Inventário de memórias

29/10/2026

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Diferentes gerações mostram como as culturas negras ampliam a ideia de herança: mais do que receber algo do passado, transformar, compartilhar e preparar o caminho para quem ainda virá (foto: Andrea Rego Barros)

Leia a edição de novembro de 2026 na íntegra

POR LUCAS VELOSO

Ainda criança, a chef Carmem Virgínia gostava de acompanhar a avó, Dona Edna Amara, no preparo da galinha de cabidela. A menina observava o modo de matar a ave, recolher o sangue e levar a receita ao fogo. Décadas depois, a chef ainda prepara o prato, embora já não repita todos aqueles gestos. O que permanece é outra coisa: o sabor, a lembrança, a maneira de servir. “É uma forma de manter uma tradição viva”, diz. Entre uma cozinha e outra, houve muitas mudanças, mas algo permaneceu dentro dela.

No dikenga dia Kongo, cosmograma ligado à cosmologia Bakongo, o movimento do sol ajuda a pensar essa continuidade. O astro nasce, alcança o ponto mais alto, declina e desaparece no horizonte sem que seu desaparecimento represente um fim. Nascimento, amadurecimento, morte e ancestralidade fazem parte de um ciclo em que o mundo visível e o mundo espiritual se relacionam. A imagem também desloca a maneira de olhar para o tempo: o passado não precisa permanecer imóvel atrás de alguém, pode atravessar o presente e encontrar outras formas de seguir no futuro.

Talvez por isso a noção de herança se torne pequena quando limitada ao patrimônio material deixado depois da morte. Casas, terrenos, dinheiro, joias e documentos cabem em inventários civis, mas como inventariar uma maneira de mexer uma panela, uma história ouvida quando criança, o conhecimento para escolher a melhor semente, uma palavra transformada por gerações, a coragem aprendida diante de uma divindade ou uma luta iniciada por alguém que talvez nunca veja seus resultados?

Sob diferentes perspectivas das filosofias negras, o conceito de herança também alcança o que não se mede nem se escritura: cultura, memória, afetos, crenças, oralidade, modos de viver e saberes que circulam entre pessoas, territórios e tempos. É uma lógica que dialoga com a ideia de “começo, meio e começo”, formulada pelo intelectual quilombola Antônio Bispo dos Santos (1959-2023), o Nêgo Bispo, para pensar a vida pela continuidade, e não pela linearidade de um começo, meio e fim.

A terra não termina na cerca
Luiz Marcos de França Dias, o Ketu, é quilombola da comunidade São Pedro, no Vale do Ribeira, interior paulista. Professor, escritor, pesquisador e capoeirista, ele começa a pensar herança pela terra; no contexto quilombola, ele explica, a palavra significa território, um espaço onde coexistem pessoas, animais, plantas, rios, árvores e entes espirituais, e onde também se acumulam modos de plantar, tecnologias, relações sociais e conhecimentos transmitidos de geração em geração. “Sem o território, não há vida”, resume.

A memória, nesse caso, não está confinada a um prédio. Para Ketu, o campo no centro do Quilombo São Pedro guarda histórias, assim como o rio, a várzea, a escola, a igreja e o centro comunitário. Quando a comunidade participou da curadoria de uma exposição e passou a discutir a criação de uma casa de memórias, surgiu uma questão: como colocar entre quatro paredes aquilo que continua espalhado e vivo por todo o território? Um pilão ajuda a entender o dilema. O objeto pode aparecer numa exposição como testemunho do passado, mas é semelhante ao pilão que continua nas casas, utilizado para socar café, arroz e milho.

A mesma lógica vale para os saberes. Dona Valni, mãe de Ketu, vai à horta acompanhada pelos netos, que plantam, regam e reconhecem hortaliças; em outro momento, o pai orienta um adolescente da família a manejar a foice para preparar a roça. Ketu aprendeu capoeira e percussão com parentes mais velhos, enquanto os jovens de hoje também ensinam os mais velhos a enviar mensagens pelo celular. “A geração mais velha, por outro lado, nos ensina a viver”, afirma.

Ketu, professor e escritor quilombola: memórias espalhadas pelo território e transmitidas para toda a comunidade (foto: Nilton Fukuda).

Aquilo que a panela guarda
Na cozinha de Carmem, essa conversa passa pelo fogo. A chef pernambucana diz que sua herança foi construída mais na cozinha do que em documentos e chama a comida de “uma espécie de arquivo vivo”, capaz de guardar memória, território, fé, afeto, dor, celebração e estratégias de sobrevivência. Aprender a temperar um feijão, escolher uma folha ou reconhecer o tempo do fogo, para ela, é receber mais do que uma receita: “Está transmitindo uma tecnologia de vida”. Por isso, a galinha de cabidela da avó importa menos como reprodução exata e mais como continuidade. Carmem já não cozinha como Dona Edna em todos os detalhes, mas ainda procura servir o prato como ela fazia.

Nem tudo cabe no papel. Uma receita pode mandar dourar um ingrediente, observa Carmem, mas não informa exatamente qual dourado aquela cozinheira espera, que cheiro indica a hora de mexer ou quanto de pimenta a memória de uma mão aprendeu a colocar. “A receita pode ser um mapa, mas a convivência é o caminho”. Essa percepção ganhou outra dimensão quando esteve em Angola e na Guiné, países no continente africano, onde entrou em contato com mercados, ingredientes e modos de cozinhar. Ao preparar pratos como arroz jollof, fufu e muamba, reconheceu ali gestos que não havia aprendido formalmente. “Foi como reconhecer uma língua que eu não sabia que falava”.

Autora de “Tataruê” e “Quem tem carinho me leva”, a cantora e compositora Geovana também localiza parte do que recebeu dentro de casa. Nascida como Maria Teresa Gomes, no Rio de Janeiro, ela recorda a mãe trabalhando na feira e os aprendizados que chegaram pela convivência: nomes de ervas, comidas, orações, banhos, doces e referências aos orixás. “Isso veio para mim de maneira oral”, conta. A música se tornou outra forma de transportar experiência no tempo. Ao lembrar artistas com quem conviveu e amigos que já morreram, Geovana cita que a carreira lhe deu a possibilidade de andar de cabeça erguida e resume o conhecimento acumulado numa frase: “O meu diploma é chamado vida”. Aos 78 anos, vê a velhice como um lugar do qual é possível olhar “ontem, hoje e agora” e continuar transmitindo o que foi vivido.

A cantora e compositora carioca Geovana: música como forma de experimentar o tempo e compartilhar saberes (foto: Nilton Fukuda).

Quando resta apenas um vestígio
Nem toda herança chega com a nitidez de uma receita ou de uma lembrança familiar. Algumas precisam ser procuradas entre marcas deixadas por quem tentou apagar uma existência. Layne Gabriele, pesquisadora e mestranda em Linguística Aplicada na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), estuda anúncios produzidos para localizar e recapturar pessoas que escapavam da escravização. Esses documentos não foram criados para preservar suas memórias, mas, ao descrever os homens e mulheres procurados, acabaram registrando vestígios de suas maneiras de falar. “O que a gente herda quando a nossa voz não foi preservada, mas o vestígio da sua essência continua ali?”, pergunta.

Para ela, a herança também é construída pela relação com aquilo que conseguiu alcançar o presente. Ao falar de conhecimentos produzidos nas periferias, ela se recorda da avó indo à xepa no fim da feira. Quando criança, podia enxergar aquela prática apenas como consequência da falta de dinheiro. Adulta, passou a reconhecer ali também formas de economia, reaproveitamento e sustentabilidade que existiam antes de receber esses nomes. Não se trata, ressalva, de “romantizar a pobreza, mas de perceber saberes que muitas vezes só são legitimados quando ganham uma nova linguagem”. A mesma reflexão se estende ao português, transformado continuamente por gírias, ritmos e maneiras de falar, e ao movimento funk, que Layne enxerga também como espaço de criação linguística.

Layne Gabriele, pesquisadora e mestranda em Linguística Aplicada na Universidade Estadual de Campinas, que pesquisa como vestígios estão presentes como heranças (foto: Isabella Aparecida)

Há heranças que não chegam como vestígio, mas como possibilidade aberta por quem veio antes. Pedagoga, mestra em Educação e doutoranda na Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP), Ana Flor Fernandes foi a primeira travesti a se formar em Pedagogia pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Para ela, ocupar a universidade não pode ser entendido como uma realização exclusivamente individual, porque o caminho está ligado a lutas de gerações anteriores. Ao pensar nessas genealogias, cita Xica Manicongo [hoje, reconhecida como uma travesti negra, escravizada em Salvador, no século 16], Kátia Tapety [vereadora no interior do Piauí entre 1993 e 2004, primeira transexual a ser eleita para um cargo político no Brasil] e a ativista baiana Jovanna Baby. “A história não é simplesmente algo que passou, ela é viva e pulsante”, afirma. Em Recife, cita também Chopelly Santos, liderança da Articulação e Movimento para Travestis e Transexuais de Pernambuco (Amotrans), com quem aprendeu que “toda travesti é uma fábrica de sonhos”.

Uma história da infância dá a essa ideia uma escala doméstica. O avô Francisco, seu Chico, tinha uma das poucas bicicletas da rua e a emprestava a quem quisesse aprender a pedalar ou simplesmente passear. Ana Flor diz ter aprendido ali que “a liberdade ganha sentido quando é compartilhada”. Anos depois, ao entrar pela primeira vez numa sala de Educação de Jovens e Adultos (EJA) como professora, lembrou da bicicleta. Sua relação com o candomblé traz outra espécie de continuidade: por volta dos 14 anos, soube pela mãe que a avó materna, Odete, era candomblecista e mantinha um terreiro em uma comunidade do Recife. Anos depois, Ana Flor também seria iniciada na religião. Hoje, segue a trajetória no Ilé Ode. Maroketu Às.e. O.ba, na zona Leste de São Paulo.

Ana Flor Fernandes, primeira travesti a se formar em Pedagogia pela Universidade Federal de Pernambuco,que celebra a sua formação universitária como uma vitória de gerações anteriores (foto: Luana Rocha).

Tornar-se trovão
Babalorixá, linguista, semioticista, professor e escritor, Sidnei Nogueira coloca a espiritualidade negra no centro da própria formação. Neste ano, seu livro Intolerância religiosa (Record), publicado originalmente em 2020, ganhou uma edição revisada e ampliada. A discussão sobre racismo religioso, perseguição a comunidades de terreiro e liberdade de crença atravessa também sua experiência pessoal.

Nogueira cresceu dentro do terreiro e descreve a si mesmo, quando criança, como um “menino preto, gordo, medroso e chorão”, que procurava o fundo da sala para não ser visto. Ao olhar para a própria trajetória, formula uma pergunta: “O que permitiu que eu me tornasse trovão?”. A resposta passa pela fé. “O que foi me tirando esse medo? Foi Xangô”, diz. Nogueira chama esse repertório de símbolos e sentidos de “herança semiótica”, capaz de oferecer outras imagens de força, coragem e existência.

Sidnei Nogueira, babalorixá, linguista e professor: a espiritualidade negra transformada em herança (foto: FH Stúdio)

Há também uma memória em que herança e proteção se confundem. Sua mãe era de terreiro, e os rituais faziam parte da vida dentro de casa. Ainda assim, ela também o batizou na Igreja Católica, e Nogueira passou pelo catecismo e pela crisma. Adulto, perguntou por quê. “Tinha medo. Precisava que você se parecesse um pouquinho com eles”, respondeu a mãe.

Uma voz onde cabem outras
José Adão de Oliveira conhece a transmissão construída pela luta política. Educador social, escritor e um dos fundadores do Movimento Negro Unificado (MNU), participou das articulações que deram forma à organização no fim dos anos 1970. Décadas depois, foi convidado para conversar com estudantes que pesquisavam a ditadura militar e o movimento negro. Antes de sua fala, adolescentes apresentaram uma peça sobre “correntes invisíveis”, obstáculos que ainda impediam jovens de florescer. Depois da atividade, uma menina de 12 ou 13 anos se aproximou chorando.

A história contada por Oliveira lembrava aquilo que a mãe da garota narrava sobre um tio perseguido durante a ditadura. Para ela, recorda, era como se aquele tio estivesse falando por meio dele. É também assim que Oliveira compreende a própria voz. “Não é o Adãozinho que tá falando”, diz. Nela, podem aparecer o pai, o avô, a mãe centenária e outras gerações cujas histórias chegaram até o presente.

José Adão de Oliveira, um dos fundadores do Movimento Negro Unificado: conversas que conectam diferentes gerações (foto: Nilton Fukuda).

O movimento reaparece nas demais histórias. O pilão continua socando arroz. Uma receita muda e ainda conserva a avó. Uma mulher vai à xepa e, décadas depois, a neta encontra novas palavras para compreender aquele saber. Uma bicicleta passa de mão em mão. Uma divindade oferece a uma criança uma imagem possível de força. Uma narrativa contada numa escola faz uma menina ouvir novamente um tio que já não está ali. Herdar, nesse sentido, não significa reproduzir, mas permitir que alguma coisa continue, mesmo quando precisa mudar de forma.

Há uma história de Ananse, personagem das tradições orais akan, em que a sabedoria do mundo está reunida dentro de um pote. Ananse decide guardá-la para si e tenta levar o recipiente para o alto de uma árvore, mas o pote preso à frente do corpo atrapalha a subida. Uma criança que observa a tentativa sugere que ele o coloque nas costas. A sugestão contém uma provocação: se toda a sabedoria estava dentro daquele pote, como a criança ainda podia saber algo que Ananse não sabia? Em uma das versões da história, irritado, ele deixa o recipiente cair, e a sabedoria se espalha.

A chef Carmem Virgínia encontra, diante de outro recipiente, uma forma de resumir esse mesmo movimento entre receber, transformar e fazer seguir. “Herança, para mim, não é uma coisa que você guarda numa caixa. É uma coisa que você coloca no fogo”, diz. “Recebi e recriei. E agora tenho a responsabilidade de entregar”.

para ver no sesc / negritude

Negritude celebrada
De 5 a 15 de novembro, nove unidades do Sesc São Paulo recebem programações que valorizam arte, pensamento, memória e ancestralidade

Temas como ancestralidade, espiritualidade, musicalidade e resistência fazem parte da programação do Festival Sesc Culturas Negras (foto: Bruna Damasceno).

Herança. É a partir dessa palavra que a terceira edição do Festival Sesc Culturas Negras organiza sua programação em 2026. De 5 a 15/11, o projeto ocupa as unidades 24 de Maio, Belenzinho, Casa Verde, Galeria, Interlagos, Itaquera, Pinheiros, Santana e Vila Mariana, na capital paulista, e reúne atividades que refletem sobre as culturas negras, seus legados e as formas como continuam sendo recriados no presente.

Realizado anualmente e integrante do Programa de Diversidade Cultural do Sesc São Paulo, o festival parte de uma compreensão de herança que ultrapassa a transmissão de bens materiais e alcança dimensões como afeto, cultura, memória e conhecimento. A ação se organiza a partir de diferentes eixos: ancestralidade e comunidade, alimentação, espiritualidade, musicalidade, oralidade, resistência, moda, estética e beleza são alguns deles.

Por meio de festa, arte, pensamento, dança, canto, comida, palavra, espiritualidade e axé, o projeto propõe um olhar celebrativo para as culturas negras e para sua presença fundante no território brasileiro, ao mesmo tempo em que dialoga com desigualdades e questões estruturais que ainda atravessam as existências negras. A reinvenção cotidiana aparece, nesse contexto, como forma de preservar legados, produzir novos sentidos e transformar o presente.

Consulte a programação completa em sescsp.org.br/culturasnegras

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