
Com cena artística, cultural e social pulsante, cidade de Marília se firma como importante polo do estado (foto: Adauto Perin)
Leia a edição de novembro de 2026 na íntegra
POR TEREZA NOVAES
Batizada com o nome de um poema de amor, Marília nasceu entre os vales paulistas que descem mansamente para o rio Paraná, um platô de terra vermelha ideal para a construção de uma cidade cortada pelos trilhos do trem, localizada a 445 quilômetros da capital. Se até o início do século 20 prevalecia o cultivo do café, logo esse pedaço de chão no interior de São Paulo daria origem a um primeiro aglomerado urbano, o loteamento Alto Cafezal, bairro que conserva o mesmo nome até hoje.
Era uma época próspera, 628 casas cercavam a estação em dezembro de 1928, quando o primeiro trem parou diante da plataforma do pequeno edifício art déco, o estilo sem rococós que representava o que havia de mais moderno no país. Quatro meses depois, em 4 de abril de 1929, o município seria criado oficialmente.
Ao nomear as estações pelo interior do estado, a Companhia Paulista de Estradas de Ferro seguia uma lógica alfabética e, por isso, foi estabelecido que aquela começaria com a letra M. Em 1926, Bento de Abreu Sampaio Vidal, na época o dono das terras, bateu o martelo após ler o poema Marília de Dirceu, de Tomás Antônio Gonzaga (1744-1810), cujos versos árcades carregam promessas de sossego no campo. Um contraste curioso com a vocação da cidade que cresceu acompanhando diferentes ciclos econômicos e ajudou a consolidar São Paulo como a locomotiva financeira do país.
Marília brotou do café, mas o cultivo quase a matou antes que ela pudesse crescer. A crise de 1929 fez os preços despencarem e novas plantações foram proibidas. Por cerca de quatro anos, a economia da cidade ficou em suspenso, até que outra lavoura, o algodão, conseguiu reerguê-la. Em 1934, o município já produzia quase 700 mil arrobas e, em 1937-1938, passaria para mais de 3 milhões.

Esse duplo motor, ferrovia e lavoura, fez de Marília um polo que ultrapassava seus limites administrativos. No início da década de 1940, a cidade tinha duas fábricas de óleo de algodão e oito agências bancárias. “A cidade ganhou o apelido de Califórnia brasileira pelo seu enorme desenvolvimento. O algodão foi muito forte e o amendoim, também. Na década de 1940, com a explosão do algodão, vieram indústrias como a Anderson Clayton e a Matarazzo”, conta Wilza Aurora, moradora e guardiã da memória de Marília, que desenvolveu um trabalho pioneiro de história oral do município.
A rua São Luiz, no Alto Cafezal, pulsava com seu movimentado comércio, o que levou o escritor Herculano Pires (1914-1979) a descrever as suas esquinas como encontro de japoneses, baianos, sírios, judeus e caiçaras paulistas. Nas palavras do poeta, a principal via comercial da cidade era a “síntese do Brasil, essência de todos os mundos e civilizações”. Havia ainda os indígenas, os Kaingang. “Eles estiveram por muito tempo na região. Foram sendo empurrados, migraram para Santa Catarina e o norte do Paraná. Hoje, não estão, mas deixaram a sua marca. Assim como os nordestinos, que contribuíram não só na força de trabalho, mas sobretudo nos costumes”, afirma Wilza.
“Um dos meus avôs é de Minas e o outro, do Paraná. Me declaro pardo porque meu avô contava, e uma tia confirma, que meu bisavô era africano e a bisavó, indígena” conta o mestre de capoeira Luciano Oliveira. Ele mantém na zona Sul da cidade um ponto de cultura certificado pelo estado, o Coletivo Afro Cultural da Vó. “Meu avô vem da religiosidade de matriz africana, fomos criados dentro dessa cultura. É um coletivo familiar. Sou ogan e, hoje, a minha irmã é mãe de santo. Sobrinhos e primos também participam, somos nós que damos continuidade a esse trabalho.”

Efervescência cultural
A cidade que tem a poesia e a literatura em sua gênese continua a reverenciar e a celebrar essa tradição por meio das pessoas que movimentam a vida cultural. A Feira Literária de Marília (FLIM) e o Slam Subterrâneo são exemplos disso.
A FLIM nasceu do desejo de duas mulheres, Bárbara Duarte e Angélica Masson, de recolocar no cenário cultural a Biblioteca Municipal João Mesquita Valença, instalada na rua São Luiz. A primeira edição aconteceu em 2025 e teve cinco dias de programação com a biblioteca como palco central – cerca de 400 alunos da rede municipal visitaram o espaço, muitos pela primeira vez. No fim de semana, a festa se espalhou pela rua, com atividades, venda de livros, food trucks, contação de histórias, teatro e atrações musicais.
Uma das convidadas foi a cartunista Carol Ito, que cresceu na cidade e hoje vive na capital paulista. “Fiquei positivamente surpresa de ter acontecido esse movimento porque Marília não tinha tradição de eventos literários”, conta a artista, que deu uma oficina e também participou vendendo e autografando seus livros.
Para Bárbara, que recentemente viu a FLIM entrar para o calendário oficial da cidade, a grande surpresa foi descobrir o número de escritores que vivem ali. As organizadoras fizeram uma chamada pública, esperando 20 pessoas, mas apareceram 70. “Tenho certeza de que uma das vocações de Marília é a literatura, que vejo como uma planta que cresce no asfalto, no vão da calçada. Quem trabalha com a palavra sempre vai achar uma forma de existir”, afirma.
O Slam Subterrâneo também faz parte dessa cena. Modalidade de poesia falada, importante manifestação cultural periférica, o slam ganhou voz em Marília, em 2016, por meio de um coletivo de estudantes negros da Universidade Estadual Paulista (Unesp), uma das sete instituições de ensino superior da cidade. “Era um protesto pela liberdade de um jovem negro preso durante as manifestações de 2013, no Rio. Convidaram a Deusa Poetisa, que veio de São Paulo, para mostrar como se faz o slam. Foi assim que nasceu o Slam Subterrâneo”, conta Andreza Alves, aluna do mestrado de Ciências Sociais, que ajuda a manter o movimento ativo. Nascida na zona Leste da capital, Andreza mora em Marília há seis anos. “Vim para cá justamente por causa do slam, já participava do movimento em São Paulo desde 2014. Quando fui prestar vestibular, descobri que aqui tinha o slam mais antigo da região, foi o que me fez decidir”.
A cena de cultura urbana que Andreza encontrou a surpreendeu. “O hip hop aqui é muito forte, agora também estou trazendo a cultura sound system, a cultura jamaicana de rua, com outro coletivo do qual faço parte”.
A música vai além dessa cena urbana, com grupos de choro e samba (o da Velha Guarda organiza uma roda na rua, todas as segundas-feiras), black music, rock e jazz. “Não sei se por vocação ou necessidade, somos fortes na produção independente e sempre nos articulamos com outras cidades, como Bauru, Assis, Paraguaçu, Jaú e Londrina. Essa rede que se cria no interior é muito bacana”, explica Gustavo Nunes, produtor cultural e contrabaixista da banda Mahatma Groove. Trio de jazz instrumental, o grupo tem composições próprias e sempre conta com a participação de convidados em suas apresentações.

Outra preciosidade cultural de Marília, o Clube de Cinema também foi fundado de forma independente, em 1952. Um grupo de alfaiates da cidade se articulou com o Sindicato dos Ferroviários para que filmes chegassem até a região. Segundo mais antigo do Brasil e o único em atividade contínua desde sua criação, o clube peregrinou por diferentes cinemas e atualmente ocupa uma sala com 56 lugares, com programação regular e entrada gratuita. Essa longevidade levou o clube a acumular um grande acervo, com periódicos, cartas e materiais de diretores brasileiros como Hector Babenco (1946-2016), Anselmo Duarte (1920-2009) e Luiz Sérgio Person (1936-1976).
“O clube era muito influente e se comunicava com outros clubes internacionais e embaixadas de outros países. O primeiro festival de cinema japonês no Brasil foi realizado aqui”, afirma Cristiano Anechini, que preside a instituição desde 2024. “Temos uma carta no acervo de uma cidade de Portugal nos agradecendo pela ajuda para montar o clube de cinema lá. A experiência de Marília foi levada para vários lugares”.
Em 1960, o clube criou o Festival de Cinema de Marília – só para comparação, o tradicional Festival de Gramado teria início 13 anos depois. Em 1968, Luiz Sérgio Person recebeu o Troféu Curumim, principal premiação do festival, pelo filme O caso dos Irmãos Naves e, em 2024, houve uma homenagem, recebida por sua filha Marina Person, que presidiu o júri daquele ano.
Há um clima de retomada no clube: o festival voltou em 2023, depois dos anos pandêmicos, e ganhou novo fôlego (e público) com os sucessos recentes de filmes nacionais como Ainda estou aqui (2024) e O agente secreto (2025), ambos apresentados por lá. “Fazemos parte do circuito alternativo, de formação de público e circulação de obras”, orgulha-se Anechini. Atualmente, há um trabalho de digitalização do acervo histórico em curso, em parceria com a Unesp, além de parcerias com outras iniciativas da cidade, como o Festival Gastronômico.

Capital do alimento
Polo comercial e de serviços da região centro-oeste de São Paulo, Marília tem entre suas principais atrações os festivais em seus restaurantes, bares e cafeterias, com opções para todos os gostos: comida de boteco, café regional, café da manhã de hotel e o gastronômico, que já teve 11 edições. “No Festival Gastronômico, 15% do público vem de fora da cidade. Eles acabam se hospedando nos hotéis, e também aproveitam teatro, cinema ou shopping”, afirma Gilberto Rossi, executivo do Marília Convention Bureau. “É o mais tradicional da cidade. Na última edição, tivemos 23 restaurantes participantes e movimentamos mais de R$ 1 milhão na economia local. Ao longo de todas as edições, já arrecadou também mais de R$ 300 mil para entidades beneficentes”, completa.
Terra de gigantes da indústria alimentícia, Marília carrega o título de “capital nacional do alimento”, por produzir biscoitos, salgadinhos de pacote e doces que abastecem o país inteiro. A 15 quilômetros do centro, oito alqueires de terra apontam para outra relação possível entre a cidade e a comida.
O Sítio Munay existe há seis anos como espaço de práticas agroecológicas. Ali, a produção de alimentos caminha lado a lado com a regeneração da terra por meio de um sistema agroflorestal, que reúne mais de 80 espécies de árvores nativas e exóticas, entremeadas por hortas, milho, feijão, abóbora, quiabo e frutas como mirtilo e framboesa, tudo com práticas agroecológicas e sem agrotóxicos.

Um meliponário com nove espécies de abelhas nativas sem ferrão, distribuídas em quase cinquenta caixas, completa o sistema. O sítio também pratica o que ensina: as estruturas foram edificadas com bioconstrução, há saneamento ecológico, captação de água de chuva, energia limpa e compostagem. À frente do projeto está Alessandra de Morais, que foi professora na área de psicologia e educação da Unesp por 18 anos até decidir se dedicar integralmente ao projeto. “Senti uma preocupação imensa com o que estamos fazendo com a Terra. Uma angústia e um anseio muito fortes de entender como eu poderia contribuir com a teia da vida”, lembra.
O déficit de conceitos sobre educação ambiental na formação de professores foi outro ponto que a estimulou a realizar o projeto. Hoje, o Munay recebe grupos de escolas e de universidades para vivências ecopedagógicas, além de oferecer diversas práticas integrativas, como yoga, dança circular e banho de floresta. Do alto de seu observatório verde, Alessandra enxerga os desafios ambientais da região, como a cidade tem coleta seletiva parcial.
Questões que ela se propôs a enfrentar, replicando conhecimento e práticas. Um tipo de cultura necessária para a formação dos jovens marilienses e também para a transformação do planeta, que demonstra ainda como as pessoas dessa cidade seguem honrando os visionários que a construíram.
para ver no sesc / expansão
Espaço de múltiplas vivências
Sesc Marília abre as portas com opções de lazer, saúde e bem-estar e qualificação do tempo livre

No dia 14 deste mês, o Sesc São Paulo inaugura em Marília sua nova unidade no estado. Instalada em um terreno de mais de 56 mil m², com 11 mil m² de área construída, a unidade nasceu antes mesmo da construção do prédio, com o reflorestamento do que hoje é uma área de preservação permanente. Situada à beira de um itambé, formação geológica característica de Marília, que se assemelha a um cânion, a área possui espécies nativas (originárias desta região), que ajudam a equilibrar o clima e enriquecem a biodiversidade.
Sustentabilidade é uma das bases do projeto, assinado pelo escritório 1:2 Arquitetos, que incorporou e aprimorou soluções de outras unidades em prol do meio ambiente: o prédio aproveita o sol para a iluminação, possui placas para geração de energia elétrica e para aquecimento de água para vestiários e piscina. Referência à arquitetura moderna brasileira, os brises metálicos, um tipo de persiana externa, rebatem a incidência direta do sol, e os vitrôs basculantes, dispostos em oposição, criam ventilação cruzada, refrescando as áreas comuns naturalmente. A unidade conta ainda com um Centro de Educação Ambiental, que traz reflexões sobre as transformações da paisagem da região ao longo de milhões de anos.
Há um cuidado especial também com a água e o solo. Boa parte do terreno foi mantida permeável, com captação de água para reuso, e o esgoto será tratado em uma estação própria, mantida pela unidade. O ginásio poliesportivo tem 900 m² de área total e sua quadra pode receber não apenas partidas de futsal, handebol, basquete e vôlei, mas também outras atividades esportivas e artísticas. Há ainda um teatro para 217 pessoas com palco italiano de mais de 200 m2, equipado para receber peças, espetáculos de dança e música. A acessibilidade foi pensada dos dois lados, além dos lugares reservados na plateia, os camarins são adaptados e há uma entrada para a coxia sem obstáculos.
O acesso para pessoas com deficiência se estende a toda a unidade, incluindo rampa e cadeira de transferência para entrar na piscina. Com vista para o bosque, o parque aquático ocupa o enorme solário de mais de 1.000 m², e possui duas piscinas: uma recreativa adulta com duas raias demarcadas, e a infantil, com profundidade máxima de 0,40 m.
A vocação da unidade, porém, não se mede apenas em metros quadrados. O Sesc Marília chega com uma programação que atende toda a comunidade. Para bebês e crianças de até 6 anos, há o Espaço de Brincar, com materiais que instigam a imaginação e convidam à convivência entre gerações. Para os maiores, entre 7 e 12 anos, o Curumim, além do programa Juventudes, para adolescentes e jovens. A unidade também terá o Trabalho Social com Pessoas Idosas, que propõe a quem tem 60 anos ou mais atividades que estimulam a autonomia e combatem o etarismo.
Há ainda Comedoria, sala de múltiplo uso, quadras, biblioteca, Espaço de Tecnologias e Artes, com equipamentos e ferramentas; Ginástica Multifuncional, com uma academia completa; e clínica odontológica com quatro salas de atendimento, que oferece cuidado em saúde bucal a trabalhadores do comércio de bens, serviços e turismo e seus dependentes. Leia mais sobre a unidade e consulte a programação: sescsp.org.br/marilia
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