
Foto: Fernanda Luz
Ayoub é uma crítica ao casamento por conveniência ou os caminhos do desamor do cacel buscam outras revelações?
De forma alguma. É, sim, uma crítica ao olhar eurocêntrico que muitas vezes, sob uma boa intenção, acaba sendo tão colonialista quanto olhares diretamente coloniais. A ideia do casamento, que a minha personagem – que sou eu mesma – oferece a um vendedor de doces no Marrocos, é uma ironia. É para zombar, para rir de mim mesma e desse olhar no qual essa ideia de salvar um outro acaba causando danos.
Se a união dos personagens fracassa na intenção de salvá-los, o caminho para a salvação é individual?
A união das pessoas fracassa na sua intenção de salvá-las porque essa ideia de salvar pressupõe a falta de vida do outro, ou uma quase impossibilidade de viver. A ideia de salvação em termos individuais também é complicada, porque também pressupõe que uma pessoa está quase morrendo. Me parece que não devemos chegar a esse ponto de precisar ser salvos.

Diante do fracasso da religião, do amor e da política, nesse processo, a arte é um caminho para a salvação?
Talvez a esperança esteja nas maneiras de reinventar o amor, a política e a religião. Eu não acredito na religião, mas acredito em reinventar modos, e é aí que a esperança surge mais no campo da arte, na possibilidade de imaginar. Pode ser a arte, mas também pode ser o jogo, como acontece com as crianças que imaginam.
Marina Otero é autora e diretora do espetáculo Ayoub – El Amor me Enseña a no Amar.
Apaixonada por Ayoub, Marina viaja para a terra natal do namorado, Tânger, no Marrocos, para casar-se com ele. Ao chegar lá, no entanto, ela se descobre ocupando uma posição de poder, graças ao fato de possuir documentos de sul-americana europeizada. Diante de suas atitudes, Ayoub passa a se apresentar como resistência, em contraponto ao projeto de Marina de salvar um homem em situação de vulnerabilidade e aplacar a própria solidão. Da impossibilidade de pronunciar corretamente o nome árabe ao entendimento de que essa relação não cabe no mundo em que vivemos, a obra ironiza a ideia de salvação europeia, que dissimula proteger o outro, enquanto exerce o colonialismo e os abusos presentes nesses mecanismos dentro da arte e da política.
O espetáculo Ayoub – El Amor me Enseña a no Amar foi apresentado nos dias 5 e 6/09 às 22h no Sesc Santos.
Utilizamos cookies essenciais para personalizar e aprimorar sua experiência neste site. Ao continuar navegando você concorda com estas condições, detalhadas na nossa Política de Cookies de acordo com a nossa Política de Privacidade.