fragmentos, de referências, de metodologias, e que abre mão de um herói para dar espaço aos corpos estranhos. São corpos respigadores que não se acanham em dobrar-se para buscar um punhado de ficção e recolher aquilo que os demais se esqueceram. Como despedida, Calor faz o gesto de inclinar-se, de ser conteúdo e continente ao mesmo tempo, de ser criação e criatura amalgamados, corpos em simbiose, voltar a ser o mundo todo com a cabeça no chão.
por maura grimaldi (investigador)
texto feito para estreia da trilogia no Teatro do Bairro Alto
Hidebehind, de Josefa Pereira
O Hidebehind está sempre atrás de alguma coisa. Por mais voltas que desse um homem, sempre o tinha por trás e por isso ninguém chegou a vê-lo, embora tenha matado e devorado muitos lenhadores.
Há poucos anos atrás em algumas feiras do interior podíamos encontrar uma construção circular com alguns metros de altura, feita de madeira e rodeada no alto por um palanque para onde na hora do espectáculo o público subia. Dentro do “Poço da Morte” acrobatas de motocicleta usavam a força centrífuga para desafiar a gravidade, acelerando as suas motas em círculos cada vez mais velozes, estonteantes para o público que os seguia com o olhar, até que suspensos a alguns metros do solo, na estabilidade improvável de um chão vertical, chegava o momento de se entregarem às manobras acrobáticas.
Quando entramos na sala estúdio do CCB, Josefa Pereira caminha já de costas num passo firme e regular, descrevendo um círculo no centro da roda de cadeiras onde se sentam os espectadores, com a metade posterior do seu corpo nu pintada com um pigmento rosa fluorescente. Lentamente a sua postura vai-se transformando, primeiro a sua mão direita que se dobra tensionada para trás, logo as duas mãos que se fecham e que se erguem, dobrando os braços. O passo sempre firme e regular, de costas e em círculo, produz uma suspensão semelhante à da acrobata do “Poço da Morte”, uma outra estabilidade, precária e perigosa, que carrega de intensidade aquilo que nela acontece.
Aqui o equilíbrio precário revela a tensão entre o corpo de Josefa e a criatura rosa pintada na metade posterior do seu corpo. Este Hidebehind, monstro que se esconde atrás das coisas é também Curupira, criatura lendária que habita as florestas brasileiras e que se distingue por ter os pés virados para trás, de maneira a deixar um rasto invertido e a confundir os caçadores. Tal como a criatura de Borges, Curupiras são conhecidas por atacar quem se adentra na floresta, enganando-os, desviando-os do caminho e reclamando as suas vidas para a floresta.
Em Hidebehind Josefa Pereira desenha no corpo a superfície do desconhecido, um plano rosa que a divide em duas e que a move em círculos, sugerindo uma outra ordem para o corpo em cada mudança de postura, revelando uma monstruosidade que já não é simples jogo de palavras de criaturas imaginárias, mas o traçar de uma fronteira e de uma direcção mobilizadora.
Um lobo é sempre matilha. Trata-se então de por meio de gestos simples, de movimentos coordenados, procurar outros em si, de trazer o discurso das profundezas para a superfície da pele e de lhe dar uma coloração luminosa. De alguma maneira trata-se de inverter essa vontade colonizadora de trazer luz aos movimentos obscuros do ser, avançando para trás, de “dorso exposto descoberto à natureza selvagem”, como o círculo de lobos que Elias Canetti usa para descrever o agregar colectivo pela orla da matilha reunida em volta do fogo, onde cada posição é simultaneamente central e periférica, e que trata portanto de uma mobilidade e precariedade constantes.
Solitária mas múltipla, sempre num passo regular, firme, o seu corpo vai-se torcendo, trazendo em contorção parte da criatura para a sua frente, explorando brevemente uma outra fronteira desde os dedos que abrem o mais que podem os seus lábios, revelando a sua mandíbula e um outro rosa, o do interior da sua boca. Mais tarde, de costas recurvadas, as luzes apagam-se, deixando somente uma luz negra que vai dar uma autonomia quase final à criatura rosada, agora suspensa sobre a escuridão. Mas esta autonomia vai ser interrompida por uma luz rosada, reunindo as duas superfícies e apagando a criatura na Josefa, para noutro movimento retomar a iluminação inicial e regressar ao início do ciclo, ao caminhar firme e regular, à mão que se contorce, aos braços que se erguem, fazendo sobressair no brilho do suor, na intensidade da respiração e nas fendas que se abrem na tinta rosa pequenos sinais do que aconteceu.
por Bruno Caracol na resvita Arte Capital
Utilizamos cookies essenciais para personalizar e aprimorar sua experiência neste site. Ao continuar navegando você concorda com estas condições, detalhadas na nossa Política de Cookies de acordo com a nossa Política de Privacidade.