10 Perguntas para Guto Parente

21/09/2026

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Por Duda Leite*

Desde que entrou em cena com “Estrada para Ythaca”, em 2010, exibido no Festival de Tiradentes, ao lado de Ricardo e Luiz Pretti, e Pedro Diógenes, o premiado cineasta cearense Guto Parente seguiu um estranho caminho no cinema brasileiro. Dirigiu 17 filmes, sendo 7 curtas e 10 longas, exibidos em festivais como Tribeca, San Sebastián, Rotterdam e Locarno, só para ficar entre os internacionais. Sua obra mais recente é o metalinguístico “Morte e Vida Madalena”, que é um dos destaques da Mostra Amor ao Cinema. Seu cinema antropofágico desafia os gêneros cinematográficos e flerta com referências tão díspares como François Truffaut, Fellini, Rainer Werner Fassbinder, Ed Wood e John Waters. Guto não se esquiva dos elementos camp no seu cinema, pelo contrário: fica feliz com a menção do estilo pelo repórter. Seu cinema é inventivo e extremamente pessoal.

Leia a seguir as dez perguntas com o diretor.

DUDA LEITE – Em “Morte e Vida Madalena”, um dos temas do filme é o próprio cinema. Em um certo momento, um dos personagens cita o Fellini e o filme “8 ½”. Quais foram suas referências em termos de filmes sobre cinema para escrever este roteiro?

GUTO PARENTE – Tem alguns clássicos que tem a ver com o fazer cinematográfico. “8 ½” é um clássico sobre um diretor em crise. Tem toda aquela coisa em torno do diretor. Em “Morte e Vida Madalena” o diretor está sumido. Está passando por uma crise. Tem também outros filmes como “A Noite Americana” do Truffaut, e “O Estado das Coisas”, do Wim Wenders. E “Cuidado Com Essa Puta Sagrada” (1971), do Fassbinder, que têm o set como locação principal. Todos estes foram referências para mim.

DUDA – Uma constante no cinema queer contemporâneo é a mistura de gêneros. E no caso de “Morte e Vida Madalena”, você mistura filmes sobre cinema, ficção científica e até westerns. De onde vem essa sua vontade de atravessar os gêneros?

GUTO PARENTE – Comecei a fazer cinema por gostar muito de ver filmes. Eu tenho uma cinefilia desde criança. A minha grande diversão sempre foi ver filmes. Nas férias, eu ia à locadora e alugava um monte de filmes. Então, tem uma ligação que passa por isso. E o cinema de gênero acabou ficando introjetado de alguma maneira. Eu sinto vontade de experimentar, de fazer filmes de gêneros diferentes. Gosto de pensar numa forma antropofágica, de que maneira a gente consegue se apropriar de gêneros e códigos, de um cinema, em geral de matriz comercial. O cinema de gênero tem em geral essa raíz muito forte do cinema norte-americano. Sempre penso de que forma a gente pode se apropriar disso dentro do contexto em que a gente vive. Jogar com os códigos desse gênero, tentando encontrar alguma coisa nossa.

DUDA – O filme dentro do filme, cujo título é “O Futuro a Deus Pertence”, é um típico filme de ficção-científica B, meio ao estilo Ed Wood. Quais foram suas referências para criar essa ficção-científica?

GUTO PARENTE – Essa ficção-científica, era num determinado momento, o filme que eu ia fazer. Depois fomos entendendo que, para o orçamento que a gente tinha, esse filme não seria possível, do jeito que eu tinha pensado. Com a complexidade do roteiro, a gente só conseguiria mesmo fazer um Filme B. Então, a partir dessa ideia de como a gente consegue lidar com essas questões orçamentárias, e com o que a gente conseguiria fazer em termos de produção. No Cinema B o grande barato é encontrar soluções criativas para problemas concretos. Então, esse roteiro foi escrito incorporando a ideia inicial do projeto, como sendo o filme que a produtora estava fazendo. “Morte e Vida Madalena” fala muito sobre o próprio processo do filme, que eu estava tentando fazer. O Ed Wood é uma referência legal, eu gosto do cinema dele.

DUDA – Em “Morte e Vida Madalena”, a protagonista é uma mulher cis interpretada pela Noá Bonoba, que é uma atriz trans. Nos filmes do John Waters, a Divine, que era uma drag queen, também interpreta mulheres cis. Você acha que qualquer ator pode interpretar qualquer papel?

GUTO PARENTE – Sim, acredito que qualquer ator pode fazer qualquer papel. No caso da Noá, eu a convidei por ela ser uma ótima atriz. Já acompanho o trabalho dela há muito tempo, na Tardo Filmes, que é minha produtora com a Ticiana. A gente já tinha inclusive produzido um curta da Noá. Quando este roteiro ficou pronto, e a protagonista se tornou uma mulher grávida, estávamos pensando quem seria a atriz, e o nome da Noá veio, numa conversa entre eu, a Ticiana, a Taís, que é a nossa produtora de arte e o Breno Batista que é assistente de direção. Somos um núcleo criativo muito unido. E para todo mundo, pareceu uma ótima ideia. Só depois que a gente começou a pensar nisso. O fato dela ser uma mulher trans, interpretando uma mulher cis. Se o cinema não tem a liberdade para que uma mulher trans, interprete uma mulher cis, a gente não vai ter liberdade em lugar nenhum. O cinema é um lugar de criação e de invenção. É o lugar onde a gente tem que expandir as possibilidades da vida e da existência. Queria que isso fosse algo mais natural, porém ainda não é, e ainda causa espanto em muita gente. Tem pessoas que se incomodam com isso. Mas se isso fosse algo mais recorrente no cinema, atrizes e atores trans interpretando personagens cis, talvez a gente conseguisse provocar algum tipo de transformção sensível da realidade.

DUDA – Você acha que o cinema tem o poder de transformar a sociedade?

GUTO PARENTE – Eu acho que sim. Eu me sinto menos idealista do que em outros momentos da vida. Mas eu vejo muito as transformações que acontecem. Individualmente, com certeza. E, se a gente consegue uma transformação individual, eu acho que indivíduos transformados conseguem transformar, em alguma medida, a sociedade. Eu me sinto muito transformado pelo cinema, desde que eu comecei a ver filmes. Aprendo muitas coisas. É uma arte que proporciona um exercício de alteridade que é muito bonito, você poder entrar numa realidade que é completamente diferente da sua, e poder se engajar e conseguir se colocar no lugar daquela pessoa. Viver uma jornada junto com o personagem, que a priori, você considera diferente. E você encontra pontos de similaridade. Prefiro continuar acreditando.

DUDA – O visual nos seus filmes sempre é um ponto bem importante. O cinema contemporâneo queer tem uma estética muito próxima ao estilo Camp. Você enxerga esse elemento no seu cinema?

GUTO PARENTE – Sim, com certeza. Inclusive, John Waters é uma grande referência para mim. Acho o cinema do John Waters muito foda. Em 2018, tive a honra de ver uma palestra com ele. Foi muito foda. Nós somos máquinas processadoras de tudo o que a gente absorve como uma esponja. Tudo o que a gente escuta e assiste, coisas que tocam nossos corações. Os filmes que a gente guarda com a gente. E na hora de criar imagens, acho muito bom tudo isso. Eu não tenho medo do exagero. Eu gosto do exagero. Eu gosto da intensidades das coisas. Eu acho que isso acaba imprimindo muito nos meus filmes. Toda minha trajetória no cinema é de grupo. Você citou a direção de arte, que é a Thais Augusto, que está desde “Inferninho”, “Estranho Caminho”, e “Morte e Vida Madalena”, já é uma parceria muito sólida. Desde o roteiro. E a Ticiana Augusto Lima, que é a produtora. Nós temos uma troca desde a primeira ideia. Sempre compartilho com elas o meu roteiro. A gente vai criando esse nosso universo com elementos que vêm de vários lugares diferentes.

DUDA – Seu filme e vai ser exibido dentro da Mostra Amor ao Cinema. Como você definiria o seu amor pelo cinema?

GUTO PARENTE – É fundante para mim, sinto quase como se fosse a minha religião. É para onde eu vou quando estou lidando na minha vida com questões difíceis, sempre recorro a alguns filmes. Gosto muito de rever alguns filmes. Tem alguns filmes que são quase como um tratamento para mim. Se estou sentindo algo, vou ver aquele filme. E ele me faz pensar. E eu me reconecto com meus sentimentos. O cinema é a minha religião.

DUDA – O François Truffaut declarou certa vez que o cinema é mais importante do que a vida. Você concorda com isso?

GUTO PARENTE – Para muita gente, com certeza não. Para mim, o cinema e a vida se misturam muito. Eu não consigo pensar minha vida sem o cinema. O cinema é algo que me constitui enquanto um ser no mundo. Para mim, é indistinguível. Vida e cinema se misturam de um jeito que eu nem consigo fazer este tipo de comparação.

DUDA – Você costuma equilibrar nos seus filmes, um senso de humor bastante peculiar, e momentos bem profundos, tocando em temas bastante profundos. Seu cinema transita nessas duas vertentes. Como você encontra esse equilíbrio?

GUTO PARENTE – É na tentativa e erro. É na prática, e seguindo minha intuição, que me diz: esse é o caminho que eu devo ir para essa cena. Vou encontrando a modulação de cada cena. Parte intuição, parte risco. Nada é calculado. Pensando no mundo de hoje, nessa sociedade algorítmica, a produção cultural passa por isso. No streaming, os algoritmos determinam a produção e como um filme deve ser, e como um roteiro deve se estruturar. A partir de um estudo algorítmico. Fico cada vez mais acreditando na importância de se assumir risco e na minha intuição, às vezes, até de uma maneira meio inconsequente. E sobre misturar estes elementos, quando você faz essa mistura, aquilo pode provocar uma explosão, ou pode gerar uma nova cor, um novo odor. Para mim, tem uma relação parecida com um laboratório. Isso vem de um trabalho muito exaustivo de escrita e de montagem. Especialmente de montagem, porque dentro de uma lógica de produção de baixos orçamentos, o tempo que você tem para desenvolver um roteiro, para ensaiar, é reduzido. O orçamento é o que determina o tempo que você tem para realizar. E no processo da montagem, a gente vai entender o que funcionou, ou não. A gente reconstroi essa história na montagem. Tem muita escrita de roteiro, e de desenho de personagem, que acontece na montagem. Uma cena quando é escrita ela tem um sentido, na hora de filmar ela ganha outro, e na montagem ganha ainda um terceiro. É um processo mágico.

DUDA – O cinema já foi declarado morto diversas vezes. Em 1983, o Peter Greenaway disse que o cinema havia morrido com a chegada do controle remoto às salas de estar. Depois, com a chegada do VHS, e mais recentemente com a chegada do streaming. Por que acha que o cinema insiste em resistir?

GUTO PARENTE – O cinema nunca vai morrer. Ele só vai morrer no dia em que a sociedade desaparecer. O que podemos ver, é a mudança de proporções, o que parece mais evidente é que tem havido uma crise nas salas de cinema, está difícil levar as pessoas para o cinema. A não ser que esse filme seja um grande hype, ou tenha milhões de dinheiro investido em publicidade. Eu acho que é uma das crises de sociedade que a gente vive hoje. Os rituais estão muito prejudicados, em vias de desaparecimento. O ritual como uma forma de experienciar o tempo. O ritual te coloca num outro tempo. A sociedade da captura da atenção, a sociedade das redes sociais. Do tempo como mercadoria. Ela vem destruindo os rituais. E o cinema é um destes rituais que a gente criou. Um ritual muito bonito, onde várias pessoas vão numa sala escura, onde as pessoas vão sozinhas, ou com alguém, para que todos juntos possam viver uma mesma experiência, durante um período de tempo. Esse é o pacto. Você entrar na sala e viver essa experiência coletiva. E essa experiência está cada vez mais difícil, porque a pessoa tira o celular na hora do filme. É que nem um show. Você vai ver aquela banda tocando, mas você não consegue viver aquilo, porque você está vendo o show através da tela do celular. Estamos vivendo numa época onde esses rituais estão em crise. Se isso vai continuar assim, ou se vai melhorar, se isso é temporário, não dá para saber. O que nos aguarda no futuro é uma coisa difícil de prever. Mas, a morte no cinema, já se provou como algo estúpido de se prever.

Duda Leite é Jornalista, Curador e Cineasta.

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