
Livre de qualquer amarra e incompreendido por muitos, cantor e compositor Jards Macalé investiu em sonoridade própria (foto: José de Holanda)
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POR JULIO MARIA
Hipnótico, magnético, introspectivo e dançável. Criança, ranzinza, suave, impaciente, centralizador, gregário e afetuoso. Compreensivo, tenso, acolhedor e desconfiado. Desafiador, objetivo, chorão, fácil, complexo. Ao ouvir pessoas próximas a Jards Macalé (1943-2025) para tentar traçar um perfil o mais perto da realidade possível, é difícil resumi-lo dentro de um padrão jornalístico para compreensão rápida.
E não ajuda muito ouvi-lo cantar sobre si mesmo, como faz no samba “Choro Esdrúxulo”, escolhido do repertório do amigo Moreira da Silva (1902-2000) por, talvez, guardar alguma identificação em trechos como: “Sou magnífico, emboladístico, pois sou metódico no radiodístico. Deixo patético o radiofônico, sou matemático num canto chorístico… Sou veranístico e enigmático, sou diabólico e pertenço ao ramo artístico.”
A imagem começa a ficar mais evidente na entrevista presente no documentário Um morcego na porta principal, de Marco Abujamra e João Pimentel, na qual Macalé fala do dia em que conversou com João Gilberto (1931-2019) sobre a solidão. “Como é essa história de ficar sozinho, João?”, quis saber. Depois de um tempo em silêncio, o compositor respondeu: “Ouça os seus barulhinhos”. A partir dali Macalé passou a ouvir-se, e quase enlouqueceu. “Nunca estamos sozinhos. Em última hipótese, está você com os seus eus, que não são poucos.”
Os Macalés que viviam ali não eram poucos e, com tanta informação, ficou impossível classificá-lo, justamente em um ramo no qual a classificação já nasce com o artista. Assim que os críticos perceberam o enrosco, o juntaram a uma turma de outros inclassificáveis e o etiquetaram com um selo que as gravadoras chegaram a festejar por imaginarem a possibilidade de torná-los mais vendáveis: “Maldito”. “Maldito é a mãe”, respondia Macalé.
A maldição de Jards Anet Macalé, morto em 2025, aos 82 anos, foi a sua bênção. Carioca livre entre baianos exilados, erudito amante do violão torto, bossa-novista sem fofuras, tropicalista sem turmas, esquerdista sem a esquerda e popstar sem o pop, seu despertencimento estava na base de sua vida e de sua criação. Jards Macalé era, sobretudo, um infiel. E o preço pago pelos infiéis é alto.
A História precisa de um distanciamento para entendê-los. “Quando vamos ler os livros sobre história da música brasileira que falam desta geração, Jards ocupa sempre um lugar muito pequeno, quando ocupa algum lugar. Ele é citado a reboque, colado, ou como uma espécie vinculada aos compositores baianos do tropicalismo musical. Jards não é lido como um protagonista desta história. Talvez as gerações mais novas comecem a mudar isso um pouco”, diz o historiador e biógrafo do artista, Fred Coelho, autor do livro Jards Macalé – Eu só faço o que quero (2020, Numa Editora).
Não havia persona alguma, ele era aquilo, aquela figura de pensamento rápido e sensível, capaz de chorar até assistindo novelas
Rejane Zilles, cineasta e companheira de Jards Macalé
Sonoridade própria
Se o desconhecimento popular sobre Jards Macalé é compreensível, sua marginalização acadêmica é mais difícil de justificar. O sinal mais flagrante dela são três discos pouco lembrados até por quem valoriza a importância deles para outras criações: o LP Jards Macalé, de 1972, seu primeiro depois do compacto Só morto, de 1970; Aprendendo a nadar, de 1974; e Contrastes, de 1977. Ao contrário desses álbuns, a atuação do artista como diretor musical e arranjador de Transa, de Caetano Veloso, já passou por uma revisão histórica nos anos 2000, a reboque da reavaliação do próprio disco, como observa Fred Coelho.
Transa foi pensado e gravado em Londres em 1971, durante o exílio de Caetano, e lançado em 1972. A sonoridade seca de Transa, migrada depois para os discos de Jards, é percebida como origem de um conceito acústico que marcaria os valvulados anos 1970. E que, 50 anos depois, seria atualizada com veneração por músicos como os compositores Rômulo Fróes, Kiko Dinucci, Rodrigo Campos e o próprio Caetano Veloso. “Esse som traz a mesma força usada em gêneros como o funk e a disco music. Por soar mais próximo do ouvinte, acaba se tornando mais confidente. É a sonoridade que sempre procuramos”, diz o engenheiro de som Ricardo Camera, presente em dois álbuns vencedores de prêmio Grammy em 2025.

Curioso saber hoje, ouvindo quem esteve lá, que nada foi tão pensado: “Nada. Não conversamos sobre isso. Caetano confiava muito em Macao [um dos apelidos de Macalé] e Macao confiava nos músicos que estavam com ele. Ficamos à vontade”, conta o baterista Tutty Moreno, que não tocou em todas as faixas, mas formou a base com o guitarrista Lanny Gordin (1951-2023), o baixista Moacyr Albuquerque (1945-2000), o percussionista e também baterista Áureo de Sousa e os violões do próprio Caetano e de Macalé.
Há um antes e um depois de Transa na vida de Jards Macalé. O antes explica o alcance de sua visão musical, como estudioso do violão clássico de Turíbio Santos, das harmonias, dos arranjos das orquestrações com o mestre dodecafônico César Guerra-Peixe (1914-1993) e, ao contrário de Caetano e Gil, como um músico da noite.
“A meta musical dele não eram os Beatles ou a guitarra elétrica”, diz Coelho, lembrando das intenções dos tropicalistas em 1967. “Jards era um violonista tradicional carioca seguidor de João Gilberto, admirador e aluno de Turíbio Santos. Um homem que conhecia os violonistas do choro, que teve aula com Meira (professor de Baden Powell).”
Técnico e despojado
Atuar em espetáculos de samba, dirigir e acompanhar Maria Bethânia na Boate Cangaceiro, entrar como violonista substituto de Roberto Nascimento no espetáculo Opinião, estudar música clássica na escola ProArte, trabalhar como copista, transcrevendo partituras para os músicos da Orquestra Tabajara, de Severino Araújo (1917-2012). Tudo isso, somado aos encontros com poetas como Waly Salomão (1943-2003) e, posteriormente, com o cineasta Nelson Pereira dos Santos (1928-2018), que o dirigiu nos filmes O amuleto de Ogum (1974) e Tenda dos milagres (1977), foi criando a fé que Macao, mesmo sentindo-se solitário, tinha em si mesmo.
Joyce Moreno, casada com Tutty, lembra de seu primeiro amigo na música a partir de 1967. “Amigo e parceiro. Até então eu só compunha sozinha. Éramos grudados. Líamos os mesmos livros, íamos à praia. Ele tocava os choros de Villa-Lobos (1887-1959) ao violão, sabia tudo.”

Ela faz um paralelo com o artista Pablo Picasso (1881-1973) quando é perguntada sobre os caminhos tomados pelo parceiro. Conscientemente ou não, Macalé pega o rumo contrário à busca pelo acabamento dos eruditos. “Picasso sabia de todos os fundamentos acadêmicos das artes antes do cubismo. Mas ele se desfaz desses conceitos para criar outra linguagem a partir daquele momento. Chuta o balde.”
Rômulo Fróes é um dos artistas contemporâneos mais influenciados por Macalé. Ao lado de Kiko Dinucci, trabalhou nos dois últimos álbuns do artista, Besta fera e Coração bifurcado. Ele cita a canção “Imagens”, de Aprendendo a nadar, como exemplo da contradição entre dois mundos da qual Macalé se erguia: “‘Imagens’ tem um arranjo emocionante, lindo, com as cordas em ostinato. E, de repente, ele faz um solo de violão todo estranho, com notas na trave. Chega a fungar no meio. Muitos produtores de hoje não deixariam passar.”
Fróes lembra de uma definição que o próprio amigo gostava de dar a si mesmo, citando o apuro de um mestre do violão espanhol com a embriaguez de um dos maiores sambistas brasileiros: “Sou Andrés Segovia (1893-1987), violonista espanhol, com Nelson Cavaquinho (1911-1986).” Fred Coelho coloca mais gente no caldo para explicar a complexidade de um violão que, segundo ele, ainda não foi reconhecido como deveria: “É altamente técnico e altamente sujo. Tem ali o João Gilberto, o Nelson Cavaquinho, o Jimi Hendrix (1942-1970), o Baden Powell (1937-2000). Esse é o violão do Jards Macalé.”
Ao contrário do que pode parecer, Macao era cioso do afrouxamento de seu violão, e pobre de quem tentasse domesticá-lo. Dori Caymmi, de uma escola de harmonizadores mais limpos, viveu a experiência de colocar um acorde a mais em uma canção do amigo. “Ele me mostrou uma das primeiras músicas que fez, ‘Tarde demais’. Eu fui e coloquei um acorde dissonante ali que julgava muito bonito. Ele ficou uma fera quando ouviu, disse que eu estava estragando a canção que ele fez.”

Artista sem lugar
Menino nascido na Tijuca, Rio de Janeiro, às margens do Morro da Formiga, vizinho do cantor do rádio Vicente Celestino (1894-1968) e da atriz e cantora Gilda de Abreu (1904-1979), os quais dizia ouvir cantarem de sua casa, ele passou a vida respondendo à pergunta: “por que Macalé?”. Quando a família se mudou para Ipanema, ia às peladas de futebol mesmo sem nenhuma habilidade com a bola. Macalé, à época, era o nome do pior jogador do Botafogo. E assim ficou.
O episódio mais disruptivo de sua carreira aconteceu assim que lançou o álbum Banquete dos mendigos, um show feito em 1973 em homenagem à Declaração dos Direitos Humanos. A ideia, originalmente da diretora do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, Heloísa Lustosa (1928-2022), era levar seu álbum pessoalmente às mãos do general Golbery do Couto e Silva (1911-1987), Chefe do Gabinete Civil e homem forte do então presidente Ernesto Geisel (1907-1996), um dos criadores do Serviço Nacional de Informações (SNI) e teórico da doutrina de segurança nacional.
Motivado por um sentimento do recém-anunciado afrouxamento e abertura “lenta e gradual” do regime militar e certamente influenciado pelas ideias do cineasta Glauber Rocha (1939-1981), que acreditava que a liberdade só seria possível pelo entendimento com os próprios militares, Macao colocou o LP debaixo do braço e partiu para Brasília. O resultado do encontro, para sua carreira, seria desastroso.
“Eu dei o meu disco e ele me deu o livro dele, Geopolítica do Brasil, assinado: ‘Ao incrível Macalé, toda admiração e respeito de Golbery do Couto e Silva’. Trocamos figurinhas. Quando eu voltei para o Rio de Janeiro, o resultado…”, contou o artista para o biógrafo Fred Coelho. Jards deixou o encontro ser fotografado, e ainda deu uma entrevista bomba para as páginas amarelas da revista Veja. “É quando ele é totalmente queimado”, diz Coelho.
A recondução de Jards aos grandes álbuns se deu em 2019, quando ele lançou seu primeiro disco de inéditas em 20 anos, Besta fera, com a direção musical do próprio Macalé, produção de Kiko Dinucci e Thomas Harres e direção artística de Rômulo Fróes. Em 2023 sairia Coração bifurcado, seu último álbum.
É altamente técnico e altamente sujo. Tem ali o João Gilberto, o Nelson Cavaquinho, o Jimi Hendrix, o Baden Powell. Esse é o violão do Jards Macalé.
Fred Coelho, historiador e autor do livro Jards Macalé – Eu só faço o que quero
Acervo inédito
“Jards era uma criança.” Quem pode falar do homem por trás da capa é Rejane Zilles, cineasta e companheira de Jards pelos últimos 14 anos de sua vida. “Não havia persona alguma, ele era aquilo, aquela figura de pensamento rápido e sensível, capaz de chorar até assistindo novelas.” Para Fróes, é pelas mãos de Rejane que a vida de Macalé é organizada: “Ela o coloca de novo na roda, organiza sua vida. Não sei se Jards faria isso sozinho.”
Ao se referir a Jards e a sua perda, Rejane fala em voz baixa e lenta: “Ainda me dói porque foi interrompido. Estávamos agora começando a cruzar nossos caminhos artísticos, juntando música e cinema.” Além de produzir e dirigir o premiado curta Macaléia, sobre uma instalação feita em homenagem a Jards pelo artista Hélio Oiticica (1937-1980), ela finaliza também o longa London 70, sobre a comunidade artística que se formou em Londres a partir do exílio de Gil e Caetano. Serão usadas imagens inéditas captadas pelo próprio Macalé. Material para outros projetos não faltam. “Só as cartas trocadas por Macalé e Caetano sobre Transa dariam um livro, além de muito material de shows que ele mesmo guardava”, diz Rejane.
Fred Coelho diz sobre o que, da carreira de Jards, falta ser iluminado: “O que se tem a descobrir não se descobre mais. É o Jards ao vivo. Ele era um showman. Se eu tiver uma última frase para falar a você, é: ‘o Jards era um cantor popular’. Nunca vamos entender como um cara desses é visto como maldito justamente pelo segmento que deveria ter informado direito a singularidade desse artista.”
para ver no sesc / bio
Para celebrar Macalé
Músico marcou presença em programações do SescTV e do Selo Sesc

Ao longo de sua trajetória, Jards Macalé se apresentou em diversas ocasiões no Sesc São Paulo. Para relembrar sua obra no mês que marca um ano de seu falecimento, o SescTV apresenta o documentário Jards, de Eryk Rocha, dentro da faixa de documentários musicais, em 6/11, às 22h. Saiba mais em sesc.tv/jards.
O músico também participou do álbum Sessões Selo Sesc #14: Cancioneiro Geral – Tributo a Capinan, lançado em 2025. Na gravação, canta quatro canções compostas em parceria com o homenageado: “Gotham City”, “Meu amor me agarra e geme e treme e chora e mata”, “Movimento dos barcos” e “Farinha do desprezo”. Acesse em sescsp.org.br/selosesc.
Além disso, é possível assistir ao show de estreia da turnê do disco Síntese do lance, que João Donato (1934-2023) e Jards Macalé criaram e gravaram juntos diretamente do Sesc Pinheiros, em dezembro de 2021, com presença da plateia, e no palco do Música #EmCasaComSesc. O vídeo está disponível em youtube.com/sescsp.
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