
Foto: Laio Desos
Como surgiu a ideia de transformar o bar periférico e o brega em alegoria sobre a ameaça de despejo do Clariô?
Festejo como luta é o nosso lema: a alegria é tecnologia de resistência e estética popular. Nosso teatro é popular, contemporâneo e conectado com o povo. Para celebrar 20 anos e combater a especulação imobiliária e a gentrificação, escolhemos o “exagero”. Usamos um tom dramático e divertido que ressalta todo o afeto da nossa história, luta e identidades.
Como o melodrama tragicômico ajuda a tratar a denúncia do apagamento cultural com ironia e emoção?
O mote do espetáculo é o roubo da caixa de correios – lugar onde a comunidade guarda memórias e marca seu endereço. Trazemos a Casa do Norte, refúgio de famílias migrantes do Norte e do Nordeste que construíram as periferias paulistanas, para matar a saudade de suas terras pelas tradições. É sobre memória, pertencimento e dignidade. O bom humor é o tempero do Brasil.

Celebrando vinte anos de trajetória, de que maneira a memória das lutas da própria companhia alimentou a construção desses personagens populares que tentam defender seu território na peça?
Foi um processo muito bonito com o dramaturgo Jhonny Salaberg que, pela primeira vez, escreve um texto para o Grupo Clariô. Foram muitos encontros para contar as histórias do grupo e dos vinte anos de existência do espaço, além de um mergulho profundo em toda a dramaturgia e no material produzido pelo Grupo Clariô de Teatro. As personagens são figuras clássicas dos folhetins brasileiros, mas também são nossas vizinhas e nossos vizinhos das quebradas, pessoas que encontramos o tempo inteiro e com as quais nos deparamos desde sempre.
Naruna Costa é diretora e atriz de Casa do Norte.
Celebrando 20 anos, o Grupo Clariô mergulha na memória e resistência da periferia. Feito na, com e para a comunidade, foca nas Casas do Norte, comércios criados por migrantes nordestinos em São Paulo.
Retomando pesquisa de 2007, a obra reflete sobre a precariedade dos espaços culturais. A história se passa numa Casa do Norte, mercearia de dia e botequim “Fecha Nunca” à noite. Ali, uma caixa de correios comunitária desaparece misteriosamente, colocando os frequentadores sob suspeita e revelando segredos.
Misturando humor, música e brega, a montagem aborda migração e direito ao território, fazendo um convite ao público para que se aproxime e pertença a este espaço: um lugar onde toda chegada é uma forma de voltar para casa.
O espetáculo Casa do Norte foi apresentado no dia 13/09 às 18h no Mercado Municipal, em Santos.
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